Apadrinhamento: oportunizando novos horizontes

Quando uma criança é apadrinhada, o carinho entre padrinhos e afilhados se reflete na vida de ambos
“Não adianta só falar e cobrar do governo, é preciso participar e fazer a nossa parte” Foto: Lucas de Costa França
“Não adianta só falar e cobrar do governo, é preciso participar e fazer a nossa parte” Foto: Lucas de Costa França

[dropcap] O [/dropcap] que te levaria a doar parte de sua renda familiar para apadrinhar uma criança que você nunca conviveu, não sabe de sua história, onde mora e porque está precisando de ajuda? Com olhar fixo e jeito tímido, Adriane Caser, 42, secretária de uma universidade do norte do estado, responde que “não adianta só falar e cobrar do governo, é preciso participar e fazer a nossa parte”. A secretária decidiu há mais de 25 anos apadrinhar uma criança da instituição Leão XIII, pois, segundo ela, sentiu na adolescência a necessidade de fazer a diferença, de deixar seu legado no mundo. De fazer o bem.

Os programas de apadrinhamento da Leão XIII, basicamente mantém a instituição e envolvem padrinhos do Brasil e também da Alemanha. Adriane conta que decidiu por apadrinhar uma criança com um grupo de amigas. No início, elas contribuíam com a cota máxima de gastos para manter uma criança da instituição, que hoje gira em torno de 130 reais mensais. “Eu tinha um grupo de amigas e nós sentimos a necessidade de colocar em prática o amor ao próximo, de ser útil para a sociedade e atender aos que precisam”.  A Leão XIII tem cadastrados mais de 560 padrinhos do Brasil e 900 da Alemanha. Adriane destaca que, com o passar dos anos, a família cresceu e as despesas mais ainda, mas repassar aos filhos a motivação de deixar seu legado no mundo sempre foi um de seus objetivos. “Faz parte dos nossos princípios ajudar e nós estamos tentando passar isso para eles também”, ressalta a secretária.

Foto: Lucas de Costa França
Foto: Lucas de Costa França

Por trás do olhar atento de cada uma das crianças do núcleo da Leão XII do bairro Záchia de Passo Fundo, estão guardadas histórias que, muitas vezes são comoventes. A diretora Kátia Gonçalves, que exerce a função há menos de um ano, conta que, pelo bairro ter famílias de baixa renda, as crianças têm carências afetivas claras. “Eles são muito carinhosos com a gente e por muitas vezes acabam compartilhando com os professores as dificuldades que passam dentro de casa”. No núcleo são desenvolvidas atividades com crianças e adolescentes em turno inverso ao da escola, ligadas às áreas da música, esporte, recreação, teatro e leitura, além de técnicas de preservação do meio ambiente, onde a linha de ensino é diferente se comparada aos métodos tradicionais de ensino de uma escola regular.

Na prática
O núcleo do bairro Záchio é o maior dos oito espalhados por Passo Fundo.         Foto: Lucas de Costa França
O núcleo do bairro Záchia é o maior dos oito espalhados pela cidade de Passo Fundo. Foto: Lucas de Costa França

Quem visita o núcleo Záchia sai de lá com a impressão de que as crianças que frequentam a instituição são mais felizes quando estão lá. Daniela Oliveira Bourer, 12 anos, frequenta o núcleo desde os seis anos de idade, ainda na educação infantil. Ela conta que é apadrinhada por um casal, mas que não os conhece. “Eu acho muito importante o ato de apadrinhar porque muita gente está precisando de ajuda”.

“Eu acho muito importante o ato de apadrinhar porque muita gente está precisando de ajuda”. Foto: Lucas de Costa França
“Eu acho muito importante o ato de apadrinhar porque muita gente está precisando de ajuda”. Foto: Lucas de Costa França

A menina revela de cara que dançar é sua atividade preferida e que, se não tivesse essa oportunidade, ficaria em casa, sem ter o que fazer; Ela conta, entusiasmada, que sonha em conhecer seus padrinhos “Eu iria dizer um muito obrigado a eles”, reforça.

