Percival Puggina, arquiteto, escreve semanalmente no Jornal Zero Hora e coloca nas páginas a sua opinião sobre tudo: desde a política à religião
Arquiteto por formação, há 44 anos. Filho de um político e de uma poetisa, a herança paterna o fez se apaixonar pelos fios, por vezes confusos, da política brasileira. Curiosamente, engajou-se, também, na Igreja Católica. Tornou-se Doutor em Doutrina Social Católicae ativista político. Semanalmente, pode ser encontrado nas páginas da Zero Hora, onde coloca toda a essência do seu pensamento.
Percival Puggina, nascido em Santana do Livramento da década de 40, carrega consigo a realização do sonho que todo acadêmico de jornalismo carrega apenas na mente: uma página do Word, em branco, livre e gritante – escreva o que quiser. Arquiteto, ele mais parece um desses jornalistas – raros – que querem a mudança e veem no jornal – ou no on-line – a oportunidade de ouro para fazer a hora e não esperar acontecer.
Jornalismo x política
Nexjor: Em tempos de eleição se discute muito o papel do jornalismo na política brasileira. Como eleitor e como alguém que tem uma página semanal para falar o que quiser, como você vê a relação jornalismo x política e como essa relação influencia na escolha do eleitor e da própria sociedade?
Percival Puggina: Bom… É preciso ler além do jornal, da revista, da foto, além da ordem das palavras. Depois de muito pensar, eu compreendi e tenho a clara convicção de que numa sociedade de massa, principalmente numa sociedade de massa como a brasileira – onde o nível cultural é muito deficiente, cujo nível de compreensão, mesmo dos fenômenos políticos, é muito precário – a imprensa tem um papel fundamental de educação e de auxílio na interpretação dos fatos. Com raras exceções esse papel não é cumprido.
Nexjor: E, de forma prática, qual é esse papel?
Percival Puggina: A imprensa precisa ir além da superfície dos fatos, mergulhar no profundo, na origem dos problemas que temos. Se a imprensa não trouxer esse tipo de análise para a reflexão do leitor – falo claramente do jornal, da TV, do blog e de todas as novas formas de mídias disponíveis – quem fará? Se a imprensa não deixar em segundo plano aquelas pequenas questões que são parte da política, mas que não são a política, quem fará? Falo, por exemplo: “o que um candidato disse do outro, o que aconteceu na reunião, o que um criticou e outro aceitou” – isso é parte da política, mas não é a política. A política ou está voltada para realizar o bem comum, ou é uma porcaria de que ninguém precisa e que está aí para atrapalhar. E a imprensa precisa educar a sociedade para compreender o fenômeno político. Eu faço uma avaliação em relação ao futebol: a imprensa esportiva analisa a partida – jogou assim, jogou assado, aconteceu isso por causa daquilo, se tivesse feito de outra maneira teria acontecido outra coisa – analisam-se as posições e as funções de cada jogador. Analisam-se as causas e as consequências. Na imprensa política, raramente, se vê esse tipo de análise e aí acontece o desvirtuamento do seu papel social. Não acredito que seja por falta de capacidade, mas por falta de interesse do leitor, talvez. Mas, se a imprensa não fizer, continuaremos a ter uma política de barbaridade. E, em função dessa característica da imprensa esportiva, as pessoas sabem quais são os grandes clubes, os melhores jogadores, os melhores técnicos, conhecem a história, conhecem o símbolo. O torcedor tem do clube de futebol uma memória cidadã clubística superior à que ele tem como cidadão político e é um contra censo. Futebol é futebol, política é muito mais importante. E raramente se faz isso, poucos fazem, poucos criticam. E a sociedade é sempre desorientada para a história errada. O povo não se engana, o povo é enganado. Outros o enganam. Desenganar e desiludir é uma função de esclarecimento que as pessoas não podem fazer sozinhas, mas têm que ser ajudadas.
Opinião x jornalismo imparcial
Nexjor: Colocar a opinião na página do jornal é muito arriscado. Optando por colocar o teu pensamento, ali, você já foi prejudicado em algo?
Percival Puggina: Mas claro que já fui prejudicado. Eu arrumo muito inimigo por falar minha opinião. Mas nós temos que sair do mutismo. Eu digo uma coisa diferente do que a maioria diz, e é só a minha visão. Não estou mudo e tenho espaço para proporcionar o contraditório, mas pode ter certeza de que isso não me rende afetos.
Religião x jornalismo
Nexjor: Falar de política é complicado e a religião não fica atrás. Você assume a sua crença de forma muito clara. Como lidar com a relação jornalismo e religião?
Percival Puggina: Eu nunca tive nenhum prejuízo no jornal em função de minhas opiniões e nunca fui “barrado” em função da minha escolha religiosa. Recebo muitas mensagens de leitores com críticas, mas nada que me intimide. Às vezes recebo umas cartas desaforadas que respondo: “Muito obrigado pela crítica, o senhor está contribuindo para o aumento das cartas mal educadas que recebi” e nunca mais me escrevem.
Jornalismo x neutralidade
Nexjor: É muito falado em imparcialidade no jornalismo. Isso existe?
Percival Puggina: Meu ponto de vista é que quem escolheu jornalismo escolheu uma carreira extraordionária. Eu já quis fazer jornalismo, fiz vestibular aos 50 anos, frequentei poucas aulas e pedi pra sair porque eu não teria tempo para me dedicar a isso. E em função disso eu acho que, em uma parte do jornal, você precisa ser imparcial entre aspas e há uma parte aberta, de opinião mesmo. Na parte aberta, onde eu escrevo, é um espaço livre de exposição de ideias. Mas, nas entrelinhas das matérias, é ruim quando se percebe que há uma tendência, a menos que essa tendência seja explicitada pelo veículo. Tu não podes te vestir de isento para produzir uma matéria de forma que seja mais conveniente para ti. Não é muito honesto.

