Dados do TSE apontam que o perfil dos candidatos que irão concorrer à deputado estadual e federal por Passo Fundo, Erechim, Carazinho, Marau e Soledade são homens, advogados, acima dos 45 anos e com o ensino superior completo.
Reportagem por: Alexandre Marcheze e Hana Backes
Infografia: Marcus Freitas, Alexandre Marcheze e Hana Backes

Você conhece o perfil de quem disputa o seu voto na região? Se ainda não, é importante ressaltar que são eles as peças chaves para nos representar dentro de uma democracia. No total são 1.426 candidatos na disputa em 2 de outubro, quando o eleitor gaúcho irá eleger pelos próximos quatro anos um novo senador, 55 deputados estaduais, 31 deputados federais, além do próximo governador.
Após analisarmos o perfil dos eleitores que irão às urnas na reportagem Conheça o perfil do eleitorado em cinco municípios da região, dessa vez analisaremos os protagonistas da disputa nos legislativos nacional e estadual. Com base nos dados do TSE, analisamos o perfil de 28 candidatos a deputados estaduais e 18 candidatos a deputados federais dos cinco principais colégios eleitorais da região: Passo Fundo, Erechim, Carazinho, Marau e Soledade. A seguir, iremos destacar as principais características que definem quem poderá representar a população durante os quatro anos seguintes, fazendo ainda uma comparação com dados do restante do estado. E para facilitar a compreensão das estatísticas apresentadas nesta reportagem construímos gráficos percentuais interativos, aos quais você pode visualizar abaixo.
Evolução das candidaturas
A cada ano eleitoral é normal que novos candidatos surjam, assim como o público eleitor. Este ano não é diferente, de 2018 para 2022 houve um aumento de 6% no número de candidatos em todo o estado, o que equivale a 86 novas candidaturas em comparação com as últimas eleições gerais de 2018. Porém, em contrapartida, os candidatos mais jovens perderam espaço nas eleições deste ano. Nas eleições de 2018, 27 candidatos entre 21 a 24 anos disputaram os cargos de Deputado Federal e Estadual. Já em 2022 houve uma queda de 51% no percentual desses candidatos, sendo apenas 13 no total no RS, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral)
Na região, são 47 candidatos, sendo 18 para uma das 31 cadeiras na Câmara dos Deputados e 29 a uma das vagas na Assembleia. Porém, a carência de candidatos mais jovens é notável. Dos 47, não há nenhum entre 21 e 24 anos. Passo Fundo, por exemplo, possui cinco candidatos entre 30 a 40 anos, a menor faixa etária da região. Já Erechim, possui os candidatos mais velhos, com sete candidatos com 50 anos ou mais.
Ensino Superior

Apesar do grau de escolaridade dos eleitores ser baixo, com a maioria dos eleitores não possuindo o ensino fundamental completo, ao olhar para os candidatos a situação na região se mostra diferente. A maioria possui o Ensino Superior completo, apenas 11 não chegaram a cursar o Ensino Superior. No estado, os números acompanham os da região, sendo 55% dos candidatos com ensino superior completo. Porém, o número de candidatos que não chegaram a cursar o ensino superior continua alto, apesar de ter diminuído 2% desde 2018, sendo 20% nas eleições gerais deste ano. O grau de instrução dos candidatos reflete também em suas ocupações, onde a maioria com o ensino superior completo ocupa cargos mais altos. Na região, 8% dos candidatos são advogados e vereadores.
Gênero
Já quando nos deparamos com o gênero dos candidatos, os números se tornam ainda mais desiguais. Dos 47 candidatos dos cinco municípios analisados, 40 são homens e apenas sete são mulheres, sendo cinco de Passo Fundo. Já em Erechim e Carazinho, apenas uma mulher é candidata a deputada estadual. Em 2018 na região, seis mulheres concorreram a vagas para deputada estadual e nenhuma foi eleita. Já no RS, de 2018 para as eleições deste ano, o número de candidatas mulheres subiu de 32% para 33%, um crescimento de apenas 1%. Apesar de a maioria do eleitorado ser composto por mulheres, a representação feminina está longe de conseguir se consolidar na mesma proporção dos homens, visto que nas últimas eleições gerais em 2018, o Rio Grande do Sul elegeu apenas 12 mulheres a deputadas estaduais e federais.
Representatividade étnico-racial

Ao analisar a etnia dos candidatos, é notável o pouco espaço que pretos e pardos têm na política. Segundo o IBGE, 18,2% (2,05 milhões de pessoas) da população do estado do Rio Grande do Sul se declaram pretos ou pardos, mas apenas 271 dos 1.426 candidatos, estão concorrendo a um espaço no cenário político. Na região, dos 47 candidatos, dois se consideram pardos e apenas um se considera preto. No estado, a fatia de recursos alcançada por homens brancos na política é 3,4 vezes maior que a da população negra.
Segundo o professor da UPF, Frederico Santo dos Santos, doutor em Antropologia Social pela UFSCar, parte disso se deve às heranças europeias que a nossa região se intitulou. “ Temos uma região que se intitula de uma tradição muito europeia, então é uma região que se constitui em função dessa migração. Os negros não fazem parte desse grupo, então teoricamente, não faria sentido eles estarem presentes.” Para o professor, a falta dessa representação deixa toda uma parcela da população sem espaço, excluindo gradativamente as pautas desses povos.
Perspectiva indigena
Outro fator em destaque, é a participação indígena no cenário político do estado. Nas eleições de 2018, apenas três candidatos indígenas disputaram alguma vaga ao legislativo gaúcho e nenhum para a Câmara dos Deputados. Já na eleição atual, o número de candidatos indígenas em todo estado aumentou para sete, representando 0,49% de todos os candidatos, porém nenhum dos cinco municípios analisados na região. Os indígenas têm se mobilizado para aumentar a representatividade política, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) lançou recentemente a campanha “Aldear a Política”, um chamamento a todos os indígenas para que atuem buscando eleger candidatos que sejam diretamente representantes dos povos originários. Para Santos, o preconceito com os indígenas é um problema estrutural da nossa sociedade. ” Por que os indígenas não votam em indígenas?”, questiona o professor, explicando que existe a construção de um imaginário de que somente pessoas brancas são aptas para pensar ou decidir o destino de uma cidade ou país. Essa população já sofre para conseguir impor suas pautas em um público majoritariamente formado por homens brancos, e com essa violência simbólica, se torna ainda mais difícil construir uma bancada que lute por essa parcela marginalizada”, conclui Santos.
