Olhar para o passado nos ajuda a entender o presente. Dia 10 de março, foi celebrado o Dia do Telefone, inventado em 1876 por Alexander Graham Bell. Desde lá ele já passou por muitas versões, que ainda convivem umas com as outras. Quem caminha pelos corredores da antiga Faculdade de Artes e Comunicação da UPF, hoje Prédio D2 do IHCEC, pode nunca ter reparado em um objeto símbolo de uma era não tão distante: o velho orelhão.
O que em outra época foi o centro da comunicação universitária, uma verdadeira salvação para alunos e professores, hoje é testemunha de uma revolução tecnológica que transformou o telefone de uma necessidade vital coletiva para uma preocupação pedagógica individual.
Mas como foi que chegamos até aqui? Refizemos a linha do tempo dessa transição guiados pelas memórias de quem viveu essa mudança de perto.
De artigo de luxo à necessidade
Na década de 90, a comunicação à distância era um privilégio e um desafio logístico. Ter um telefone fixo em casa significava, muitas vezes, ter que comprar ações da antiga CRT, a Companhia Riograndense de Telecomunicações. Para a comunidade acadêmica que passava o dia, e muitas vezes à noite no campus, o telefone público era a única ponte com o mundo exterior.
Julie Baltore, antiga secretária da FAC, hoje Analista de Graduação da UPF, conta aos risos: “A gente estava trabalhando na secretaria e ouvia aquele barulhão tocar, tocar, tocar, até que alguém que estava comendo um lanche ali na escada ia lá e atendia!”

A instalação do aparelho dentro do prédio da FAC, no final da década de 90, segundo ela, foi um verdadeiro evento. Como já era um ponto de grande circulação, o chamado “centro” da universidade, a novidade atendeu em cheio professores, funcionários e alunos. Julie relembra o impacto que a novidade trouxe. “Foi uma revolução, né? Porque daí a gente não precisava mais sair para fora para telefonar. Só tinha orelhão lá embaixo, perto da parada de ônibus. Às vezes estava chovendo, tu queria chamar uma carona… era ruim. Quando instalaram aí foi maravilhoso, um divisor de águas. Fomos o primeiro prédio a ter um”, lembra.
O hoje professor do curso de Jornalismo, Fábio Rockenbach, que foi aluno da FAC exatamente neste período de transição, lembra como o velho aparelho azul ainda era o protagonista da comunicação universitária: “O único contato com casa, com a minha esposa, era via orelhão ou via SMS, quando se tinha crédito para isso. Qualquer aviso, recado ou dúvida, tu tinhas que ligar. Cheguei a ver filas com o pessoal sentado na escada no intervalo. Ele me quebrou bons galhos, principalmente pensando em quem ‘’trabalha o dia todo, estuda à noite e tem poucas maneiras de se comunicar.”
Apesar de os alunos já utilizarem computadores para acessar sites como o MSN, essa comunicação ficava restrita aos laboratórios ou à agência de jornalismo. O telefone público ainda era a ferramenta da urgência e do tempo real.
Da solução à preocupação
Hoje, adaptamo-nos a ter o mundo inteiro no bolso. O telefone não serve mais apenas para ligações. Essa talvez seja sua função menos utilizada. Aquele aparelho que foi instalado na FAC como uma necessidade absoluta de sobrevivência acadêmica, transformou-se na sua versão digital, numa fonte de preocupação. O uso excessivo de celulares em sala de aula mudou a dinâmica do ensino e da atenção.
O professor Cassiano Cavalheiro resume com precisão crítica essa mudança na forma como percebemos o tempo e as relações dentro da universidade: “O antigo telefone público da FAC era a materialização de possibilidades onde eram depositadas urgências, saudades e notícias. O velho aparelho é a materialização de um tempo em que a vida andava em outro ritmo. Hoje, a aceleração do tempo e do espaço, trazida com as novas tecnologias, trouxe também uma inquietude que silenciosamente impede a atenção nas salas de aula.”
Onde antes havia a ansiedade da fila aguardando a vez de colocar o cartão para ouvir a voz de alguém, hoje existe a ansiedade do excesso de notificações. O orelhão da FAC não faz mais ligações, mas sua presença hoje silenciosa nos ensina muito. Ele é o marco zero de uma época em que a tecnologia nos unia pela voz, lembrando-nos que, em um mundo de hiperconexão digital. Talvez precisemos reaprender a olhar para quem está sentado ao nosso lado nas escadas.
Por Caroline Mueller, estagiária do Núcleo Experimental de Jornalismo.
