Um lugar onde tudo é possível

Foto/Divulgação

O encontro de diversas formas de expressão artística dá vida ao trabalho da banda brasileira O Teatro Mágico.

Teatro, música, circo e poesia. Artes que, separadas, já encantam a maioria das pessoas. Mas, como definir a intensidade desse encanto quando todas se encontram no mesmo projeto, caminhando lado a lado?

É essa magia do encontro das artes que compõe o projeto O Teatro Mágico. Caracterizado pelos mais diversos personagens, o grupo, dirigido pelo ator, músico e compositor Fernando Anitelli, sobe aos palcos e presenteia o público com um verdadeiro espetáculo.  As músicas, de letras consideradas bem elaboradas e belas melodias, combinam com as artes cênicas e circenses e trabalham com os mais variados temas da vida social.

O Teatro Mágico foi criado em 2003, quando Anitelli entrou em estúdio para gravar seu primeiro CD. O álbum recebeu o sugestivo título O Teatro Mágico: Entrada para Raros, em referência ao best-seller O Lobo da Estepe, do escritor alemão Hermann Hesse. Quando leu sobre o Teatro Mágico de Hesse, percebeu que era justamente aquilo que gostaria de montar. “Eu queria um espetáculo que juntasse tudo em uma coisa só: malabaristas, atores, cantores, poetas, palhaços, bailarinas e tudo mais que a minha imaginação pudesse criar. O Teatro Mágico é um lugar onde tudo é possível”, conta.

Nesses oito anos de trabalho, com cerca de 400 mil CDs vendidos, o DVD chegando a 120 mil cópias e mais de 6 milhões de downloads, o grupo busca, através de suas obras, entrar mais a fundo nos debates que cercam a sociedade desigual e desumana. Defendendo a bandeira da música livre, o Teatro Mágico se apresenta com um perfil questionador e contestador, abordando diversas temáticas sociais, como o cotidiano dos moradores de rua, citado na canção “Cidadão de Papelão”, ou a problemática da mecanização do trabalho, mencionada em “Mérito e Monstro”, entre várias outras abordagens.

Conforme Anitelli, indo mais além, há um debate sutil e mordaz sobre o amontoado de informações que a sociedade absorve sem perceber, assistindo aos programas de TV, por exemplo. “Essas abordagens acrescentam uma pitada de realismo no conteúdo geral, mas não acabam com a magia do espetáculo, incorporando o lema de endurecer, sem jamais perder a ternura”, explica.

O compositor também comenta que o Teatro Mágico torna possível que cada pessoa revele sua verdade interna. “Essa é a grande brincadeira, ser o que se é. Afinal, todos somos raros e temos que ter consciência disso”, destaca Anitelli.

Nesse sentido, o grupo vai traçando um paralelo entre o real e o imaginário enquanto o público, gradativamente, vai entrando na mesma frequência marcada pelo ritmo do espetáculo. No final, palco e plateia se fundem e cada um dos presentes vai descobrindo como é permitir ser um pouco mais de si mesmo.

[stextbox id=”custom” float=”true” width=”250″]A história, os projetos e os próximos shows de O Teatro Mágico estão disponíveis no site oteatromagico.mus.br. Na página do grupo você encontra também a discografia completa para download e pode entrar em contato com os artistas.[/stextbox]

Conversamos com Fernando Anitelli, que respondeu a algumas perguntas falando sobre o trabalho do grupo. Confira.

Como foi o início do Teatro Mágico? Foi você quem criou essa ideia?

Fernando Anitelli: Eu tinha um trio de música brasileira, chamado Madalena 19, que acabou porque cada um tomou seu rumo. Eu fui trabalhar ilegalmente como garçom nos Estados Unidos durante um ano. Lá eu comecei a ler o livro O lobo da estepe, de um escritor alemão. Tinha uma passagem que dizia que as pessoas têm muitos personagens dentro de si e, ao mesmo tempo, todo mundo está em extinção. Isso tinha tudo a ver com o que eu imaginava para um projeto musical e foi dessa ideia que surgiu o nosso primeiro CD, que se chama O Teatro Mágico – entrada para raros. O projeto foi inspirado nos saraus, que eu frequentava muito. Lá todas as culturas se encontravam o teatro, a música, o circo, a poesia… A arte dialoga consigo mesma e consegue tocar de alguma forma cada pessoa… É isso que a gente busca com O Teatro Mágico.

Foto Sammara Garbelotto

Vocês não fazem propaganda, a música de vocês não toca em rádios… Por que isso?

