
Entrar na faculdade, trabalhar e começar uma vida nova já é difícil. Para alguns, pode se tornar ainda pior quando tudo isso vem acompanhado da necessidade de sair da casa dos pais.
Liberdade. Essa é a primeira palavra que vem à cabeça de quem está se preparando para sair da casa dos pais, para morar sozinho. É o sonho de quase todos os jovens: sem cobranças, sem horários. Infelizmente, a vida não é um sonho. Morar sozinho pode não ser tão bom assim… E não estamos falando só no aumento de tarefas e responsabilidades. A solidão e a saudade também afetam alguns dos estudantes. Aí começa o pesadelo.
A estudante de medicina, Andressa de Conti passou por isso. Natural de Santo Ângelo, a jovem veio para Passo Fundo em 2007 e conta que a mudança foi complicada: “era a primeira vez que eu estava saindo de casa, eu não conhecia absolutamente ninguémem Passo Fundo. Tive que dividir apartamento com uma guria que eu nunca tinha visto na vida.” Segundo a estudante, o pior da mudança foi a saudade, além do fato de não ter conhecidos por perto.
Apesar da dificuldade inicial, Andressa conta que, com o passar do tempo, foi se acostumando: “Eu tive que crescer na marra e pronto, não tinha outra opção.”. Os hábitos também mudaram: “No primeiro ano eu ia pra casa todo fim de semana, no segundo já ia menos, este ano só fui duas vezes. Além da falta de tempo, eu acostumei a morar sozinha, às minhas próprias regras e manias, e não me adaptaria mais a morar com os meus pais.”
Como encarar a mudança 
Infelizmente, nem todos se adaptam com facilidade como Andressa. A psicóloga Maristela Piva, especialista em Diagnóstico Psicológico e mestre em Psicologia Clínica, conta que a dificuldade que alguns jovens enfrentam tem a ver com o estilo de sua família. “Tem famílias que são mais regradas, são mais unidas.” Para quem vem do interior, o problema é ainda maior, além da vinculação com a faculdade, ele tem que se adaptar a cidade. “Eles não estão se desligando só da família, estão se desligando do estilo de vida de uma comunidade onde eles têm uma identidade,” comenta a psicóloga.
Para lidar com isso, Maristela sugere que os pais estimulem os filhos, ainda no ensino médio, a fazer viagens sozinhos, até mesmo estudar fora, fazer um curso de pouca duração, para ele ir se acostumando com a ideia e se desligando desse núcleo a que ele está ligado. Os estudantes que viajam de suas cidades para estudar, por exemplo, já passam por esse processo de adaptação, o que torna menos difícil a saída, já que não há um rompimento total.
No caso de pais que percebem a dificuldade dos filhos, é interessante que eles fiquem uns dias com eles. “Uma mãe que não trabalha vem passar uns dias com o seu filho, ajuda no supermercado, dá umas dicas de como fazer um omelete.” E, claro, os pais têm que ajudar. Maristela comenta que alguns pais complicam, ligam chorando e isso é errado. Os pais devem mostrar que vai ser difícil, mas também que existem coisas boas: “se eles forem estimulados a olhar para as coisas boas, não é que as difíceis vão deixar de existir, mas vão sendo suavizadas.”
A psicóloga também cita estudos sobre níveis de evasão nos primeiros semestres da faculdade os quais apontam como maiores causas da desistência a escolha do curso errado e a dificuldade de adaptação. Segundo ela, nas entrelinhas da pesquisa, está a dificuldade de mudar de cidade e, para isso, é importante que a universidade desenvolva trabalhos de ambientação do aluno, atividades, seminários, palestras, intercâmbio entre os estudantes, de forma a favorecer a sua adaptação nesse meio. É preciso entender “que esses processos vinculares e de adaptação são fundamentais”, o jovem deve se sentir bem, seguro, tranquilo, ver as diferenças não como um empecilho, mas como um caminho a ser trilhado. “Se ele for estimulado no primeiro semestre, no segundo ou no terceiro ele já não quer saber de voltar,” brinca Maristela. E a adaptação não deve atingir só o aluno, os pais também devem se preparar para a saída do filho. “Se é difícil para o filho, também é para o pai; eles devem se preparar e ver isso como uma outra fase nesse processo de ser pai.” Conclui.