Gabriela Ferreira, professora no núcleo há quase dois anos, conta com olhar de esperança,  que as crianças chegam praticamente sem conhecimento nenhum dos materiais que são usados, e do que é oferecido. “Além de eles terem um envolvimento maior com a escola, eles têm um carinho maior com a gente”. De acordo com a professora, a maioria das crianças não sabe o que é brincar, aproveitar o dia a dia da infância e, estando lá, elas conseguem dar uma realidade diferente a elas. Sem hesitar, Gabriela cita que as às principais carências das crianças são “o afeto, os recursos e também a falta de eles poderem ver que são crianças e que podem fazer coisas como qualquer outra criança que tenha condições de vida melhores que a delas”.

A professora Gabriela acredita afirma que quandoe stão no núcleo, as crianças se sentem acolhidas. Foto: Lucas de Costa França
A professora Gabriela acredita que quando estão no núcleo, as crianças se sentem acolhidas. Foto: Lucas de Costa França

Gabriela destaca que apadrinhar “não é só pelo valor que os apadrinhados recebem para comprar o que precisam, mas também pelo carinho que eles têm pelos padrinhos e, nas cartas em datas especiais eles conseguem devolver todo esse amor que recebem, e com isso acaba criando um vínculo entre padrinho e afilhado”, completa a professora.

A jovem Daniela, que mora com os pais e mais três irmãos, conta que não sabe o que a espera, mas ela tem um belo sonho “quero ser médica para ajudar os outros, assim como eu sou ajudada”. A madrinha Adriane relata que quando contribuía com a cota máxima das despesas, ela conhecia sua afilhada, que na época frequentava o núcleo do bairro São Luiz Gonzaga mas, não tinha tempo de conhecer como é o funcionamento da instituição. “Eu nunca consegui acompanhar de perto os trabalhos dos núcleos porque o mesmo horário de funcionamento deles é o horário do meu trabalho”.  Apesar de não ter tido a oportunidade, ela sabe da importância que o apadrinhamento exerce sobre quem é apadrinhado. “Faz toda a diferença na vida deles”, finaliza Adriane.

Situação das crianças no Brasil preocupa. Gráfico e pesquisa: Lucas de Costa França
Situação das crianças no Brasil preocupa. Gráfico e pesquisa: Lucas de Costa França

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Dificuldades da instituição

Todo ano, a Leão XIII, enfrenta dificuldades para fechar o orçamento que é estimado em torno dos três milhões de reais. Neste ano, devido ao cenário econômico, a instituição precisou enxugar o quadro de funcionários e incorporar funções para poder manter todas as atividades em funcionamento, sem que fosse preciso cancelar projetos e ações. Por outro lado, projetos que estavam em pauta não saíram do papel por falta de recursos e até mesmo para não criar dívidas que provocariam mais cortes. No montante do orçamento anual, 40% da receita da instituição é mantida por padrinhos alemães através da instituição Kinderhilfe. Criada em 1981 na Alemanha, com o intuito de ajudar diretamente as crianças de Passo Fundo. Para o gestor de relacionamento da instituição, Daniel Puhl, neste ano de crise, aumentar a divulgação criando campanhas para atrair mais padrinhos, foi a melhor estratégia a ser tomada. “Tivemos um aumento de 20% no número de padrinhos que contribuem diretamente conosco”.

“Tivemos um aumento de 20% no número de padrinhos que contribuem diretamente conosco”.   Foto: Lucas de Costa frança
“Tivemos um aumento de 20% no número de padrinhos que contribuem diretamente conosco”. Foto: Lucas de Costa França

Neste pacote de investimentos comerciais, a instituição contratou uma assessora de imprensa que abastece as redes sociais e o site da entidade. “É nessas épocas que a gente deve reforçar a imagem e divulgar nossos projetos”, enfatiza o gestor. Segundo Daniel, a única garantia de que o orçamento do próximo ano será fechado é poder contar com as doações dos padrinhos alemães, fora isto é sempre uma incerteza saber como será o desenrolar do ano seguinte. “Não existe garantia nenhuma de que será fechado o orçamento. Em 2016 a previsão é de novamente fechar em torno dos três milhões, mas temos que batalhar para correr atrás do montante final”, ressalta Puhl.

Apesar dos problemas enfrentados para manter a instituição, a recompensa de todo esforço segundo madrinhas, padrinhos, funcionários e professores é poder ver no rosto de cada uma das crianças a expressão de agradecimento. Para eles, é a melhor forma de ser recompensado.

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