Planejar para sustentar

Viver num ambiente bonito, aconchegante e com acesso facilitado aos espaços públicos, comércio e lazer. Quem não quer? Morar em um lugar onde nos sintamos bem e atenda nossas necessidades é fundamental no desempenho de nossas atividades diárias. Mas você já parou para pensar em como o planejamento de uma cidade influencia na qualidade de vida de seus habitantes? E em como o bem estar social pode estar relacionado a questões ambientais ou a como a construção civil foi planejada? Buscando chegar a resultados que demonstrem como as cidades podem se tornar mais socialmente justas, sustentáveis e acessíveis, um estudo é desenvolvido pela UPF.

O primeiro local analisado pelos pesquisadores foi o centro de passo Fundo

A pesquisa, executada por professores e alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo, analisa o desenvolvimento urbano de Passo Fundo ao longo dos anos e já chegou a resultados relevantes em relação às consequências do crescimento da cidade.

O Plano Diretor é uma exigência constitucional para municípios que têm mais de 20 mil habitantes e serve para orientar, tanto o poder público quanto o setor privado, na construção dos espaços urbanos, apontando diretrizes para o desenvolvimento sustentável. O estudo da Universidade de Passo Fundo compara as legislações criadas em 1984 e 2006 e considera as contribuições desses Planos Diretores. A coordenadora da pesquisa, doutora Adriana Gelpi, explica que o objetivo é verificar o nível de sustentabilidade existente. “Esse é um termo muito amplo e nós estamos analisando alguns aspectos”, afirma, dizendo que as cidades de hoje podem se tornar mais sustentáveis, pois totalmente, vai ser muito difícil. “Os aspectos que contribuem para a sustentabilidade pode partir de uma edificação, um conjunto de edificações ou da distribuição dos equipamentos urbanos de forma democrática”.

“Se utilizarmos na construção de um prédio materiais que não sejam transportados de muito longe evita-se nesta cadeira, o deslocamento. Uma construção com pisos importados da China será menos sustentável do que uma com materiais produzidosem Santa Catarina”, exemplifica Adriana. “Isso também pode ser observado em construções que aproveitam a água da chuva para lavar a calçada”, comenta, “e também deve ser levada em consideração a disposição dos equipamentos no espaço urbano da cidade”.

Quanto mais sub-centralidades uma cidade tiver, menos os moradores terão que se deslocar para suas atividades. A proximidade da escola, posto médico ou supermercado, por exemplo, vão contribuir para a economia de energia no deslocamento.Em Passo Fundo, além da área central, quatro sub-centralidades foram identificadas: São Cristóvão, Vera Cruz, Boqueirão e Petrópolis.

 Quais as consequências?

Hoje, cerca de 190 mil pessoas moram em Passo Fundo. Ocentro da cidade foi o primeiro espaço observado pelos pesquisadores. A estudante do 9º nível de Arquitetura, Tanise Spielmann conta que o trabalho foi executado com base em análises de campo quanto aos equipamentos imobiliários e aplicações de questionários para verificar, por exemplo, quantas pessoas vivem em determinada área e como elas são atendidas.

A pesquisa ainda não chegou a todas as conclusões, mas um resultado já foi identificado e é resultante de princípios previstos no Plano Diretor de 1984. “Os níveis de ocupação do solo foram analisados e percebemos que muitos prédios antigos ocupam toda a área do terreno”, comenta, “com isso, as águas da chuva não são absorvidas, gerando áreas úmidas”. O Plano de 1984 acarretou num grande número de edifícios em altura e os chamados corredores de vento nas ruas paralelas à Avenida Brasil geram áreas insalubres que prejudicam a vida urbana. “Existem muitos prédios que sombream a Praça Marechal Floriano e isso também pode ser observado na Rua Moron”, cita Tanise.

Mas os espaços que já foram atingidos negativamente, têm solução? Tanise, que logo estará atuando como arquiteta, acredita que algumas áreas – principalmente as centrais – vão levar muito tempo para se reciclar. “Ainda existem muitas áreas em expansão em Passo Fundo e creio que as mudanças vão começar a ser percebidas nestas sub-centralidades”.

Espaços verdes? Onde?

O estudante de arquitetura, Acácio Dolci Rosalen, que também esteve envolvido nas análises, chama a atenção para outro aspecto: o ambiental. “A partir da pesquisa no centro da cidade percebemos uma grande área construída e surgiu a preocupação em analisar os espaços verdes existentes. O resultado ainda é parcial, mas é assustador”, define. “A Organização das Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde recomendam12 m²de área verde por habitante e no centro de Passo Fundo foi identificado2,32 m²por habitante”, apresenta.

Mudanças para ampliar a sustentabilidade

Já no Plano de 2006, as principais mudanças identificadas pelos pesquisadores prevêem uma nova forma para o uso dos terrenos e que os equipamentos públicos e comércio sejam distribuídos de uma forma mais diversificada dentro do espaço urbano. “Os novos edifícios propostos devem ter maior impermeabilidade e também vão diminuir os corredores de vento formados por esta densificação exagerada”.

Passo Fundo está começando a perceber a questão da sustentabilidade. A nova regulamentação de 2006 traz propostas que podem qualificar e democratizar a vida urbana. Essa foi a constatação dos pesquisadores até agora. Mas é preciso também que não só os profissionais desta área, mas todas as pessoas que usufruem destes espaços, pensem na cidade como um todo, podendo assim – mesmo que de forma sutil – contribuir com o aumento da sustentabilidade.

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