É impossível dizer realmente quando foi que as histórias em quadrinhos – conhecidas também como HQs – surgiram. Mas tem-se uma pequena noção, de que, no início do século XX, as primeiras aparições das HQs foram tirinhas em jornais. Com cunho mais educacional do que de entretenimento, as histórias em quadrinhos trouxeram ao público uma nova forma de leitura. Rompendo com o
modo tradicional de leitura, as HQs são desenhos com textos colocados dentro dos famosos balões, com a intenção de serem lidos como reprodução impressa. Obtendo espaço aos poucos na época de seu surgimento, as histórias em quadrinhos tiveram seu ápice em 1934, quando Lee Falk teve a brilhante ideia de criar o super-herói Mandrake, que não é considerado um de fato, por ser um mágico, mas não conter superpoderes-. Em seguida, Falk criou o super-herói O Fantasma, e assim deu continuidade às HQs.
Gradativamente, várias outras histórias, com super-heróis de diversos tipos, foram se tornando por um longo tempo os melhores amigos das crianças e jovens. Esses personagens fictícios vinham com traços de personalidade extremamente morais e queriam, a todo custo, a vitória contra o mal e o bem-estar das pessoas. Mas, para isso acontecer, precisa existir um lado negro, certo?
Os verdadeiros protagonistas
Frank Miller disse uma vez “Um herói é definido pelo vilão que enfrenta. Quanto maior o herói, maior o vilão”.
Para existir os super-heróis, é preciso haver perigo, medo e violência. E foi aí que surgiram os vilões, mais propriamente os antagonistas das histórias. De fato, eles nunca chegam a ter um motivo concreto para ser os rivais dos mocinhos, senão apenas o ódio e inveja que ostentam por eles. Normalmente, eles iniciam a história querendo a dominação do mundo, ou o exterminio da raça humana, o que se perde ao longo da trama, visto que a única razão que lhes importa é destruir o mocinho.
Para uma história ficar marcada no tempo, e na vida das pessoas, a sede de vingança – muitas vezes sem motivo – torna a HQ desinteressante. É por isso que histórias em quadrinhos como X-Men, Lanterna Verde, Superman, Batman, Quartero Fantástico e Os Vingadores são as mais conhecidas, pelo fato de o vilão ter sido construído de forma inteligente, alegando sempre um motivo para as crueldades cometidas. De fato, vilões bem trabalhos, geralmente, conseguem ofuscar o brilhantismo do super-herói e roubar – mesmo que imperceptível – o papel do protagonista, se tornando mais interessante que o mocinho. Na verdade, existem inúmeros motivos para um vilão ter ódio da humanidade, ou de uma determinada pessoa. O interessante dos bandidos é que nem todos carregam características apenas maníacas, psicóticas e destrutivas, mas também traumas de família, da infância, vingança e maus-tratos.
Com o surgimento de novas tecnologias, as tão famosas histórias em quadrinhos, apareceram nos cinemas. Heróis e vilões ganharam vida, efeitos especiais e novos fãs. Novamente quem vêm ganhando o coração do público de hoje são os vilões. Apesar de serem personagens malignos e que não passam uma imagem correta, o espectador vem apresentando grande simpatia por esses personagens revoltados. Temos uma dimensão do que Miller disse, quando Heath Ledger glorificou o vilão Coringa, em Batman: O cavaleiro das trevas. Sua interpretação foi uma das melhores, e mais vistas até hoje no mundo cinematográfico das HQs, levando os fãs e leigos em histórias a torcer para o vilão. Em todo caso, podemos perceber que, se o vilão consegue roubar a cena, é porque a criação da HQ e do filme deu certo; afinal, atrás de todo super-herói bem-sucedido existiu um vilão que ajudou a construí-lo.
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A jornalista,e editora do site Os Armênios, Marina de Campos, de 23 anos, além de especialista no assunto, é grande fã das histórias em quadrinhos. E ela respondeu para o Nexjor algumas perguntas sobre esse mundo fantástico de super-heróis e vilões malignos das HQs e do cinema.
Pouco se sabe do nascimento de alguns personagens, principalmente dos vilões, que aparecem sempre em número maior que os heróis. Mas geralmente eles parecem sofrer algum tipo de transtorno, muitos são malucos, neuróticos e até mesmo carentes. Ao ler algumas hitórias em quadrinhos, o que você sentia ou pensava sobre esses personagens? Qual é a visão que eles lhe passam?
Aos poucos você vai percebendo que os vilões são, como na vida real, somente pessoas que vivenciaram o mal e jamais se recuperaram. Seja por crescerem em um ambiente de caos e violência, seja por experiências traumáticas, por serem excluídos e marginalizados ou por aprenderem a colocar o dinheiro e a ambição acima de tudo e repetirem esse comportamento. Nos quadrinhos é fácil distinguir os heróis dos vilões, mas, apesar dos exageros da ficção, não acho que seja muito diferente da realidade.
Muitos dos heróis e vilões que conhecemos hoje foram apresentados aos nossos pais por meio da leitura das histórias em quadrinhos. Uma prática que vem se perdendo com o tempo. Entretanto, eles foram inseridos no cinema. Como você vê essa passagem das HQs para o cinema?
Acredito que hoje os filmes representem sim uma porta de entrada para os quadrinhos. As adaptações de HQs são um dos principais filões de Hollywood atualmente e, aos poucos, isso vai popularizando o gênero e estimulando cada vez mais pessoas a irem em busca da origem dessas histórias, descobrindo não só os gibis de super-heróis, mas os quadrinhos adultos, as graphic novels e todo esse universo.
