
Desde o início do ano, o Detran vem trabalhando num conjunto de operações chamadas de Balada Segura. Em Passo Fundo, até agora, já foram realizadas quatro delas. Somos o 8º município do estado a engajar-se no projeto, que, além das mobilizações oficiais, realizadas nas ruas pela polícia, também gera outro tipo de ação: as mobilizações online. Até aqui são mais de 600 pessoas conectadas a uma rede social, não para conscientizar os amigos, mas para trocar informações sobre como desviar dos bloqueios policiais.
Apesar de a Balada Segura ter como objetivo coibir a combinação de álcool e direção, os números não param: foram 234 veículos abordados, 23 carteiras de habilitação recolhidas, 46 autuações e 141 testes de etilômetro realizados. Na última operação, que aconteceu ontem, dia 30 de agosto, 7 pessoas se recusaram a fazer o teste do bafômetro e uma foi conduzida à delegacia, por dirigir embriagada. O condutor, pego dirigindo sob efeito do álcool, pagou fiança e responderá em liberdade o processo de suspensão do direito de dirigir.
O bloqueio fora da blitz
Entre as inúmeras notícias que um jornalista produz por dia, a pauta seria comum, se as redes sociais não existissem. No facebook, por exemplo, muitos grupos trocam informações sobre a operação da qual estamos falando. Para evitá-las, os membros costumam avisar sobre os locais onde as abordagens serão realizadas, e as informações circulam livremente, inclusive é permitido e até solicitado que cada vez mais pessoas participem e interajam, exceto se não perguntarem demais. Foi o que aconteceu com nossa equipe de reportagem ao tentarmos ingressar em um grupo de Porto Alegre.
Logo depois de aceitos, questionamos se algum dos membros fora parado em uma das operações e pedimos para conversar sobre o assunto. Parece que fizemos algo de errado, pois o sinal de alerta foi acionado, e não eram das sirenes policiais. Os membros do grupo não gostaram do rápido questionamento e, instantaneamente, não existia mais rastro dele. O bloqueio na rede social foi certeiro e mais nenhuma informação foi visualizada pela reportagem, apesar de o grupo continuar existindo.
Bloqueados na Capital, aceitos em um grupo da operação Balada Segura de Passo Fundo.
Blitz nas ruas, informação na rede
Beber não é crime, dirigir embriagado, sim. Trocar informações é um direito de todos, mas é correto esquivar-se de uma ação educativa?
A operação realizada na cidade é o resultado da parceria entre o governo do estado, Detran/RS, Brigada Militar e a Guarda Civil. No entanto, as batidas policiais, que têm a conscientização como meta, não são oficialmente divulgadas pelos portais que a Brigada mantém, nem pela Guarda Municipal. Mesmo assim, há um grupo de pessoas na rede social falando abertamente sobre a operação na cidade. O grupo Operação Balada Segura Passo Fundo conta com mais de 639 membros em apenas 4 dias de criação, mas ninguém quer falar sobre o assunto.
Ao conversar com o major Eriberto Carlos Rodrigues Branco, do 3º RPMON, tivemos a garantia de que a intenção realmente era que o maior número de pessoas soubesse quando as abordagens aconteceriam. O que ninguém esperava era que o anúncio da quarta operação acontecesse em um grupo fechado, não oficial, e com antecedência de 48 horas.
Já a Guarda Municipal de Trânsito tinha uma orientação diferente. Ao questionar o setor, tivemos a notícia de que os locais da Balada Segura são mantidos praticamente sob sigilo para garantir a segurança e a efetividade da ação. Mais uma surpresa: o agente responsável pela Educação do Trânsito, Emerson Drebes, também não sabia que havia um grupo fechado no facebook discutindo a questão, muito menos que já sabiam a data da aproxima ação.
No ato
Quinta-feira, 30 de agosto de 2012. São 21 horas e a esquina da rua Bento Gonçalves com a Independência está “parada”. Ou melhor, com carros sendo parados e pessoas sendo orientadas sobre direção responsável, tendo documentos inspecionados e fazendo testes de etilômetro. Detalhe: exatamente como os membros do grupo avisaram que seria.
Para a Guarda Municipal de Trânsito, a operação foi realizada normalmente, a divulgação das informações não alterou os resultados e muitos motoristas passaram pela blitz da conscientização. Mas por que existem tantos outros tentando fugir de uma blitz que não é repressiva?
Tabu de rua
Não encontramos ninguém disposto a conversar sobre as abordagens policiais da Balada Segura. As pessoas não gostam ou não querem falar sobre o assunto. Nas ruas por onde a operação já passou, fica o alerta para uma cidade que precisa de mais segurança no trânsito. Quem nunca “levou uma fechada”, deixou o carro estacionado e o encontrou riscado, sofreu, perdeu uma pessoa querida ou presenciou um acidente? E, ainda assim, em Passo Fundo – uma cidade que recebe oportunidades de mudar, tem uma fiscalização de trânsito e adota medidas educativas – há quem procure meios de burlá-las. Por que somos assim?
