
Um mundo de possibilidades. Drogas – lícitas e ilícitas. Relações instáveis. Falta de compromisso. Exageros. O desejo de lutar contra tradições.
Eles têm entre 13 e 27 anos e decidiram dizer não a tudo isso.
No caminho contrário de conceitos da pós-modernidade, os jovens estão cada vez mais envolvidos em uma religião. Eles buscam, a todo o momento, uma espiritualidade capaz de dar o necessário para viver em uma sociedade desiquilibrada. Em Passo Fundo existem cerca de 3.000 jovens ativos dentro da Igreja Católica. Eles, através de movimentos, buscam uma mudança social e, mais que isso, uma mudança interna.
Jéssica Sachet, 20 anos, já dedicou 7 destes ao catolicismo, através do Curso de Liderança Juvenil (CLJ) – um grupo de jovens cujo objetivo é formar lideranças baseadas em Jesus Cristo. Ela busca, em cada encontro, uma vivência diferente: “Se nós pensarmos na espiritualidade de uma forma conceitual, nós não vamos encontrar o seu íntimo valor. A espiritualidade é ir ao encontro de algo. É pensar, sentir e por vezes se assemelhar muito a algo a ponto de assumir essa condição como forma e visão e vida.” Ela destaca, também, a relação da espiritualidade com a religião: “Para mim é a partir da religião que eu encontro o sentido na minha vida, mas é o meu crescimento espiritual e a minha espiritualidade o carro chefe de todo esse caminho”, encerra.
Assim como Jéssica, muitos jovens buscam, de alguma maneira, respostas para questões que a modernidade líquida é incapaz de responder. Sim, os jovens atuais são religiosos. Talvez não como seus avós, mas vivem a espiritualidade de acordo com a juventude. É o caso de Marcelo Fener. Por onze anos ele participou de um movimento de jovens católicos. Hoje, aos 24 anos, mora na França e, de lá, continua seguindo valores que aprendeu por aqui. “A espiritualidade é uma questão totalmente individual. Com o passar do tempo, ela só se faz presente se for munida de ação em favor dos demais. Hoje, vivendo uma nova fase, muito longe da minha cidade natal e um tanto sozinho, eu sinto como é essencial e desafiador vivenciar essa espiritualidade.” O fato de estar vivenciando aspectos de outra cultura, segundo Marcelo, reafirma a importância de ter algo para acreditar: “Quando você se vê longe da família, longe dos amigos, longe da tua rotina cotidiana é que você sente como isso é importante e te dá forças. Espiritualidade é vivência diária, é exercício diário e tem de ser um exercício fiel consigo mesmo”.

A juventude é protagonista. Pertence a ela o papel de transformação social. Dalmir Ferreira é um dos adultos coordenadores do grupo de jovens do CLJ, na paróquia Nossa Senhora de Fátima. Para ele, a transformação passa pela espiritualidade. “O jovem que tenha ou tem contato com essa parte de espiritualidade, de conhecimento de Cristo e de Deus é um jovem diferenciado. Ele tem uma vivência mais humanizada e voltada para as coisas que fazem o crescimento e que ajudam na transformação.” Ele ainda ressalta que a espiritualidade é capaz de proporcionar ao jovem ferramentas importantes para a mudança de realidade. “A importância da busca pela espiritualidade está em o jovem poder transformar. O jovem que tiver aprendendo e vivenciando esse lado espiritual tranquilamente ele não vai só mudar a si, mas como mudar também o mundo”, conclui.
Não há dúvidas. A religião ou a espiritualidade independente faz parte da juventude e já pode ser considerada uma característica pessoal. Mas como descobrir o limite entre a crença e a alienação? Karl Marx afirmou que a religião seria o ópio do povo, uma droga capaz de cegar. Para a psicóloga e professora Maria Goretti Betencourt, a questão pode ser resolvida através de limites. “A religiosidade ou a espiritualidade são muito importantes para qualquer pessoa. É fundamental que a pessoa tenha algum tipo de crença, não apenas no sentido moral, mas no sentido de a pessoa se configurar psiquicamente como um sujeito saudável. Porém, tudo que é em excesso ou que falta é um problema. Então, se a pessoa não tem nenhum tipo de espiritualidade, ela acaba se desenvolvendo como um sujeito depressivo. E se a pessoa tem uma crença em que ela se apegue e, então, nada mais serve, cria-se uma obsessão e ela fica inflexível e não consegue conviver com os diferentes.”
De encontro com o pluralismo dos jovens, surgem, a todo momento, novas religiões. O leque de opções é imenso e nem sempre agrada a juventude. Um dado do Observatório Jovem aponta o catolicismo como a religião mais difundida entre os jovens. Novas religiões reúnem apenas 2% da juventude. A própria insegurança do momento vivido influencia na escolha por determinadas religiões. Por outro lado, quando escolhe uma religião, o jovem a fundamenta e procura encontrar nela um sentido racional aliado à crença. Exemplo disso é o padre Mateus. Ele tem 27 anos, participou de um movimento da Igreja Católica e, lá, descobriu sua vocação: “Mentiroso aquele que diz que o jovem não tem espiritualidade. Ele tem. É a espiritualidade da juventude. O jovem reza, reza muito. Ele reza de outras maneiras, reza com amigos, com grupos. É uma forma de cultivar um valor que traz segurança.” Hoje o padre acredita que o jovem é capaz de personalizar a sua espiritualidade e adequá-la ao seu modo de viver. “A espiritualidade cristã existe e ele cultiva isso através da oração, mas não da oração que imaginamos. Quantos jovens entram aqui na igreja, sentam, olham para a cruz e rezam?! A espiritualidade do jovem é marcada, também, pela alegria. O modo que a gente vive revela a espiritualidade que a gente tem”.

As escolas também são porta de entrada para a espiritualidade. Aniele Auler tem 14 anos e participa da pastoral da juventude do colégio onde estuda. Ela, juntamente com um grupo de 20 alunos, desenvolve trabalhos sociais aliados a um crescimento religioso. “Através do projeto, nós contribuímos para a nossa espiritualidade, porque valorizamos a vida, nos tornamos pessoas melhores e ajudamos o próximo”, relata.
Do ponto de vista psicológico, o assunto envolve a acomodação da juventude. Os jovens, em sua maioria, não lembram – nem de perto – os caras pintadas que ajudaram a derrubar uma política corrupta. Pelo contrário, estão assustados e amedrontados diante de uma realidade que não corresponde aos seus ideais e buscam por algo que lhes dê segurança. A religião se encaixou bem. Sabrina Schneider é psicóloga em um colégio e trabalha com jovens em busca de respostas. Para ela, a espiritualidade é a melhor forma de o jovem encontrar a própria maneira de agir. “A espiritualidade consegue oferecer valores no sentido de amizade, coerência na vida, organização e, também, de ter uma perspectiva positiva e ele precisa buscar isso em algum espaço. Geralmente ele busca na família ou num grupo que possa oferecer para ele essa valorização da vida. A espiritualidade vem a somar com isso”, destaca.
Mais que palavras, os jovens atuam de acordo com o que pensam. Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos de Religião, 98% dos jovens que foram entrevistados dizem acreditar em Deus. Na mesma pesquisa, 33% dos jovens disseram ter escolhido a religião segundo o próprio pensamento. E, ainda, segundo a Folha Online, o Brasil é o terceiro país onde os jovens seguem algum tipo de crença. Os dados parecem estranhos quando se pensa que a geração passada lutou contra qualquer tipo de imposição religiosa. O mundo mudou e os jovens também.

