Produção audiovisual desenvolvida por estudantes de jornalismo já gravou seis temporadas, valorizando a diversidade da cena local
Bárbara Dalamaria, Letícia Schneider, Sabrina Tagliari Santos e Sabrine Paludo
Egressas de Jornalismo na Universidade de Passo Fundo
Mesmo com a pandemia de Covid-19, quando as limitações do distanciamento social impuseram restrições, estudantes de Jornalismo da Universidade de Passo Fundo conseguiram dar sequência a produções audiovisuais que envolvem compositores da região Norte do Estado. O projeto Música Autoral já fez circular nas redes sociais digitais 18 canções de diversos gêneros, incluindo samba, nativista, MPB, rock e rap.
A produção em série consolidou-se na cena cultural local, repercutindo entre músicos e público. A cada semestre, de dois a quatro compositores são convidados a produzir junto à universidade conteúdos planejados para se propagarem nas redes. Esse trabalho é inspirado em projetos transmidiáticos como o Tiny Desk NPR, da emissora pública de rádio dos Estados Unidos, e o Cultura Livre, da TV Cultura de São Paulo.
Há três anos, o Música Autoral beneficia tanto alunos quanto músicos da região, pois é uma forma dos acadêmicos aprenderem na prática a atuação jornalística no entretenimento, além de divulgar o trabalho dos artistas. Participante da 1ª temporada, o compositor passo-fundense Seu Lopes aproveitou o convite para cantar uma composição inédita, “Sou Negro”, gravada no Laboratório de Tecnologias Audiovisuais (LabTec) da Universidade de Passo Fundo (UPF) em 2019.

Ele conta que conheceu o projeto pelo Facebook: “Enviei o material mas pensei que não tinha sido recebido, e para minha surpresa o pessoal do Jornalismo da UPF me ligou”. Desde então, Seu Lopes relata que ganhou destaque na cena musical, realizando mais shows.
Já a cantora e compositora Kaau Camargo, de Carazinho, conheceu o projeto a partir de alguns amigos. “Sabiam que eu era nova na cidade e estava tentando algo na música, então foi o encaixe que faltava”, disse. De acordo com a participante da 3ª temporada, sua carreira musical alavancou após as gravações e publicação dos vídeos no canal do Youtube do Música Autoral, alcançando pessoas diferentes do seu público. “Consegui ampliar meu repertório e meus conhecimentos”, complementou Kaau. Na ocasião, cantou a canção romântica “Aquela sem nome”.
Para Kaau, demonstrar a energia de cada música e dos diferentes artistas é um ponto importante do projeto. “Eu fiquei muito feliz com o resultado total, tanto a parte de áudio quanto a parte visual. O pessoal conseguiu entender e refazer em imagem tudo que eu tinha pra dizer”, explica.

