Quando uma criança é apadrinhada, o carinho entre padrinhos e afilhados se reflete na vida de ambos

[dropcap] O [/dropcap] que te levaria a doar parte de sua renda familiar para apadrinhar uma criança que você nunca conviveu, não sabe de sua história, onde mora e porque está precisando de ajuda? Com olhar fixo e jeito tímido, Adriane Caser, 42, secretária de uma universidade do norte do estado, responde que “não adianta só falar e cobrar do governo, é preciso participar e fazer a nossa parte”. A secretária decidiu há mais de 25 anos apadrinhar uma criança da instituição Leão XIII, pois, segundo ela, sentiu na adolescência a necessidade de fazer a diferença, de deixar seu legado no mundo. De fazer o bem.
Os programas de apadrinhamento da Leão XIII, basicamente mantém a instituição e envolvem padrinhos do Brasil e também da Alemanha. Adriane conta que decidiu por apadrinhar uma criança com um grupo de amigas. No início, elas contribuíam com a cota máxima de gastos para manter uma criança da instituição, que hoje gira em torno de 130 reais mensais. “Eu tinha um grupo de amigas e nós sentimos a necessidade de colocar em prática o amor ao próximo, de ser útil para a sociedade e atender aos que precisam”. A Leão XIII tem cadastrados mais de 560 padrinhos do Brasil e 900 da Alemanha. Adriane destaca que, com o passar dos anos, a família cresceu e as despesas mais ainda, mas repassar aos filhos a motivação de deixar seu legado no mundo sempre foi um de seus objetivos. “Faz parte dos nossos princípios ajudar e nós estamos tentando passar isso para eles também”, ressalta a secretária.

Por trás do olhar atento de cada uma das crianças do núcleo da Leão XII do bairro Záchia de Passo Fundo, estão guardadas histórias que, muitas vezes são comoventes. A diretora Kátia Gonçalves, que exerce a função há menos de um ano, conta que, pelo bairro ter famílias de baixa renda, as crianças têm carências afetivas claras. “Eles são muito carinhosos com a gente e por muitas vezes acabam compartilhando com os professores as dificuldades que passam dentro de casa”. No núcleo são desenvolvidas atividades com crianças e adolescentes em turno inverso ao da escola, ligadas às áreas da música, esporte, recreação, teatro e leitura, além de técnicas de preservação do meio ambiente, onde a linha de ensino é diferente se comparada aos métodos tradicionais de ensino de uma escola regular.
Na prática

Quem visita o núcleo Záchia sai de lá com a impressão de que as crianças que frequentam a instituição são mais felizes quando estão lá. Daniela Oliveira Bourer, 12 anos, frequenta o núcleo desde os seis anos de idade, ainda na educação infantil. Ela conta que é apadrinhada por um casal, mas que não os conhece. “Eu acho muito importante o ato de apadrinhar porque muita gente está precisando de ajuda”.

A menina revela de cara que dançar é sua atividade preferida e que, se não tivesse essa oportunidade, ficaria em casa, sem ter o que fazer; Ela conta, entusiasmada, que sonha em conhecer seus padrinhos “Eu iria dizer um muito obrigado a eles”, reforça.
Gabriela Ferreira, professora no núcleo há quase dois anos, conta com olhar de esperança, que as crianças chegam praticamente sem conhecimento nenhum dos materiais que são usados, e do que é oferecido. “Além de eles terem um envolvimento maior com a escola, eles têm um carinho maior com a gente”. De acordo com a professora, a maioria das crianças não sabe o que é brincar, aproveitar o dia a dia da infância e, estando lá, elas conseguem dar uma realidade diferente a elas. Sem hesitar, Gabriela cita que as às principais carências das crianças são “o afeto, os recursos e também a falta de eles poderem ver que são crianças e que podem fazer coisas como qualquer outra criança que tenha condições de vida melhores que a delas”.

Gabriela destaca que apadrinhar “não é só pelo valor que os apadrinhados recebem para comprar o que precisam, mas também pelo carinho que eles têm pelos padrinhos e, nas cartas em datas especiais eles conseguem devolver todo esse amor que recebem, e com isso acaba criando um vínculo entre padrinho e afilhado”, completa a professora.
A jovem Daniela, que mora com os pais e mais três irmãos, conta que não sabe o que a espera, mas ela tem um belo sonho “quero ser médica para ajudar os outros, assim como eu sou ajudada”. A madrinha Adriane relata que quando contribuía com a cota máxima das despesas, ela conhecia sua afilhada, que na época frequentava o núcleo do bairro São Luiz Gonzaga mas, não tinha tempo de conhecer como é o funcionamento da instituição. “Eu nunca consegui acompanhar de perto os trabalhos dos núcleos porque o mesmo horário de funcionamento deles é o horário do meu trabalho”. Apesar de não ter tido a oportunidade, ela sabe da importância que o apadrinhamento exerce sobre quem é apadrinhado. “Faz toda a diferença na vida deles”, finaliza Adriane.

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Dificuldades da instituição
Todo ano, a Leão XIII, enfrenta dificuldades para fechar o orçamento que é estimado em torno dos três milhões de reais. Neste ano, devido ao cenário econômico, a instituição precisou enxugar o quadro de funcionários e incorporar funções para poder manter todas as atividades em funcionamento, sem que fosse preciso cancelar projetos e ações. Por outro lado, projetos que estavam em pauta não saíram do papel por falta de recursos e até mesmo para não criar dívidas que provocariam mais cortes. No montante do orçamento anual, 40% da receita da instituição é mantida por padrinhos alemães através da instituição Kinderhilfe. Criada em 1981 na Alemanha, com o intuito de ajudar diretamente as crianças de Passo Fundo. Para o gestor de relacionamento da instituição, Daniel Puhl, neste ano de crise, aumentar a divulgação criando campanhas para atrair mais padrinhos, foi a melhor estratégia a ser tomada. “Tivemos um aumento de 20% no número de padrinhos que contribuem diretamente conosco”.

Neste pacote de investimentos comerciais, a instituição contratou uma assessora de imprensa que abastece as redes sociais e o site da entidade. “É nessas épocas que a gente deve reforçar a imagem e divulgar nossos projetos”, enfatiza o gestor. Segundo Daniel, a única garantia de que o orçamento do próximo ano será fechado é poder contar com as doações dos padrinhos alemães, fora isto é sempre uma incerteza saber como será o desenrolar do ano seguinte. “Não existe garantia nenhuma de que será fechado o orçamento. Em 2016 a previsão é de novamente fechar em torno dos três milhões, mas temos que batalhar para correr atrás do montante final”, ressalta Puhl.
Apesar dos problemas enfrentados para manter a instituição, a recompensa de todo esforço segundo madrinhas, padrinhos, funcionários e professores é poder ver no rosto de cada uma das crianças a expressão de agradecimento. Para eles, é a melhor forma de ser recompensado.
