Viver: muito além de existir! – Parte I

A doença chamada vida

No dicionário ela tem diversos significados, mas e na vida real?  Como as pessoas lidam com as dificuldades? Essa é a primeira reportagem da série baseada na Superação

A casa de madeira no Industrial, pequeno bairro de Passo Fundo, abraça a história de vida de seu Jorge, para a maioria das pessoas. Dono de um sorriso que poderia iluminar o dia a dia de muitos reclamões, ele conta que nunca descobriu oque é o desemprego. Serviu trinta e dois anos a Brigada Militar onde se aposentou em 2005. Depois disso, vieram os problemas de saúde, mas quem disse que seu Jorge desanimou?

Assim como muita gente famosa, seu Jorge sofreu com o mal da doença. Ele esteve internado várias vezes, passou por cirurgias, sobreviveu. A diferença das histórias é que o senhor simples nunca contou com o apoio do país inteiro para a sua recuperação. Parece absurdo quando se fala, mas é verdade. É mais fácil nos importamos com um Jorge famoso do que com tantos seus Jorges que estão debaixo do nosso nariz.

Seu Jorge do Planalto Médio

Jorge Roberto Gonçalves da Silva, veio ao mundo em 1956. Nascido em Cruz Alta, o menino dividiu o colo da mãe com mais sete irmãos. A vida não era fácil naquela época e desde cedo o pequeno teve que trabalhar para comprar o pão de cada dia. “A gente se criou lutando, trabalhando. Enquanto muitos crianças dividem o dia entre brincar e brincar, aos sete anos, Jorge tinha outras “brincadeiras”. Comecei a trabalhar entregando leite nas casas.”

Créditos: Edivane Bloedow
Seu Jorge do Planalto Médio

Aí, veio a tal da fase que enlouquece os jovens de hoje em dia. Nos anos cinquenta, época da juventude de seu Jorge a moçada ficava doida, mas era de tanto trabalhar. “Com treze anos eu comecei a trabalhar de jornaleiro. Mais moço, aos dezesseis anos resolvi ser servente de pedreiro e caleijei as mãos por mais algum tempo até chegar o exército.”

Dois meses depois de entrar para o quartel, teve a notícia da dispensa pelo excesso de jovens que tinham por lá. Mas quem disse que o moço desanimou? Ele voltou pra casa com novas ideias. “Voltei do exército e botei na cabeça que queria casar.” Então, o agora adulto casou e, junto com a sua primeira esposa, teve quatro filhos. O problema da história é que destes, resta apenas um. Os outros partiram e deixaram o pai com o coração em pedaços e, praticamente, sem vida. “Dois já nasceram com problema, nem chegaram a crescer e o outro cresceu e faleceu depois de adulto.” Talvez a última perda de filho tenha sido fria como a geada que o congelou. “Ele bebia muito. Aí caiu uma noite, bateu a cabeça, caiu a geada em cima, deu hipotermia e morreu.” A dor de perder três filhos deixou seu Jorge quase louco e sem chão. Aí veio o câncer e, a dez anos, levou a primeira esposa. “Deu tumor malígno nela e faleceu.”

A Segunda Chance

Depois da morte da primeira esposa, seu Jorge assumiu o romance com dona Iracilde. Isumiu? É. “Nós já estávamos juntos a trinta e um anos. Sempre tive ela. Desde 2001 pra cá, está eu e ela morando aqui e criando os netos”. Dona Iracilde é a companheira que ficou escondida por anos, mas que sempre fez parte da vida de seu Jorge. E a morena bonita que adora pintar os cabelos ajuda seu marido, agora de papel passado, a cuidar da netaiada no aconchego da casa simples.

A fiel parceira de anos não abandonou o esposo em nenhum momento desde a saúde até a doença. “Um dia a mais já é o próximo dia”. O futuro é algo incerto a todos, mas e o que fazer quando o fim da vida parece bater na porta de casa tantas vezes? “Já tive seis infartos e uma ameaça de derrame. Pra mim a vida é uma passagem e só Deus sabe até quando eu vou durar. Eu vou seguindo e vou tomando meu remédio.”

Mas e quem disse que o senhor sofrido desanimou? Seu Jorge tira sarro da doença. “De vez em quando dou uma parada no remédio e tomo uma cerveja, como um churrasco. Aí quando dou uma piorada eu seguro um pouco. E vai indo né, estou nas mãos de Deus.”

O recomeço de cada dia

Pequeno Totô

Os netos, sem dúvida, são os motivos pelos quais seu Jorge nunca desistirá de sorrir. O orgulho grita no olhar do avô que mora com três netas e ainda pegou um Totô de criação. “Eu amo meus netos, são tudo pra mim. A gente só cuida do Totô, ele tem dois anos e meio e não é parente, mas me chama de pai e a minha esposa de mãe. Sempre quando perguntam quem é o pai e a mãe dele, ele diz que tem dois pais e duas mães.” Seu Jorge não se cansa de dizer o quanto se sente bem em meio a netaiada e afirma em alto e bom som: “meus netos estão bem, estão comigo e eu melhor ainda junto deles.”

Diante de tantas provações que já passou, aquele que nunca desanima segue em frente. Ele sabe que a saúde não volta e a idade do descanso pode chegar a qualquer momento. Mas o que realmente importa a ele é a alegria do dia a dia que passa despercebida por muitos. A história de superação de seu Jorge se assemelha a de muitos outros Jorges pelo Brasil. O seu Jorge do Planalto Médio não canta, não dança e nem é famoso, mas ele sorri apenas por saber que não está sozinho. Os filhos que sobraram, a esposa amada e, é claro, os netos são o motivo pelo qual a palavra desânimo não faz parte do seu vocabulário.

E quando o senhor que nunca desanimou, sempre colocou pão na mesa, roubou muitos corações e não vive sem os netos é questionado sobre o que pensa da própria vida, a resposta é simples e direta. “Eu só posso te dizer que eu sou feliz.”

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