Em Max Payne 3, o policial de NY quebra tudo na terra da garoa
A honestidade e a simplicidade são duas das características mais apreciáveis em um jogo. Quando algo mais complexo é feito com competência, a qualidade aparece de qualquer jeito, mas a objetividade e simplicidade merecem um destaque maior. Assim como um policial rabugento da velha guarda, Max Payne 3 vai direto ao ponto na maior cidade da América Latina. É mirar, atirar e avançar, sem mais frescuras.
A vida de Payne como policial em Nova York era tranquila e serena, até que vira uma história de vingança. Sua mulher e sua filha foram assassinadas por viciados e, como Charles Bronson em Desejo de Matar, Payne paga geral até os responsáveis irem para sete palmos abaixo do chão. No segundo episódio, ele sai da cadeia para voltar ao ofício da lei. A coisa não termina muito diferente do primeiro: uma tonelada de corpos e um Max Payne cada vez mais ferrado pelos seus vícios.

Rumo a Sampa
Sem maiores expectativas e nada a perder, Max aceita um trabalho como segurança particular para a família Branco, uma das mais tradicionais e ricas de São Paulo. O alcoolismo e o vício em analgésicos estão cada vez mais latentes, mesmo em horário de trabalho fica difícil manter o foco, mas o gringo ainda manda bala mesmo quando está bêbado a maior parte do tempo. Como um imã de problemas, novamente ele se envolve numa trama bem complicada: a esposa de Rodrigo Branco é sequestrada aparentemente por uma gangue de rua. Sentindo-se responsável pela situação e ao mesmo tempo cansado de ver que tudo ao seu redor desaba, Max vai atrás dos culpados mesmo que seja a última coisa que faça na vida.
Plataformas: PS3, X360, PC
Desenvolvedora: Rockstar Studios
Publicadora: Rockstar Games
A tentativa da Rockstar de recriar São Paulo é louvável e finalmente demonstra que o Brasil está tomando posição no mundo dos games, afinal, não faz muitos anos que a referência nacional residia somente em Blanka, de Street Fight. A cada dia que passa, dublagem e legendas totalmente localizadas em português -BR tornam-se rotina nos principais lançamentos. Mas – e sempre tem um ‘mas’ – ainda falta aquela assessoria mais próxima, ou simplesmente alguém que morou no país para explicar que não temos sotaque espanhol em certas palavras e que funk e Fluminense são características do Rio de Janeiro. Antes mesmo de ver a luz do dia, Max Payne 3 causou bastante indignação aos jogadores brasileiros por causa desses erros, gerando muita discussão na época pré-lançamento e até uma retratação formal por uma frase errada no trailer.
Mas se algumas falas ficaram um pouco toscas, o visual mantém o alto padrão da softhouse de GTA. Tirando deslizes conceituais, como a camisa parecida com a do Fluminense em terras paulistas, o cuidado com o ambiente propriamente dito foi grande. Na fase da favela, a paleta de cor amarela dá o tom para sentir o cheiro do esgoto e a pobreza do local. O contraste com as partes ambientadas no inverno de Nova York reforçam essa segmentação, essa nova etapa na vida de Payne. E o filme “Tropa de Elite” parece ter feito diferença lá fora, já que, ao ver policiais executando civis no morro, o próprio Payne comenta que “esses bastardos fazem o departamento de polícia de NY parecerem hari krishnas”.
E se o papo é cinema, o fator cinematográfico ajuda muito no andamento da trama. Com uma narração em off muito bem feita, as cut-scenes são bem equilibradas, longe de se tornar algo maçante. A história vai mudando de rumo aos poucos, revelando algo bem maior que um simples sequestro do começo, isso sem contar o tiroteio do ato final, que deixaria até John McClane envergonhado.
Bullet-time nosso de cada rodada
Max Payne 3 é uma espécie de jogo de “murinho” – você atira no inimigo, se protege e avança – mais evoluído, já que possui recursos como o bullet time. Veja que isso não é nenhum demérito, muito pelo contrário. A simplicidade de ser objetivo na jogabilidade só aumenta o fator replay, principalmente no modo multiplayer. Isso também não significa que a estratégia seja algo descartável, já que não são poucos os momentos de aperto.Prepare-se para morrer muitas vezes se resolver sair atirando como um louco. A dificuldade está bem regulada e mesmo o modo normal faz o jogador suar um bocado para seguir adiante. Cada bala conta nas inúmeras enrascadas que a inteligência artificial prepara, e dependendo da situação, é impossível sobreviver sem o bullet time e a minúscula mira no centro da tela.
Outro elemento essencial para a sobrevivência do policial são os analgésicos, que substituem os itens normais de vida. Munição e remédios são as únicas coisas que realmente importam. Claro que há outros colecionáveis ao longo do game, como as peças de armas douradas que conferem munição infinita, mas vamos levar a objetividade ao pé da letra. Interessante notar que quando a barra de vida está muito próxima de acabar, o jogo foca no atirador e dá alguns segundos para você acertá-lo, uma última chance para escapar do continue. Caso contrário, a câmera mostra Payne tombando e levando chumbo sem escrúpulo algum, quase que dizendo “bem feito pra você”.
Os deslizes cometidos com elementos de localização não apagam os pontos positivos do game. Nesse ponto, a execução da Rockstar pode ter falhado um pouco, mas a intenção valeu. Abusando do bullet time e do bom e velho tiroteio sem frescuras, Max Payne 3 alia dinâmica de jogo excelente com uma trama interessante que prende o jogador até a resolução de tudo, honrando o legado criado há dez anos. Boa narrativa, ótimos gráficos, multiplayer eficiente e jogabilidade impecável garantem o fator replay por bastante tempo. Vale a pena encarnar Max e ajudá-lo a fazer chover fogo e chumbo na terra da garoa.
httpv://www.youtube.com/watch?v=akcrT8TFySE