[stextbox id=”custom” caption=”E para quem está em processo de mudança, Alberto Brandão, do blog Papo de Homem, dá algumas dicas bem humoradas:”]
1. Crie princípios
Quando moramos com nossos pais, é muito simples seguir na onda, fazer as coisas de qualquer jeito, copiar algumas coisas deles e simplesmente tocar o barco. Quando o boteco é seu, a coisa muda de figura.
Criar princípios claros para como pretende levar sua vida, desde a frequência de arrumar sua casa, receber pessoas, deixar as garotas dormirem por lá, coisas que pretende comprar, prioridade dos gastos (qualidade ou preço), até o que pode ou não ser feito dentro da sua casa por você e por amigos.
Criar princípios claros e simples nos mantém longe de problemas, dimini o esforço de manter a casa organizada e acaba com a necessidade de ficar pensando tudo do zero a cada nova decisão.
2. Saiba o que falta
No início da vida solitária, descobrimos que faltam mais coisas na casa e na vida do que poderíamos imaginar. Isso com certeza vai gerar certo desespero, principalmente quando você não tem todos os móveis, aparelhos domésticos e todo esse aparato a que sempre fomos acostumados na casa dos nossos pais. No meu primeiro apartamento eu tinha apenas dois pratos (muito bem escolhidos), um kit barato de talheres e um conjunto de copos.
Faça uma lista de tudo que você precisar usar ou acabar sentindo falta, mesmo que seja algo pequeno e que tenha precisado apenas uma vez na vida. Adicione absolutamente tudo nessa lista, de tapete para o banheiro até o Playstation 3. Divida a lista em colunas de prioridade e, pelo menos uma vez por mês, de acordo com a sua disponibilidade financeira, mate um item da lista. Pode demorar, mas isso vai fazer tudo ir ficando mais confortável.
Se não souber por onde começar, convide uma amiga mais próxima, passe um dia com ela em casa e fique com um papel por perto para anotar tudo o que ela procurar ou pedir e você não tiver.
3. Tenha um plano
É essencial saber o que você quer construir. Tenha um plano claro das possibilidades divididas em “básico”, “confortável”, “ideal”. Detalhe em forma de itens tudo que precisa para viver em cada uma das realidades, desde o valor do aluguel, tipos de apartamento, velocidades de conexão de internet, tipo de cama e colchão, eletrônicos, móveis, roupas… Crie uma lista para cada um dos caminhos a trilhar.
Se souber quanto custa viver em cada uma das situações, saberá quanto dinheiro falta para alcançar o novo patamar, o que normalmente acaba impulsionando uma onda empreendedora criativa.
4. Sua casa é sagrada
Muita gente se deslumbra com a liberdade e acaba deixando que a casa vire uma zona completa, onde todos fazem de tudo. Por mais que você até faça uso (eu não curto), tente evitar o uso de drogas ilícitas dentro de sua casa. Evite bagunças exageradas, barulho excessivo depois das 22h e respeite as reclamações dos vizinhos.
Por mais que a maioria dos jovens queira dizer que não deve nada a ninguém, mantenha uma boa postura em sua vizinhança – em uma emergência qualquer é importante poder contar com eles.
5. Não leve todo mundo pra casa
Assim como na casa dos seus pais, quando moramos sozinho não devemos levar todo mundo pra casa, inclusive qualquer garota estranha. Histórias sobre como sua casa parece um bordel, como você não tem critérios, como sua casa vive cheia de “gente estranha” voam por aí bem rápido. Leve amigos e pessoas em quem confie. Quanto às mulheres, tenha critério e discrição. Aquela sua vizinha não vai te dar mole se você entrar com uma garota diferente em casa todo dia. E você ainda vai ficar sem confiança na praça. Sua imagem é algo muito sério e deve ser sempre a melhor possível.
A relação com os vizinhos pode fazer sua vida um inferno, mas pode fazer tudo ser bem mais fácil e agradável. Meus vizinhos deixam filmes para eu assistir embaixo da porta, quando fazem pratos refinados, me convidam para experimentar, sempre me oferecem carona para o trabalho. Considero isso um ponto crucial para continuar morando onde moro.
6. Não beba todos os dias
Agora começa a parte séria do assunto. Quase todos os jovens que conheço e moram sozinhos sofrem algum tipo de processo depressivo. Como disse no começo, tentar não enlouquecer é uma arte nesse negócio de morar sozinho. Normalmente você vai acabar tentando afogar os problemas em uma cervejinha, vai virar uma garrafa de vodka, depois um whisky… e aí o alcoolismo bate.
