A Praça Ernesto Tochetto é mais do que as quadras disponíveis para o lazer, d o ponto de encontro de amigos ou do monumento em homenagem ao professor Ernesto Toccheto. O local é sinônimo de trabalho para aqueles que ocupam as 50 bancas do camelódromo.
Entre as árvores imponentes, bancas de artesanato e passantes, surge a estrutura colorida de amarelo e vermelho, lugar de trabalho para o camelô todos os dias da semana. Eles viajam, encaram ônibus, sacolas pesadas, fiscalizações, riscos, trabalho diário, contas para pagar e atendem a todos com uma pergunta simples: posso ajudar? A pergunta ecoa durante todo o trajeto, mas nem sempre é respondida com educação.
Pietra Vargas, 16 anos de idade, trabalha no camelódromo há dois meses. Para ela, durante as seis horas diárias de trabalho, há dois lados a serem pensados. “O lado bom de trabalhar no camelódromo é que você tem uma experiência como em qualquer outro lugar, você vai aprender. O lado ruim é a má educação das pessoas, que às vezes não gostam de entrar aqui, mas é nosso trabalho.” A adolescente passou de estudante à funcionária do camelódromo após passar por dificuldades financeiras. Com a mãe internada em um hospital, surgiu a necessidade de ajudar no orçamento familiar. Pietra conseguiu o emprego graças à amizade de seu pai com Romano, dono da banca.
Pietra não estava no camelódromo quando ocorreu a operação Capital Norte, realizada pela Receita Federal no dia 4 de abril deste ano, mas conta que trabalha com medo da segunda parte da operação, que não tem data para acontecer.
O drama de Magda
Magda faz parte da associação dos camelôs de Passo Fundo (Assocap) e preferiu não ter o sobrenome divulgado – com medo de represálias, é camelô há 13 anos, e a história dela no camelódromo está marcada com a ação da Receita Federal. “A ordem era limpar a banca. Eles tiraram tudo, porque não tinha nota fiscal, mas não tem como ter nota. Camelô, em si, não pode ter nota fiscal, porque esse espaço é da prefeitura e, para sermos camelôs, não podemos abrir firmas. Vai fazer dois anos que passamos por uma licitação para concorrermos a bancas, e pela licitação ninguém pode ter firma”, conta a ex-funcionária da Frangosul.
Quem passou pelo camelódromo, no dia 4 de abril, lembra do tumulto. Os vendedores lembram-se do desespero de perder tudo e não ter dinheiro para repor a mercadoria, há quem ainda não tenha recuperado o valor perdido. A tesoureira da Assocap guarda os comprovantes das mercadorias apreendidas em um pacote de presentes, dentro da banca, mostrando os 34 pedaços de papel com a marcação da Federal. A operação foi realizada por 40 servidores da Receita Federal e 19 policiais militares, incluindo os do Batalhão de Operações Especiais (BOE), da Brigada Militar, segundo o site da Receita, que não retornou o contato da reportagem. Ainda no site da Receita há a informação de que a investigação durou 120 dias, localizando 30 alvos para a operação, 32 lojas realizando comércio irregular. Confecções, eletroeletrônicos, acessórios para veículos, cigarros, óculos, perfumes, artigos de bazar e CD/DVDs piratas lotaram três caminhões.
“A minha mãe faleceu no dia primeiro de abril, eu a enterrei na segunda-feira, não trabalhei na terça-feira e na quarta-feira meu marido disse para eu abrir a banca, me distrair e conversar. Uma hora depois de abrir a banca, eles chegaram e levaram tudo. É como disse um colega nosso, será que amanhã ou depois eles darão sustento para os nossos filhos? Eu acredito que o meu trabalho não atrapalha o serviço dos outros, porque, se você for ver no centro, quantas lojas existem de 1,99 e de onde vêm essas mercadorias? Do mesmo destino que as minhas, mas eles compram em caixas fechadas, têm laranjas que buscam para eles, viajam conosco e sabemos que trazem para lojas!”, recorda Magda, ainda com os olhos marejados ao recordar do dia em que perdeu tudo.
Entre assaltos, barreiras e a concorrência
Suzete Padilha é funcionária de uma banca do camelódromo há um ano. Assim como Magda, passou pela batida da Federal, com a sorte de não ter perdido nada, mas com a experiência de quem já passou sufoco para poder trabalhar. “Eu achei uma falta de consideração, porque tem tanto ladrão, tanta gente roubando e ele vem tirar de quem está trabalhando. Porque todo mundo aqui é trabalhador. Eu viajo para o Paraguai, sofremos, cansamos, há dois meses eu fui assaltada. O motorista do ônibus mora na Petrópolis, nós pegamos o ônibus aqui (no camelódromo), fomos até o bairro pegar mais passageiros e descemos do ônibus para esperar todo mundo embarcar. Quando embarcamos, o motorista entrou com uns caras atrás dele dizendo que era um assalto. Os assaltantes ‘arrancaram’ o ônibus e nos largaram lá num mato, lá na Efrica. Eles davam tiro, batiam nas pessoas, tomavam todo dinheiro, mandavam tirar os tênis para ver se não tínhamos mais nada. Quando chegaram ao pátio da Efrica, eles pegaram todo o dinheiro e foram embora. A cota é de R$ 700,00, perdi mais ou menos R$1300,00”, Conta Suzete
A loja Paraty fica próxima ao camelódromo, mas Gilberto Teixeira, gerente da loja há oito anos, não acha que o comércio da Praça Tochetto atrapalhe a movimentação. “A nossa mercadoria é toda legalizada, pegamos direto do distribuidor, podemos trabalhar com uma linha bem maior do que eles”. Gilberto concorda com a determinação do governo e que a Federal cumpriu o papel de fiscalizadores do Estado.
O objetivo da ação era fiscalizar possíveis pontos de comercialização de produtos estrangeiros que teriam entrado no país irregularmente. Suzete questiona a ação da Capital Norte: “Porque eles não vão numa boca de fumo? Porque eles têm medo! Aqui eles sabem que, se vieram, todo mundo fica quieto, perde tudo quieto. Eles sempre souberam que isso aqui é irregular, porque só agora vieram complicar, depois de quantos anos?”
Esse foi só o primeiro capítulo da história dos camelôs, o próximo depende da Operação Capital Norte.

