OCUPAÇÕES URBANAS: INVISIBILIDADE SOCIAL E O SENTIMENTO DA VERGONHA

‘A sociedade se constitui de sujeitos que dependem uns dos outros para existir”, destaca professores de filosofia

por Milena Griebler

Nos últimos anos, a cidade de Passo Fundo tem testemunhado o aumento das ocupações de terrenos e imóveis inativos por famílias que buscam uma alternativa de moradia. O número de famílias em situação de vulnerabilidade social cresceu significativamente, especialmente nas periferias da cidade, onde a falta de infraestrutura básica e de serviços públicos adequados é uma constante.

A luta por moradia e melhores condições de vida tem se tornado um reflexo da desigualdade social e da escassez de políticas públicas eficazes. No entanto, por trás dessas ocupações, que em alguns momentos são vistas como um simples problema urbanístico, existem questões mais profundas que merecem uma reflexão que vai muito além da falta de investimento e estrutura. Para entender a fundo a realidade dessas famílias, é necessário mais do que números: é preciso olhar para o que está por trás dessas situações, considerando o conceito de realidade sob uma perspectiva filosófica. 

Para alguns moradores, estar nessa situação é motivo de vergonha. É o que destaca Miguel da Silva Rossetto, professor do Instituto de Humanidades, Ciências, Educação e Criatividade (IHCEC) da Universidade de Passo Fundo (UPF): “A vergonha ocorre quando julgamos nosso comportamento, situação ou condição como estando abaixo daquilo que temos como ideologia ou expectativa de vida. Deste modo, nos ruborizamos frente aos outros. Isso exige consciência do status quo; pois, caso contrário, sem essa consciência e sem um ideal de vida distinto daquele em que se encontra, não há por que se envergonhar”, explica.

A reflexão sobre a vergonha associada a essa condição, conforme destaca Miguel da Silva Rossetto, reforça a necessidade de se olhar para essas situações sob uma perspectiva mais ampla, que vá além da simples constatação de carência e leve em conta as questões subjetivas e emocionais que permeiam a experiência dessas pessoas. Portanto, é urgente a implementação de políticas públicas que não apenas proporcionam moradia, mas que também contemplem a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Em conversa sobre a situação das ocupações em Passo Fundo, Miguel também apontou outras questões:

– Como você descreveria o processo histórico de ocupação urbana em Passo Fundo?  

Rossetto: Talvez me faltem dados e informações para uma resposta mais técnica, mas, a partir da percepção que tenho, entendo que ainda é uma ocupação desorganizada. Nos últimos anos, vêm crescendo os loteamentos, que, obviamente, são espaços privilegiados; porém, para uma parcela da população mais abastada. As ocupações mais populares são totalmente desassistidas pelo governo municipal, com péssima infraestrutura, o que dificulta o atendimento de questões sociais no futuro, como, por exemplo, a abertura de ruas, a mobilidade urbana e o saneamento básico.  

– Como as questões de desigualdade social impactam a distribuição do espaço urbano na cidade?  

Rossetto: Passo Fundo é marcadamente uma cidade com uma população altamente desigual em sua capacidade econômica; especialmente, mas de modo mais amplo, em sua desigualdade social, que vai desde a diferença cultural até o acesso à educação de qualidade. Isso acaba implicando em um espaço público mal gerido e mal cuidado pelos governantes e pela população. Assim, os espaços mais empobrecidos não possuem as mesmas condições dos espaços mais privilegiados.  

– Que correntes filosóficas podemos relacionar com essa realidade? O indivíduo, os grupos sociais e a questão dos direitos humanos?  

Rossetto: Para Norbert Elias, a sociedade se constitui de sujeitos que dependem uns dos outros para existir; ou seja, a sociedade não é apenas um conglomerado de indivíduos, mas sim o resultado das relações entre indivíduos que dependem absolutamente uns dos outros para se constituírem. Isso implica entender que a qualidade da minha humanidade dependeria do outro e, portanto, é importante que o outro tenha condições básicas de sobrevivência e qualidade de vida atendidas — como, por exemplo, os direitos básicos nas ocupações.  * A luta dos moradores das ocupações contempla desde os direitos básicos — como água e saneamento básico — até o direito sobre as terras e a regularização. Muitos deles nos relataram que sentem vergonha de contar onde moram. Como podemos analisar isso filosoficamente?  A vergonha ocorre quando julgamos nosso comportamento ou quando nossa situação ou condição se encontra abaixo do ideal ou da expectativa de vida que temos. Deste modo, nos ruborizamos frente aos outros. Isso exige consciência do status quo; caso contrário — sem essa consciência e sem um ideal distinto do qual nos encontramos — não há por que se envergonhar.

Quem é Miguel da Silva Rossetto?
Miguel da Silva Rosseto é Doutor em Educação (2018), Mestre em Educação (2007) e graduado em Filosofia (2004) pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Também possui pós-graduação em MBA em Gestão de Pessoas (2012) pela Faculdade Meridional IMED. Atualmente, é professor permanente no Programa de Pós-graduação em Educação da UPF, professor no Instituto de Humanidades, Ciências, Educação e Criatividade (IHCEC) e Diretor da Diretoria de Ensino de Graduação da UPF.

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