As margens da poesia

Se é por isso ou por aquilo que o Brasil não vai para frente, não importa. Importa que a leitura impulsione um crescimento. A inquietude de Sérgio Vaz, poeta paulista, pede que se esquece o que impede de seguir em frente e propõe a focar no destino; se puder encontrá-lo nas palavras, melhor.

Teimoso, contemporâneo e compenetrado na mudança da realidade, Vaz faz parte do time dos poetas que encontra público nas ruas, na periferia, nas margens. Faz parte do time dos que vêem na leitura o prazer de uma descoberta. “O livro não é uma garantia: “vai ser alguém”. Quem oprime também lê, Hitler e Mussolini liam. O oprimido tem que ter o livro como ferramenta de prazer e, hoje, falta isso: prazer. Eu, honestamente, não sei o que fazer para uma pessoa ler… Eu não sei, mas sei que seria muito bom se todos lessem, mas se lessem com prazer”, comenta. Para ele, a mudança vem de dentro: de dentro da pessoa e de dentro de casa: “O que falta é que as pessoas digam que gostam de literatura. Falta o pai, enquanto assiste novela, segurar um livro. Os filhos imitam os pais. Falta o exemplo. O fato de as pessoas não lerem é culpa do escritor, culpa do governo, culpa do professor, culpa dos pais. É um reflexo”.

E que comece a mudança: Sérgio Vaz é o criador de um dos projetos mais abrangentes do país – o Cooperifa. Há sete anos, toda quarta-feira, centenas de pessoas se reúnem em um boteco, no meio da periferia paulista, para ouvir e recitar poesia. Ali, nas horas em que o boteco lota, não importam raças, idades ou objetivos de vida. Importa a comunicação das vozes e do coração. Quando questionado sobre a motivação para criar o maior sarau do Brasil, Sérgio suspira, engata a primeira marcha e joga na mesa tudo o que tem para falar: “Vivemos um momento trágico e estamos entorpecidos com o tal do “milagre econômico”. Nos preocupamos em ter uma TV melhor, um carro melhor, mas esquecemos de pensar em um curso melhor”, desabafa.  “As pessoas não sentam na mesa pra falar de ideias, mas falam de fatos. É preciso falar sobre ideias!”, resume.

O projeto de Sérgio, segundo a crítica, é a própria democracia, em seu estado puro – com política de acolhimento e aprendizagem. O Cooperifa é responsável pela mudança de vida de centenas de jovens que passaram pelo boteco. “ O conhecimento deve levar à simplicidade. Ninguém é obrigado a ajudar o próximo e ninguém é obrigado a ficar de braço cruzado. Cada um escolhe. O Cooperifa escolheu trabalhar a literatura”, orgulha-se. Além do Cooperifa, Sérgio se entrega aos livros.

O último deles –  Literatura, Pão e Poesia – transforma o poeta em cronista. Doce e ao mesmo tempo selvagem, Vaz propõe uma reflexão: a modernidade trouxe o moderno e enterrou a evolução? Sobre o livro Sérgio acredita que a proposta é encontrar o ponto certo entre o ‘ser duro’ e a ternura:“ Há horas em que é preciso ser delicado e há horas em que é preciso dar porrada mesmo. É preciso dar um beijo no murro ou um murro no beijo. Você só descobre seu caráter quando descobre esse equilíbrio”, comenta.

Sérgio Vaz não responde com objetividade e se orgulha disso. Ele não busca satisfazer uma dúvida, busca, sim, instigar descobertas. A missão do poeta é despertar um pedaço do Brasil que, mesmo de olhos abertos, dorme na sombra de um estigma. “Quando você entrega um livro pra alguém, não quer dizer que ele vá ler ou vá gostar, mas, poxa, faz tua parte!”, apela. “Eu quero um bairro melhor. O país está uma zona, e falta oportunidade de descobrir a literatura… Quando o artista se entrega, é porque não existe mais nada. A arte vem da indignação. Quando acaba a arte, acaba tudo”, encerra Vaz.

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