Projeto didático criado por uma mãe, a partir da vivência familiar, aproxima o autismo do universo infantil e amplia o diálogo sobre o tema
Dentro de casa, cada escolha carrega uma intenção. O que aparenta ser um momento simples, como assistir a um filme, rir de uma cena ou repetir falas, faz parte de uma construção pensada para fortalecer vínculos e criar segurança.
Essa lógica, construída pela mãe Emanuele Souza da Silva (35), a partir da experiência com o filho Anthony, diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), ultrapassou os limites da casa e deu origem ao Autismo Cartoon, projeto que hoje atua como ferramenta de acolhimento e principalmente informação sobre o autismo.

(Foto: Arquivo Pessoal / Emanuele Souza da Silva)
DIAGNÓSTICO E ADAPTAÇÃO
O diagnóstico de Anthony veio cedo, aos dois anos de idade, em nível 3 de suporte – considerado o extremo mais grave dentro do espectro. À época, o cenário era marcado por crises sensoriais intensas, dificuldades de comunicação e episódios de sobrecarga que impactavam diretamente a rotina familiar. A compreensão do funcionamento do filho foi um processo gradual. Aos poucos, a família passou a perceber que os comportamentos não eram aleatórios, mas respostas a estímulos que, muitas vezes, passariam despercebidos para outras pessoas. Sons simultâneos, movimentações e estímulos do ambiente geravam uma sobrecarga que o cérebro não conseguia processar de forma organizada.
“Ele pega tudo o que está acontecendo ao redor dele ao mesmo tempo. E isso que para nós é normal, tranquilo, para eles causa uma exaustão cerebral, porque o cérebro tenta trabalhar cada pedaço e não consegue. Vem toda aquela carga de uma vez só. Não é que ele não tenta. É por ele tentar demais que ele não consegue.”
A partir dessa leitura, a estratégia deixou de ser apenas reagir às crises e passou a ser antecipá-las. O caminho encontrado foi o de direcionar a atenção de Anthony para aquilo que lhe despertava interesse, os chamados hiperfocos, como forma de reduzir sua sobrecarga sensorial. Esse acompanhamento próximo, aliado às terapias, trouxe resultados progressivos. Por volta dos quatro anos, Anthony começou a apresentar mudanças significativas, tendo redução das crises e avanço na comunicação.

JANELA DE DESENVOLVIMENTO
A evolução observada ao longo dos anos reforça um ponto recorrente na área: a importância do diagnóstico precoce. Quanto mais cedo a identificação ocorre, maiores são as possibilidades de intervenção e desenvolvimento. Essa perspectiva é respaldada por especialistas como a analista comportamental, psicopedagoga e especialista em autismo Elisângela de Fátima Rizzatto, que aponta a primeira infância como um período decisivo para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais e comunicativas.
“Entre os 0 e 6 anos nós temos várias ‘podas neurais’, ou seja, aqueles neurônios que não são utilizados acabam morrendo. […] Então, quanto mais cedo nós estimularmos a criança, mais chances nós temos de desenvolvimento”, comenta.

