Mário Quintana, anjo poeta

 “Eu fui um menino por trás de uma vidraça, nasci no ano da descoberta do gás neon”

Uma biografia em prosa. Nas linhas, confissões de si mesmo. Suas palavras atalham os caminhos e logo tocam os corações. Doçura e sensibilidade nas ponta do lápis de um anjo. Anjo caído do céu e nascido em Alegrete. Gaúcho de corpo, de alma e de escrita. Mário Quintana escreveu 56 livros e abriu nas páginas deles a própria vida.

Na capital gaúcha encontrou morada. Nos passeios pela Rua da Praia descobria a si mesmo à medida que descobria a cidade e confundia-se com ela. Porto Alegre tornou-se Mário desde as primeiras publicações. Não buscava a ostentação para escrever – foi considerado o “poeta das coisas simples”. Eládio Weschenfelder, mestre em Literatura e professor da Universidade de Passo Fundo acredita que Mário Quintana se consagrou pela despreocupação com a crítica: “Quintana escrevia, como ele mesmo falava, porque sentia necessidade e, por isso, falou de si, de sentimentos e de verdades. Isso trouxe uma sensibilidade sem tamanho para a poesia”, comenta.

Uma dose de ternura, um pingo de pessimismo e uma dose exagerada de ironia definem e caracterizam a escrita do poeta. Ingredientes tão controversos entre si fazem de Mário Quintana pertencer à lista dos poetas eternos. Candidatou-se três vezes a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, mas não foi eleito. Convidado a candidatar-se uma quarta vez, o poeta recusou – preferiu a liberdade de escrever sem rótulos ou créditos. Manteve-se voando de sentimento em sentimento, transbordando no papel o que o preenchia.

Solitário, viveu a maior parte da vida em quartos de hotel. Melhor assim, dizia ele. “Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas”. Não perdia suas coisas, nem sua sensibilidade. A obra compreende livros infantis, antologias, sonetos e livros de poesias, além de traduções cuja responsabilidade lhe foram dadas. Para Weschenfelder, um próprio resumo da segunda geração do movimento modernista: “Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras, como Veríssimo. Quintana é um ícone da literatura brasileira. Não deve ser esquecido, deve ser lido e relido. A simplicidade de sua escrita faz falta”, encerra.

Definido por Érico Veríssimo como “um anjo em forma de homem”, Quintana alcançou a eternidade.  Quando questionado, respondia com poesia. Se tinha dificuldade, usava das palavras para vencê-las. Ironicamente, morreu por ataque cardíaco. O coração – talvez cansado de expor sentimentos, talvez extasiado pelo exagero deles – parou em 5 de maio de 1994.

Quintana, no entanto, prossegue e segue seu caminho, cumprindo sua promessa, tal qual passarinho.

[stextbox id=”custom” caption=”Obra Poética”]

      • A Rua dos Cataventos – Porto Alegre, Editora do Globo, 1940
      • Canções – Porto Alegre, Editora do Globo, 1946
      • Sapato Florido – Porto Alegre, Editora do Globo, 1948
      • O Aprendiz de Feiticeiro – Porto Alegre, Editora Fronteira, 1950
      • Espelho Mágico – Porto Alegre, Editora do Globo, 1951
      • Inéditos e Esparsos – Alegrete, Cadernos do Extremo Sul, 1953
      • Poesias – Porto Alegre, Editora do Globo, 1962
      • Caderno H – Porto Alegre, Editora do Globo, 1973
      • Apontamentos de História Sobrenatural – Porto Alegre, Editora do Globo / Instituto Estadual do Livro, 1976
      • Quintanares– Porto Alegre, Editora do Globo, 1976
      • A Vaca e o Hipogrifo – Porto Alegre, Garatuja, 1977
      • Esconderijos do Tempo  Porto Alegre, L&PM, 1980
      • Baú de Espantos – Porto Alegre – Editora do Globo, 1986
      • Preparativos de Viagem – Rio de Janeiro – Editora Globo, 1987
      • Da Preguiça como Método de Trabalho – Rio de Janeiro, Editora Globo, 1987
      • Porta Giratória – São Paulo, Editora Globo, 1988
      • A Cor do Invisível – São Paulo, Editora Globo, 1989
      • Velório Sem Defunto – Porto Alegre, Mercado Aberto, 1990
      • Água – Porto Alegre, Artes e Ofícios, 2011  [/stextbox]
[stextbox id=”custom” caption=”Livros Infantis”]


  • O Batalhão das Letras – Porto Alegre, Editora do Globo, 1948
  • Pé de Pilão – Petrópolis, Editora Vozes, 1968
  • Lili inventa o Mundo – Porto Alegre, Mercado Aberto, 1983
  • Nariz de Vidro – São Paulo, Editora Moderna, 1984
  • O Sapo Amarelo – Porto Alegre, Mercado Aberto, 1984
  • Sapato Furado – São Paulo, FTD Editora, 1994

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[stextbox id=”custom” caption=”Antologias”]

  • Nova Antologia Poética – Rio de Janeiro, Ed. do Autor, 1966
  • Prosa & Verso – Porto Alegre, Editora do Globo, 1978
  • Chew me up Slowly (Caderno H) – Porto Alegre, Editora do Globo / Riocell, 1978
  • Na Volta da Esquina – Porto Alegre, L&PM, 1979
  • Objetos Perdidos y Otros Poemas – Buenos Aires, Calicanto, 1979
  • Nova Antologia Poética – Rio de Janeiro, Codecri, 1981
  • Literatura Comentada – Editora Abril, Seleção e Organização Regina Zilberman, 1982
  • Os Melhores Poemas de Mário Quintana (seleção e introdução de Fausto Cunha)- São Paulo, Editora Global, 1983
  • Primavera Cruza o Rio – Porto Alegre, Editora do Globo, 1985
  • 80 anos de Poesia – São Paulo, Editora Globo, 1986
  • Trinta Poemas – Porto Alegre, Coordenação do Livro e Literatura da SMC, 1990
  • Ora Bolas – Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1994
  • Antologia Poética – Porto Alegre, L&PM, 1997
  • Mario Quintana, Poesia Completa – Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2005[/stextbox]
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