Tangos & Tragédias

Há 28 anos a mesma peça lota os teatros – de pessoas e de humor

Um violino e um acordeom.  Olhos muito expressivos e um coração cheio de desilusões. Um país fictício, dois habitantes perdidos e um destino incerto. O mesmo enredo, a mesma cena, a mesma palavra há 28 anos lotam os teatros por onde passam Kraunus Sang e Maestro Plestkaya. O espetáculo Tangos & Tragédias é uma união de música, teatro e comédia e me obriga a apelar a um clichê para descrevê-lo: campeão de bilheteria.

Eles não precisam de muito para abrir sorrisos na plateia, que, às vezes, está sentada em frente a eles pela segunda ou terceira vez. Uma história – bem inventada e sustentada até o fechar das cortinas – guia a dupla na narrativa de situações cujo fim contraria o “felizes para sempre” e, geralmente, acaba em traição, morte ou  eterna desilusão. Apesar da temática, Kraunus e Plestkaya abusam da espontaneidade e do humor inteligente e fazem do espetáculo uma fuga das atuais comédias apoiadas em humilhação e deboche. A graça vem naturalmente, a cada canção ou diálogo entre os personagens, ou na própria ficção, que custa  parecer mentira. Em Tangos & Tragédias o engraçado é a forma como se faz, e não o feito em si – talvez, outra dupla não conseguisse arrancar as gargalhadas do público tanto quanto o violinista e o maestro.  Esse mesmo público está inserido na peça: grita, canta, dança e é o responsável direto pelo sucesso. Noventa minutos são suficientes para que os gaúchos debatam os temas que mais assombram as relações humanas, sem o uso de artifícios mirabolantes: não é preciso um cenário especial ou objetos  além dos instrumentos musicais, do próprio rosto e da expressão – eles se bastam.

Foi em 1984 que Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky decidiram ousar e apresentar suas tragédias ao público. Em 1987 conquistaram  espaço fixo na temporada de verão, no Teatro São Pedro, em Porto Alegre, e, desde então, vêm apresentando a mesma peça – segundo a Folha Online – mais de 5.000 vezes. Além das criações próprias, o espetáculo apresenta versões de canções consagradas – retiradas da lixeira cultural da Sbornia – como “Romance de Uma Caveira” de Alvarenga e Ranchinho e “Epitáfio” de Titãs. O DVD Tangos & Tragédias Na Praça da Matriz, produzido em 2004, dirigido por João Pedro Goulart, Rodrigo Pesavento e Marcelo Nunes, comemora os 20 anos da dupla. A obra é a prova de que a repetição, quando bem feita, não cansa, não entedia e diverte. Perto de completar 30 anos de trajetória, Tangos & Tragédias está mais vivo e presente que nunca. Um espetáculo cult, sem exigências de idade e que pede disposição – para rir e mergulhar na vida de um outro alguém.

Independentemente de mexer os pés ou as mãos, de gostar ou não de Ana Cristina ou de se ter o maior “bah” do mundo, o fato é que em Tangos & Tragédias, as tragédias parecem ter ficado de lado.

httpv://www.youtube.com/watch?v=tvLF7S9cNwc&feature=related

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