Já vi isso acontecer, já quase fiz isso, mas acordei e vi que estava me afundando nisso. Abusar do álcool é muito comum quando se vive sozinho. Às vezes é bom curtir a fossa tomando alguma coisa, vendo um filme ou comendo alguma coisa mais gostosa, mas o excesso pode te afundar fácil, sem falar no buraco no seu bolso.
7. Cuide da bagunça
Você vai negligenciar a limpeza, eu sei disso. No começo é complicadíssimo manter tudo limpo todos os dias. Ainda mais se não estiver disposto a pagar uma diarista. Sua casa vai virar um buraco, é sério! Tire 30 minutos do dia. Logo que você chega em casa depois do trabalho ou da aula, simplesmente organize as coisas, coloque tudo no lugar. Tire as roupas do sofá, os sapatos do meio do caminho e lave a roupa suja. Faça todo dia uma pequena arrumação e então tire um dia da semana que estiver livre (sábado, no meu caso) para uma boa faxina.
Se você pretende levar aquela gatinha para sua casa, não vai querer que ela encontre uma cueca em cima da pia da cozinha ou tenha que afastar a bagunça para poder sentar no sofá. Nada impressiona mais uma garota do que entrar na casa de um homem solteiro e encontrar tudo na mais perfeita organização. Limpeza também vai ajudar a se sentir muito mais confortável em casa. É um item importante para não enlouquecer sozinho.
8. Seja profissional e tenha bons amigos
Independentemente da sua área de atuação, se você não for um funcionário público que mama no governo, você tem que se preocupar em manter o dinheiro aparecendo todo o mês, fato. Quando morava com minha mãe, eu tinha uma postura muito negligente quanto ao profissionalismo e achava exagerado algumas atitudes. Hoje em dia me preocupo o máximo possível em fazer o melhor dentro da empresa, ser o exemplo. Se eu for demitido, eu não como, eu não tenho onde morar, vou dormir na rua.
Quando moramos sozinho e não temos uma possibilidade de ajuda, é bom tratar de ser o melhor profissional possível. E sim, a maior rede de contatos para onde correr quando algo der errado. Eu só aprendi isso quando a responsabilidade me puxou pela gola.
9. Gaste dinheiro para economizar dinheiro
Entender esse ponto de vista mudou completamente a forma com que a vida sozinha funciona dentro de casa. Comprar um videogame pode ser um gasto grande a princípio, mas pode manter você muito mais noites dentro de casa, evitando que gaste dinheiro com baladas e outras saídas.
Televisão, seriados e jogos mantêm você em casa. Se você não sai, não gasta dinheiro! E, mesmo quando você já estiver sem grana, ficar em casa não vai ser tão depressivo quanto se você não tivesse absolutamente nada para fazer.
10. Cultive uma boa relação com a solidão
Vejo amigos pensando em morar sozinhos, tentando sair a todo custo da casa dos pais, mas sem saber direito o que é que espera do lado de fora. Já meus amigos que estão morando sozinhos, independentemente do estado em que se encontram, se queixam de solidão e mesmo os que fazem fila de garotas reclamam do vazio que sentem.
Às vezes, quanto maior a quantidade de garotas com quem nos relacionamos mais vazios nos sentimos. De sentir vontade de chorar naquela quarta às duas da manhã sozinho na cama. Os amigos tentam usar nossa casa de motel e precisamos de muito jogo de cintura para saber dizer não. As garotas nos tratam diferente porque somos o “homem independente”, que mora sozinho, e temos de ser prudentes o suficiente para saber manter uma boa postura diante de tudo novo que aparece.
11. Viva (e viva com vontade)
Nem tudo é difícil e terrível nessa vida. Saia e chegue tarde, fique até mais tarde na cama e, quando não der vontade, não faça o que não quer. O boteco é seu e você faz o que quiser! Todas as dicas são voltadas para reduzir as dificuldades e fazer com que a vida solitária seja menos dolorosa.
Aceite os convites dos amigos que ligam de madrugada para sair, compre as bobagens que você quiser para a geladeira quando tiver dinheiro sobrando, vire a noite jogando seu jogo preferido, faça tudo que você sempre quis fazer, mas faça com responsabilidade! Tudo de mais faz mal, mas tudo de menos também. Então viva.
12. Dica principal: não se esqueça do banheiro
Se eu puder fixar uma única dica, aqui vai: mantenha o banheiro limpo.
Fonte: http://papodehomem.com.br/o-que-ninguem-conta-sobre-morar-sozinho/
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