FA: Sobreviver da arte independente no Brasil é uma guerra. Tem que ter humildade e cabeça fria. No rádio, a gente não toca porque tem que pagar jabá (dinheiro em troca da execução das músicas). E, como a gente não é gravadora nem pretende ser, a gente não toca. A gente acaba tendo divulgação melhor em cidades pequenas e em jornais regionais. Os artistas acham que tocar no rádio e na televisão é a única forma de ganhar dinheiro e fazer seu trabalho. Mas isso não é verdade. A grande maioria dos músicos, infelizmente, fica com essa ideologia (atrasada) do sucesso, da fama… “eu preciso fazer a minha música para ter sucesso e ter público”. Isso gera concorrência entre a classe musical, porque temem que alguém roube seu público. Isso não existe. O que existe é: você tem talento, você tem personalidade, você tem verdade com sua obra e com seu público, então, você vai conseguir montar um trabalho onde você tenha sobrevida. E isso ninguém rouba de ninguém.

Como você vê o tratamento que a mídia dá para a música hoje?

FA: Se a música fosse totalmente dependente da grande mídia, nós estaríamos perdidos. O TM é um projeto independente. Não recebemos nenhum patrocínio. Por isso não aparecemos em muitos programas de TV nem em grandes rádios. Por que a gente não paga pra isso. A rádio e a TV são concessões públicas. O Estado fornece a concessão para um cara poder administrar a comunicação para o público, só que não é isso que acontece. A música é tratada como chinelo… São três minutos de duração, então vai custar tanto… Você nunca vai ouvir aquele senhorzinho lá do morro que faz um samba diferente. Você vai ouvir o resultado de conchavos entre engravatados e gente que não está interessada em cultura nenhuma. Está afim de grana no bolso e ponto final.

O TM, com dois álbuns gravados, vendeu cerca de 200 mil cópias físicas do CD, mas na internet ultrapassa 1 milhão de downloads. O que você acha da internet, musicalmente falando, como instrumento da democratização da informação?

FA : Acho fabuloso! Nos últimos 20 anos, todos os artistas precisavam do bom humor de alguém para levar um pouco do seu trabalho para a rádio e ser conhecido. A partir do momento que surge a internet, a gente passa a existir para um público maior, porque através dos blogs, twitters e afins, a gente pode ficar de frente com o nosso público, falar sobre o projeto, contar o que está acontecendo conosco. Nós temos uma música “O que se perde quando os olhos piscam”, que foi composta em parceria com milhares de “twitteiros”, o que mostra a importância dessa interação do artista com seu público. Alguns artistas são contra, por exemplo, aos downloads gratuitos das músicas, porque acham que prejudica a venda dos CDs, mas nós não achamos isso. Se você tem um preço honesto, justo, se o teu trabalho tem conteúdo, o público vai comprar a tua camiseta, teu CD, teu DVD. O público vai te dar um retorno.

Você costuma dizer nos seus shows que a poesia prevalece. Mesmo no meio de tantos “rebolations” da indústria cultural, ela prevalece mesmo?

FA: Prevalece! Se eu fosse o presidente da República, eu diria: “Meus caros companheiros, a política se faz toda hora, todo dia.” Mas eu sou um palhaço poeta, então eu falo que a poesia se faz toda hora, todo dia! A gente consegue se inspirar com qualquer coisa. Eu, por exemplo, não penso a minha carreira para esse instante. Eu penso na minha constância. Porque eu quero, daqui a 5, 10 anos, poder olhar e falar “meu, que bacana, eu tenho uma obra interessante, eu consegui passar tudo o que eu tinha ali como inspiração”.

Foto Vanessa Lazzaretti

Um recado para o pessoal da Faculdade de Artes e Comunicação da UPF…

FA: Bom galera, pra vocês que estão começando… Vocês que trabalham com música, com teatro, com a comunicação social, vou dar uma dica. Nunca deixem de produzir, mesmo que vocês tenham as mínimas condições. O primeiro CD do TM foi gravado no quintal da casa de um amigo meu. Produzam sempre. Montem suas bibliotecas de vídeo, de textos e debatam as coisas com as pessoas que estão próximas de vocês. Não somente de uma maneira virtual, mas de uma maneira física. Para qualquer revolução dar certo, você precisa sentir o cheiro do seu companheiro, sentir ele do seu lado. Só assim você vai saber o que realmente é verdadeiro.  E o mais importante: nunca desistam dos seus sonhos. Nenhuma força é capaz de destruir algo que se quer de verdade. Se vocês aprenderem a olhar para os seus sonhos, vão descobrir que eles estão mais perto do que vocês imaginam.

[stextbox id=”custom” caption=”A Sociedade do Espetáculo: o novo trabalho d’O Teatro Mágico”]

A Sociedade do Espetáculo é o terceiro trabalho d’O Teatro Mágico. O álbum foi inspirado no trabalho de Guy Debord, que tem o mesmo título. A obra ainda atual do filósofo francês fala sobre a imagem enquanto elemento organizador da sociedade de consumo. O conteúdo das melodias e letras traz o questionamento do mundo que vivemos hoje, como em “Amanhã… será?” inspirada nas atuais manifestações que acontecem no oriente médio, organizadas pela Internet. Assim como no álbum anterior (O Segundo Ato), a trupe discute seu lado político/cultural, sem esquecer também o lado sentimental.

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httpv://www.youtube.com/watch?v=smyyQfsPhBs

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