O processo está diretamente ligado à forma como o cérebro se desenvolve nos primeiros anos de vida. É nesse período que se estruturam funções essenciais, como linguagem, interação social e regulação emocional, habilidades que podem ser significativamente potencializadas quando há estímulo adequado desde cedo. No entanto, essa não é a realidade observada. “A maioria das crianças hoje, infelizmente, chegam depois dos cinco, seis anos de idade. A idade ideal para que toda criança pudesse ser diagnosticada seria antes dos dois anos.”
O cenário revela um distanciamento entre a recomendação técnica e a realidade enfrentada pelas famílias. Fatores como a dificuldade de acesso a especialistas, longas filas no sistema público e falta de informação contribuem para esse atraso. E quando a aproximação ocorre, esse desenvolvimento pode ainda ser arrastado. “Ela entra numa fila para ir para esse médico e vai demorar às vezes um ano, dois anos. […] Depois entra numa fila para terapias, e essas terapias podem demorar o mesmo período. Quando chega a vez dela, quanta coisa ela já perdeu…”, completa Elisângela.
Emanuele, no entanto, procurou adotar outras estratégias para além do tratamento convencional. A rotina foi sendo reorganizada a partir da observação dos estímulos demonstrados pelo filho, com a criação de ambientes mais previsíveis, redução de sobrecargas sensoriais e uso direcionado dos hiperfocos. A mediação constante, tanto dentro de casa quanto em espaços externos, também se tornou parte central desse processo, buscando não apenas o desenvolvimento de Anthony, mas a construção de formas mais acessíveis de interação com o mundo ao seu redor.
É literalmente conhecer o ser humano que o meu filho é. Não é só olhar para o diagnóstico. Quando eu consegui entender isso, eu passei a trabalhar a parte sensorial dele de outra forma. Eu não tiro o que ele gosta, eu mostro que existem outras possibilidades.
Essa lógica também passou a orientar o próprio processo terapêutico. Diante de momentos de cansaço, o caminho não foi interromper o acompanhamento, mas reformulá-lo a partir dos interesses da criança, incorporando atividades como teatro e dublagem, de modo a tornar a experiência mais acessível e favorecer o seu envolvimento. “Teve uma época que eu estava saindo da terapia e ele disse: ‘não aguento mais fazer terapia’. E eu disse: ‘não, filho, tu vai continuar’. Então a gente começou a trabalhar com outras formas. Eu e a profissional reorganizamos tudo para ele se sentir mais à vontade. A gente pensou no que ele gostava: teatro, dublagem, brincadeiras. E a partir disso ele foi se soltando de novo.”
PRECONCEITO COMO PONTO DE PARTIDA
Foi justamente diante desse cenário de desinformação e dificuldade de compreensão que surgiu o projeto Autismo Cartoon. O ponto de virada aconteceu na escola do filho mais velho de Emanuele, Juan Lorenzzo (13), quando uma situação de preconceito expôs a dificuldade das crianças em compreender o comportamento do irmão Anthony.
“Uma criança perguntou para o meu filho mais velho o que o irmão tinha, e ele respondeu que era autista. E o colega disse que ele “era louco”. Meu filho chegou em casa chorando, dizendo que não queria que chamassem o irmão dele de ‘louco’. Foi ali que eu entendi que precisava explicar o autismo para as crianças de uma forma que elas entendessem.”
Como que eu vou falar pra essas crianças que o meu filho tem uma maneira única de ver o mundo?
A resposta veio por meio da linguagem lúdica. Utilizando personagens, histórias e elementos visuais, Emanuele encontrou uma forma acessível de traduzir o TEA para o universo infantil. A primeira apresentação, feita na escola, teve impacto imediato na forma como as crianças passaram a enxergar o filho.
A construção dessa abordagem partiu de referências que ela já possuía: uma personagem, desenhada em um caderno antigo, como sugestão para o programa humorístico da TV Globo, Zorra Total, foi resgatado e adaptado para aquele contexto, enquanto novos personagens foram criados a partir de vivências familiares, ajudando a representar, de forma simples, diferentes características do espectro. O conteúdo foi inicialmente desenvolvido em formato de vídeo e divulgado no Youtube, com roteiro revisado por especialistas no assunto, e posteriormente apresentado na escola, contando com a caracterização dos personagens e uso de elementos visuais. A iniciativa, que começou como uma tentativa de explicar o autismo em uma localidade específica, rapidamente passou a ser replicada em outras instituições, dando origem ao Autismo Cartoon.