A artista comenta que o projeto é essencial para todos que, assim como ela, ainda não têm tanta visibilidade. Além disso, acredita que a cena da região tem um grande potencial. “Captação de imagem é muito mais do que ligar a câmera, e o áudio. É bem mais complicado do que só ligar um condensador e regular volume”, enfatiza.
MUDANÇA DE PLANOS NA PANDEMIA
“Foi uma das melhores sensações de dever cumprido que tive durante o curso”. Essa afirmação é do estudante Eugenio Matheus Siqueira, que lembra com carinho e orgulho sua participação na 2ª temporada do Música Autoral, a qual destaca ter sido marcada por inúmeros obstáculos e mudanças de planos.
Eugenio comenta que em fevereiro de 2020 sua turma começou a planejar um formato para a produção, contudo, no mês seguinte veio a pandemia obrigando-os a repensar. “Buscamos fazer do limão uma limonada. Fomos para as plataformas de streaming para fazer o Música Autoral se tornar mais presente, mesmo sem ter ideia se iríamos poder gravar com alguém”, disse. “Playlists no Spotify e YouTube, movimentação nas redes sociais, até que
surgiu uma possibilidade de duas datas para a gravação. Não perdemos tempo, definimos um visual mais intimista e acústico, e convidamos dois caras sensacionais, o Giancarlo Camargo e o Gilmar Júnior”, acrescentou.
Para ele, tanto o projeto como a disciplina obrigam o aluno a sair da sua zona de conforto, já que as inúmeras áreas e demandas, como a produção, divulgação, planejamento e a fotografia, fazem o estudante buscar novos conhecimentos e o instiga a ser mais participativo.
“O projeto resulta em três itens fundamentais: um produto musical bonito, que não deixa a desejar em comparação a outras produções nacionais; a valorização do artista local, que consegue ter uma oportunidade de produzir um conteúdo com visibilidade e qualidade; e o aspecto jornalístico, pois entrega aos alunos a chance de fazer um projeto cultural diferente, bem experimental e aberto a possibilidades”, pontua Eugenio.
Apaixonado por música, Eugenio frisa que o projeto é uma pequena amostra da atmosfera do mundo musical, mas também uma prova de que o jornalismo não está restrito àquela visão antiga: “A possibilidade de desenvolver conteúdos voltados para o Jornalismo Cultural ajudam a abrir novos horizontes profissionais. Um jornalista deve ser um bom contador de histórias e, para isso, tem que ter mente e ouvidos abertos para tudo”.
JORNALISMO E MÚSICA LADO A LADO
Na 3ª temporada, em 2020, o Música Autoral UPF mesclou música, história, arte e jornalismo. Com o tema Cassino da Maroca, Bruna Oliveira Scheifler registrava cada momento das gravações que aconteciam no Museu de Artes Visuais Ruth Schneider, em Passo Fundo, para publicar na página do projeto no Facebook.
Mais uma temporada em meio à pandemia, Bruna observa que o isolamento social e o receio da contaminação foram grandes complicadores, devido ao fato da disciplina exigir atividades presenciais. Mas foram divididas equipes pequenas seguindo os protocolos de saúde vigentes na época. “Felizmente foi possível nos organizar, todo mundo se cuidou muito e o resultado não foi afetado em nada por isso”, ressaltou.
Apesar de todas as dificuldades, Bruna avalia que entre os principais ensinamentos que o projeto pode proporcionar está o trabalho coletivo: “É a partir das particularidades de cada aluno e do artista que o projeto se concretiza”.
“Primeiramente, foi muito positivo conhecer os artistas e seus trabalhos. E, em segundo lugar, foi gratificante conversar com todos eles sobre como está o cenário cultural e o que a participação no projeto significava para cada um”, complementa a jornalista agora formada.
Para ela, o papel que o projeto exerce em Passo Fundo e região é essencial, especialmente por haver muitos artistas que, apesar de trabalharem muito, são pouco reconhecidos. “Projetos como o Música Autoral valorizam, divulgam e ainda oferecem um material audiovisual de alta qualidade para eles e para o público”, finaliza Bruna.
MÚSICA AUTORAL EM NÚMEROS
O desejo de ter uma música própria gravada e divulgada para todos na internet, com produção qualificada, tem movimentado a cena da região Norte do Estado. Ao longo das seis edições do Música Autoral, mais de 100 compositores já se inscreveram para participar do projeto. Destes, quase 15% ainda não haviam lançado nenhum material artístico e viram uma chance para dar o pontapé inicial na carreira.
Uma diversidade de gêneros musicais é percebida nas inscrições. E é no rock que a maior parte dos músicos dedica seu tempo e seu trabalho. Mais de 25% dos músicos inscritos têm o ritmo musical como o carro chefe da sua carreira. Outros 21% escolheram a MPB e mais de 9% o rap.
Cerca de 66% desses artistas têm os seus palcos localizados em Passo Fundo e outros 33% se apresentam em cidades do Planalto Médio gaúcho. Entre os principais locais de apresentação, estão os bares com mais de 64% dos artistas. Cerca de 59% dos músicos também se apresentam em centros culturais e 42% em festivais. Muitos dos músicos da região já tiveram a oportunidade de divulgar seus trabalhos nos meios de comunicação locais. Quase 75% deles já se apresentaram em rádio, televisão ou até em canais na internet. Cerca de 66% fizeram uma live em alguma rede social, 56 artistas já publicaram algum trabalho no YouTube e 40 deles utilizaram o Spotify para lançar suas músicas.
PRODUÇÃO SERIADA
O coordenador do projeto, professor e jornalista João Vicente Ribas, tem uma vivência ligada à cena musical da região de Passo Fundo e já trabalhou na TVE, na capital Porto Alegre, emissora que possui forte produção de conteúdo audiovisual ligado à cultura e à música. O projeto é desenvolvido na disciplina de Laboratório de Convergência III – Transmídia, prevista no currículo do curso com a finalidade de produzir conteúdos convergentes. Trabalhando com a primeira turma em 2019, na criação do projeto, a gente acabou chegando à conclusão de fazer uma produção seriada voltada à música, em que conseguíssemos dar conta dos objetivos da disciplina, produzindo informação, trabalhando todas as mídias possíveis e envolvendo a comunidade”, relembra o professor. Os conteúdos produzidos também são veiculados nas emissoras universitárias, a Rádio UPF e a UPFTV.
Desde o início do Música Autoral, houve mudanças tecnológicas, como por exemplo, o advento do TikTok. “Em relação às redes, no início do projeto nem o Instagram tinha estourado ainda. A turma refletiu sobre onde estavam a maioria das pessoas nas redes sociais e para quais delas a gente desejava comunicar. Naquele semestre, em 2019, chegamos à conclusão de que a maioria estava ainda no Facebook”, explica Ribas. Na segunda turma, foi criado um perfil no Instagram, pois a plataforma estava crescendo cada vez mais.
Já o YouTube é o eixo principal do projeto, para onde vão os vídeos musicais e os documentários. A plataforma proporciona interações entre os usuários, mas também é o lugar onde se arquivam os vídeos e a ferramenta que propicia que esses vídeos sejam propagados. Nesse sentido, Ribas enfatiza que os alunos devem estar sempre atentos às mudanças nas redes sociais, sem esquecer qual é o público e o tipo de conteúdo que o projeto produz.
NOVA TEMPORADA NO AR
No mês de junho, foi lançada a 6ª temporada, com a participação dos compositores Junior Von Dentz, com a canção “Poema à infância”, e Cami Santos, com a composição “Vem logo me ver”. Além das performances musicais, foram produzidos conteúdos em diversas mídias, que vem alimentando as redes sociais digitais do Música Autoral e informando mais sobre o trabalho dos artistas convidados. A novidade desta temporada é o primeiro episódio de podcast, em que os compositores conversam sobre suas carreiras e a cena artística da região.
A sétima temporada do Música Autoral já está sendo produzida pelos alunos desse semestre. Acompanhe as redes do projeto para ficar por dentro de todas as informações.

Confira aqui todas as temporadas do Música Autoral.







