Foi na Alemanha pre-Revolução Industrial do século XIX que os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm popularizaram seus livros de contos infantis e fábulas, histórias que antes rodavam de boca em boca pelos povoados do interior. Em 20 de dezembro de 1812 era lançado o primeiro volume da compilação de 50 contos infantis, entre eles Chapeuzinho Vermelho, A Branca de Neve, João e Maria e Rapunzel, e hoje, 200 anos depois, a obra criada pelos irmãos Grimm contribui para o desenvolvimento do imaginário popular e principalmente para a criatividade infantil.
Ao redor do mundo, depois de centenas de adaptações, os contos dos dois alemães sobrevivem através da cultura popular, da literatura, do cinema e também através das “contações” de histórias, que passam de pessoa em pessoa através dos anos. Muitas pessoas conheceram os clássicos literários dos Grimm quando criança, primeiramente pela voz dos pais. É o caso da professora de design gráfico, Claudia Regina de Oliveira, que, quando pequena, conheceu as fábulas através da interpretação da que a mãe dava às histórias. “Eu comecei a ter acesso às histórias oficiais quando comecei a ler. Porque quando eu era criança a minha mãe contava da maneira dela; então, ela sempre colocava algum componente regional na história. Ela contava a história da Branca de Neve, mas colocava algum componente do Rio Grande do Sul”, conta a professora sobre a infância enriquecida com as histórias que os Grimm apresentaram ao mundo 200 anos antes.
[stextbox id=”grey” caption=”Em 2005, Matt Damon e Heath Ledger deram vida aos irmãos Grimmm no cinema”]httpv://www.youtube.com/watch?v=u-wBAG8KGB8 [/stextbox]Cláudia ainda fala do real contexto dos temas nas contos de Jacob e Wilhelm: “Também porque esses contos não foram feitos para as crianças, que, naquela época eram vistas como adultos pequenos. As histórias eram histórias de terror, no final das contas.” Talvez, mais sucesso que as verssões oficiais, com seu enredo e temática, as readaptações dos contos chamem mais a atenção. É assim com a designer, que ter mais atração pelas remontagens dos textos originais. “As readaptações são, também, muito interessantes: uma vez eu li um livro em que a história do Chapeuzinho Vermelho era contada na visão do lobo, que comprava um bolo e guaraná e ia até a casa da vovozinha comer o bolo e tomar o guaraná com as duas. Isso é interessante, como as pessoas contam as histórias a partir de suas percepções”, explica.
A professora compara a sua infância com a de seu filho, das histórias que ouvia da mãe e das que conta para ele hoje. “Eu lembro de ter contado as histórias clássicas para o meu filho; sempre foram mais histórias de animais e histórias brasileiras. Quando faltava luz em casa e eu não tinha o que fazer, a minha mãe contava histórias e ela fazia bonecos de papel e colocava uma linha e ia contando pra gente à noite.” O passar dos anos reconfigurou a forma como o imaginário de dissipa e como uma fábula pode ser usada para representar um mundo paralelo de fantasia.
Nas salas de aula
As salas de aula de educação infantil tornam-se o palco de disseminação das histórias dos irmãos Grimm, e, talvez, seja o lugar onde as crianças tenham o primeiro contato com o legado dos clássicos centenários. A educação infantil tem usado os contos como parceiros no desenvolvimento do cognitivo das crianças. “O trabalho com as obras dos irmãos Grimm é riquíssimo na escola infantil, na educação de bebês até crianças de seis anos, estando presente em toda a educação do ensino fundamental”. É o que conta a pedagoga, Sussi Guedes, coordenadora da pós-graduação em Educação Infantil da Universidade de Passo Fundo. Para a professora, esses textos ajudam a desenvolver o que a crianças precisam para conseguir criar e imaginar. “Elas têm o objetivo principal de encantar e de proporcionar o sonho, a criatividade, a imaginação. Muito mais que em uma perspectiva da construção da moral, as histórias servem para fomentar o faz de conta para a criança”, diz.
As ideias que os autores conseguiram deixar imersas nas linhas das histórias fabulosas hoje perfazem uma nova interpretação e conseguem “forçar” as crianças a entender o que está ao redor delas. As temáticas que ficaram guardadas nessas páginas ainda conseguem trazer uma lição. “As crianças ouvem a história e pedem para contar repetitivas vezes para fixar e entender bem a história. A exemplo de João e Maria e a casa de doces, cuja a leitura passa uma série de valores que passam por essa leitura, como a obesidade e o cuidado com os dentes até o sair de casa sozinhos. Em o Chapeuzinho Vermelho, a menina é super aventureira e tem a vovó como proteção, nessa história, a professora pode trabalhar os diferentes tipos de comidas, as furtas e as verduras.” É assim que a pedagoga vê o trabalho da educação aliado ao que os Grimm deixaram. O didatismo desse processo de leitura e de interpretação do mundo real a partir do faz de conta pode explicar relações que as crianças veem e, talvez, não entendam. “Você pode questionar as crianças, também onde estaria o pai da Chapeuzinho, qual é a relação da vovó e da mãe, quando podem trabalhar os diferentes formatos de família: crianças que moram só com a vó, só com o pai ou só com a mãe ou com a tia, trabalhar a diversidade da constituição familiar”. A professora conclui explicando como os irmãos Grimm ajudaram a “criar” as crianças das últimas gerações, apresentando a fantasia como saída para entender e interagir com o real: “Os contos dos irmãos Grimm ajudam as crianças a entender o nosso mundo e a incorporar as questões de valores e interpretar a nossa realidade através dos contos de fada e da fantasia e se tornam fundamentais no aprendizado das crianças”.