A partir das primeiras experiências, Emanuele começou a se conectar com profissionais da área, famílias e criadores de conteúdo que explanavam, sem medo de julgamentos, que também possuíam o diagnóstico. E foi assim que formou uma base de apoio que contribui até hoje para a construção do seu conteúdo. Com 32 mil seguidores nas redes sociais, a iniciativa ampliou seu alcance e passou a atuar também como um espaço de contribuição científica. Para além da linguagem que marcou o início do projeto, o conteúdo passou a incorporar contribuições de especialistas e pessoas autistas, fortalecendo o compromisso com a divulgação de informações embasadas.
Essa construção coletiva se reflete na forma como o projeto é conduzido. Emanuele mantém uma curadoria cuidadosa do que é publicado, priorizando conteúdos com respaldo científico e experiências reais, ao mesmo tempo em que preserva a linguagem acessível que caracteriza a iniciativa desde o início. O próprio nome do projeto carrega essa origem. O termo “Cartoon” faz referência ao uso de personagens e ilustrações que ela ainda utiliza como ferramenta de comunicação, através do seu livro Nuvenzinha Sophia e seus amigos Anthony e Juan em uma Aventura do TEAmo.

(Foto: Rebecca Mistura / GZH)
ALÉM DO DIAGNÓSTICO
Hoje, o cenário é outro. Aos 12 anos, Anthony já apresenta avanços significativos na comunicação e na forma como interage com o mundo ao seu redor. O nível de suporte, antes diagnosticado como 3, reduziu para 1. As crises, antes frequentes, também foram reduzidas, e a compreensão sobre seus próprios limites e preferências passou a orientar a rotina. Esse processo, no entanto, não é visto como um ponto de chegada, mas como uma construção contínua. Cada avanço é resultado de anos de acompanhamento, adaptação e, principalmente, escuta.
“Eu virei profissional do meu filho. Tudo o que os profissionais fazem com ele, eles me repassam, e eu aplico dentro de casa. Eu fui estudar neurociência, ABA, multissensorial, porque eu precisava entender como ajudar ele no dia a dia. Por isso eu digo para as mães: ‘estudem, porque não tem outra forma.'”
A trajetória de Anthony evidencia que o desenvolvimento dentro do espectro não segue uma linha única. Ele é atravessado por estímulos, oportunidades e, sobretudo, pelo reconhecimento das singularidades de cada indivíduo. “Se ele riscava a parede, eu não brigava. Eu pintei uma parede como se fosse um quadro para ele desenhar. Se ele picotava papel, eu pegava aquele papel e ensinava ele a colar. Então eu não mostrava que era errado, eu mostrava outra forma de fazer.”
Eu nunca trabalhei tirando o que ele fazia. Eu trabalhava em cima do que ele me mostrava.
ENTRE MÃE E ESPECTRO
Ao longo desse percurso, a própria Emanuele passou a revisitar a sua história. O contato constante com o universo do autismo, aliado à convivência com o filho e às trocas com outras pessoas dentro do espectro, levantou questionamentos que antes não estavam colocados. Hoje, ela também está em processo de investigação diagnóstica.
Eu comecei a me enxergar no meu filho.
A possibilidade não é encarada como um rótulo, mas como uma ferramenta de compreensão. Para ela, entender o próprio funcionamento é mais um passo dentro de uma trajetória que sempre foi marcada pela busca de sentido e adaptação, seja no meio escolar ou nos ambientes de trabalho. “Eu nunca fui uma pessoa que socializou muito, sempre preferi ficar sozinha, escrevendo, lendo. Hoje eu consigo socializar, mas eu me canso muito rápido e preciso ficar dias quieta depois”, conta.

(Foto: Arquivo Pessoal / Emanuele Souza da Silva)
Entre uma construção baseada em vivências pessoais e a produção de conhecimento, o Autismo Cartoon segue como um espaço de transformação constante. Mais do que um projeto, se estabelece como um ponto de encontro entre informação, experiência e acolhimento, um local onde cada história ajuda a ampliar a compreensão sobre o TEA, e sobretudo, sobre as múltiplas formas de perceber e estar no mundo.
