VALINHO II: UM PERFIL DA OCUPAÇÃO

“Tem uma reurbanização a caminho, nos prometeram, mas ainda não sabemos quando”, diz moradora.

por Eliana Isabele Presser

Agora é oficial: todas as 135 casas da ocupação Valinhos II possuem ligação de água feita pela Companhia Riograndense de Saneamento. Mas essa conquista representa um pequeno passo em direção ao objetivo maior desses moradores: reurbanização. 

Como parte do especial Ocupações em Passo Fundo, uma equipe de reportagem foi conhecer de perto algumas ocupações, entre elas a ocupação denominada Valinhos II. Como o próprio nome sugere, ela é um braço da ocupação original do bairro Valinhos, e surgiu a partir da ordem de despejo que foi dada à primeira ocupação em 2013. Hoje, as duas coexistem e são divididas pelo trilho de um trem que não passa mais, mas atravessa a cidade, como uma marca em torno da qual a cidade e sua história se desenvolvem. 

Edivânia se emociona ao
contar como a ocupação
cresceu e está organizada
.

O grande objetivo dos moradores da Valinhos II já foi prometido, quando perguntada sobre o processo de regularização, a líder da ocupação, Edivânia Rodrigues respondeu: “Tem uma reurbanização a caminho, nos prometeram, mas ainda não sabemos quando. Por enquanto só saber que vai acontecer nos basta”. Até lá, a população comemora as pequenas vitórias, como a ligação de água da CORSAN citada anteriormente. As 135 famílias podem, a partir de agora, lavar a louça enquanto outra pessoa toma banho, como a própria Edivânia relatou. 

Mas as pequenas vitórias ainda são isso: pequenas, e a Valinhos II tem um grande caminho a ser trilhado até atingir seu objetivo. As casas não têm uma ligação de luz segura e regular, é tudo arrumado por meio de gatos na fiação, o que representa um grande perigo ao realizar coisas simples que qualquer um faz normalmente, como ligar um aparelho na tomada. Ainda assim, Edivânia relata que a população está feliz com a ocupação, segundo ela, o maior desejo deles é de melhoria nas condições que já tem, sem a necessidade de reconstruir do zero o que já foi feito. 

No entanto, na avaliação da líder comunitária e  moradora, a Valinhos II é a ocupação com melhores condições de moradias. Todas as casas têm banheiro, alguns construídos com ajuda da comunidade; há casas de um cômodo só; assim como há aquelas divididas em vários puxadinhos para acompanhar o crescimento da família; “no geral, são boas casas”, ela diz. 

Pequenas vitórias, muitos problemas

Na visita que a reportagem fez ao local, descobriu, por exemplo, que a ligação de internet têm se tornado uma dor de cabeça também. Os moradores contam que as empresas que atendiam à localidade têm deixado de atender, diminuindo ainda mais o acesso à comunicação. Com pouco acesso à internet, a comunidade se informa pelos meios tradicionais: rádio e TV aberta. 

Além da dificuldade no acesso à internet e comunicação, há uma grande dificuldade no acesso à educação infantil. A situação é a seguinte: a criança consegue uma vaga no EMEI (Escola Municipal de Ensino Infantil, que atende crianças de 4 a 6 anos) mas a prefeitura só disponibiliza transporte a partir do 1º ano do Ensino Fundamental. Então os pais que querem que seu filho de 4 a 6 anos frequente a escolinha tem que desembolsar uma mensalidade de transporte particular. É aí que entra outro problema: quase nenhuma empresa aceita buscar as crianças da ocupação. 

A própria Edivânia, líder da ocupação, tem um filho que frequenta um EMEI, e isso só é possível porque ela se disponibilizou a pagar um transporte, e ainda assim, foi muito difícil de achar quem entrasse na ocupação. A partir do Ensino Fundamental, as crianças são atendidas pelo transporte da prefeitura e vão para as escolas Ana Willig, Sebastião Rocha, Daniel Dipp e Ernesto Tochetto. 

Depois de uma longa conversa com a líder da comunidade, fomos caminhar e conhecer as ruas da ocupação.

Quando buscam por outro direito básico – saúde – mais uma dificuldade se acumula: os serviços de saúde que deveriam atender ao território da ocupação (CAIS Hípica e UBS Valinhos) exigem um comprovante de residência, coisa que até a instalação do registro de água, ninguém ali tinha. A solução encontrada pelos moradores antes disso era pedir emprestado uma conta de luz de amigos e parentes. 

Além da necessidade de fingir morar em outro local para conseguir acessar direitos básicos, muitos moradores faziam o mesmo para fugir do estigma associado a viver em uma ocupação. Normalmente, logo depois que se mudaram para a ocupação, os moradores fingiam que moravam próximo a Valinhos II, mas não ali dentro. Quando pegavam o ônibus (BR – 285/São Luiz) desciam em paradas diferentes para que os colegas que estivessem no ônibus também não vissem que essa pessoa era moradora de ocupação. Segundo a Edivânia, isso vai diminuindo conforme o tempo, mas é quase um padrão de recém-chegados. 

Para além dos estigmas, a comunidade se mantém unida para garantir o bem estar. Como o senso de segurança, que se faz presente na ocupação apesar da dificuldade e medo de acesso aos serviços da polícia. E até mesmo a manutenção da economia, com dois mercadinhos e muitas pessoas que vendem coisas, como roupas e alimentos, em casa mesmo. Entre os trabalhos, muitas mulheres – força motriz da ocupação – são diaristas, babás, cozinheiras fora. 

Com a garantia da água e a promessa de uma reurbanização, os ocupantes de Valinhos II seguem com suas pequenas vitórias, entre elas o senso de comunidade. 

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