Alguns dos filmes que vemos hoje apresentam histórias e até personagens diferentes das mostradas nos HQs. Podemos dizer que a “essência”, o significado das HQs se perde com essas mudanças?
Esse assunto costuma incomodar muitos fãs de quadrinhos, mas sou bem compreensiva nesse sentido. Se adaptar um livro já é complicado, imagina uma HQ, que geralmente se trata de uma construção de diferentes autores durante várias décadas. Além disso, mídias diferentes oferecem possibilidades diferentes; então, um filme vai ser sempre somente uma versão, uma releitura. Temos cada vez mais bons exemplos de adaptações que conseguem manter a essência dos quadrinhos, na maioria das vezes a moral da história está lá, ainda que algumas coisas tenham sido adequadas, e é isso que importa.
Para você, qual foi o melhor vilão de HQs inventado até hoje, e por que ele chamou tanto sua atenção? Ele conseguiu causar o mesmo impacto ao ser remodelado para o cinema?
É difícil eleger um, mas gosto muito do Magneto, vilão dos X-Men. Quando criança, ele foi prisioneiro de Auschwitz e viu de perto o lado mais cruel do ser humano. Ao se tornar adulto e ver surgir toda uma geração de mutantes passando novamente pelo terror da discriminação, ele decide fazer justiça com as próprias mãos e lutar pela dominação. Diferente dele, os X-Men buscam a convivência pacífica, o que faz deles muito próximos, mas eternamente em conflito. Magneto não é um psicopata, ele tem razões muito claras e concretas, chegando a ser quase compreensível. Além disso, ele apenas reflete o quanto a intolerância e o sentimento de superioridade do homem são absurdos. No cinema Magneto foi muito bem retratado por Ian McKellen na trilogia dos X-Men, e em X-Men: Primeira Classe, sua juventude é retratada pelo ator Michael Fassbender, mostrando o início de sua trajetória como vilão.
De todos os outros vilões que foram interpretados nos filmes, para você qual deles foi o melhor e mais fiel ao personagem original?
Depois de Batman – O Cavaleiro das Trevas, não há como falar de vilão dos quadrinhos no cinema sem falar do Coringa de Heather Ledger, que realmente foi antológico e bastante fiel ao personagem original. Dissimulado, irônico e realmente assustador.
Atuações ruins geram fracassos de bilheteria. Você acredita que elas também possam levar à “destruição” de perspectivas que temos de algumas hitórias e personagens?
Acredito que não, pois parece que os fãs entram em consenso de que simplesmente não funcionou e esperam que a próxima tentativa dê certo. Isso vale, por exemplo, para a Mulher-Gato, que foi um fracasso no filme solo com Halle Berry, mas retornou agora em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge e deu certo. Ou ainda o também recente Lanterna Verde, que nem mesmo é considerado pelos fãs, e antigas adaptações como Demolidor e Elektra, que ainda devem ganhar versões à altura. Os personagens continuam adorados pelos fãs e “disponíveis” para adaptações mais bem-sucedidas.
Como você vê essa simpatia que o público constrói, muitas vezes, até maior pelo vilão, do que pelo super herói?
Acho que os vilões exercem um certo fascínio nos leitores. Por mais absurdas que pareçam suas intenções, geralmente existe alguma coerência, um mal do passado ou da própria sociedade que lhes deixou assim. E, quanto mais poderoso é o vilão, maior a expectativa de ver como o herói vai derrotá-lo. A diferença é que, no lugar de apelar para a insanidade e a violência, os heróis lutam contra o mal e transformam todas as experiências em estímulo, o que é incrivelmente nobre e inspirador. Assim, por mais fascinantes que sejam os vilões, você sempre escolheria ser o herói!
Mesmo que tenha se tornado rara a prática de ler HQs, você enxerga mudanças nas revistinhas de antigamente para as de hoje?
Ainda que eu seja fã de quadrinhos, tenho que admitir que hoje os gibis já não possuem a mesma qualidade. Existem fases nesse meio. A última boa época das revistas de banca foi nos anos 1990, e hoje não se tem nada naquele nível. Em compensação, há cada vez mais publicação de encadernados, reedições de clássicos e coisas do gênero, além de uma incrível variedade de graphic novels excelentes, de todos os estilos e de nacionalidades diferentes, o que mantém os fãs “bem alimentados”.
Você vê alguma diferença nos vilões ilustrados nas revistas em quadrinhos para os idealizados no cinema?
Sempre há diferença, mas acredito que as adaptações estão cada vez mais coerentes e próximas do original. Vilões de filmes recentes como Coringa, Duas Caras, Caveira Vermelha e Loki (em Thor e Os Vingadores) foram bem aceitos e até bastante elogiados pelos fãs. Assim como nos quadrinhos, para a história do filme ser boa, é preciso ter um vilão realmente impactante, à altura do herói, e os estúdios parecem estar percebendo cada vez mais o quanto essa escolha é importante para o sucesso da adaptação.
Se pudesse escolher alguma história em quadrinho para se tornar “real”, qual delas escolheria?
Sem dúvida os X-Men, que são uma das mais perfeitas metáforas para a questão da luta pela igualdade. Pois ainda que defendam o mundo com seus poderes mutantes, eles precisam enfrentar a discriminação e o preconceito por serem diferentes, exatamente como na vida real, onde o que é diferente é temido, rejeitado e por vezes até exterminado. Nos X-Men a carga de questões morais e sociais é muito forte e extrapola as aventuras, e seria muito bom se no mundo real as pessoas assimilassem essa lição.
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