Novos rumos para uma antiga arte


O modo como você se comunica mudou. Junto, mudou o modo como você lê seus livros, ouve suas músicas e, claro, assiste a seus filmes.

O cinema surgiu em 1895 com a apresentação dos irmãos Lumière no salão do Grand Café de Paris, conquistou seu espaço e se estabeleceu como arte. Até que em 1976 houve a primeira mudança no modo de assistir a filmes: surgiu o VHS (Vídeo Home System), um sistema que permitia levar os filmes para casa e assisti-los a qualquer momento no conforto do lar. Foi revolucionário, mas o tempo passou e em 1995 o DVD roubou a cena e o posto do VHS. Mais compacto e prático, o DVD funcionou muito bem… e por pouco tempo.

Nessa perspectiva, já se previa que, em um mundo cada vez mais conectado e exigente, o DVD se tornaria ultrapassado. Como se tornou. A praticidade já havia sido comprovada, faltava, então, a melhoria em qualidade. Esse detalhe foi solucionado em 2010, com a entrada no mercado do blu-ray, muito parecido com o DVD, mas em alta definição.

Já poderíamos parar por aqui, não é? Não.

Apesar de todas as facilidades, nenhum desses formatos comprometeu, de fato, a preferência pelas salas de projeção. No entanto, a internet, que surgiu há pouco, veio para competir com todos eles, inclusive o cinema.

O mercado de filmes online cresce a cada dia. Em 2008, o Brasil era responsável por cerca de 1,8 milhão de downloads ilegais por ano. Hoje, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) estima que 8 em cada 10 brasileiros baixam músicas e vídeos piratas da internet. Sem gastar, sem precisar sair de casa. É quase uma competição desleal. Diante dessa situação, a (inevitável) pergunta: seria esse o fim de locadoras e cinemas?

Locadoras ainda são opção

Para Claudia Regina Piccolotto, não é o fim. Claudia é dona de uma locadora em Casca há 6 anos e conta que, quando a comprou, o VHS já havia caído em desuso e o DVD reinava.  Segundo ela, o movimento na locadora não é prejudicado pelo hábito de baixar filmes no computador: “As pessoas que usam esse método não são aquelas que têm o prazer de alugar e chegar em casa, curtir o seu filme com uma boa tecnologia, que são as mídias blu-ray e as TVs com imagens cada vez mais reais.”

O veterinário Thiago Motter Alberti é um deles: assiste, em média, a 2 filmes por semana. Segundo ele, é muito trabalhoso ter que procurar os filmes, baixar, procurar pela legenda, colocar em um pendrive ou ligar um cabo na TV para só depois assistir. “Não tenho esse tempo e essa disposição para fazer isso.” Thiago também acha a qualidade dos filmes disponíveis na internet inferior aos filmes em DVD: “Ainda vou na locadora porque quero qualidade, quero comodidade e claro, preservar o mercado.” O jovem acredita que assistir a filmes no computador não vai acabar com as locadoras, a curto e médio prazo: “existe uma geração que não tem ideia de como funciona o processo de baixar filme e etc e tem pessoas, como eu, que não acha isso prático, nem confortável.” Apesar disso, Tiago acredita que o mercado tende a encolher: “Acredito que a diminuição dos preços da internet banda larga (e melhoria da qualidade) e das TVs (com acesso a internet), mais empresas disponibilizando filmes e séries por streaming,, vai acabar limitando bastante.”

O outro lado

A estudante de medicina veterinária, Renata Leis Faria, é da nova geração. Baixa de 4 a 5 filmes por semana. Por quê? “Porque é mais cômodo, mais prático, não preciso sair de casa e tampouco gastar dinheiro. Encontro praticamente todos os filmes que a tenho vontade de assistir.” Aliás, a economia é o principal argumento de quem defende essa prática, já que basta ter uma boa conexão com internet e vontade de procurar o filme de sua preferência.

Renata acredita que o fim das locadoras está próximo; já o cinema ainda tem alguns anos de vida: “Porque é maravilhoso, para um cinéfilo ver uma estreia, ou assistir aos clássicos e isso é difícil de mudar.” Ela não frequenta cinemas. Na opinião da estudante, a maioria dos filmes que passam por aqui é ruim: “Acho inútil pagar por um filme não tão bom assim, sendo que posso assistir grátis.”

Parece uma ótima opção. Mas não é tão simples quanto parece. Segundo o Código Penal Brasileiro, baixar ou assistir a filmes online não é considerado crime desde que seja apenas para reprodução doméstica e que não tenha fins lucrativos. Portanto, nada de distribuir seus filmes, OK?

O apoio ao cinema

E o cinema? Vai perder espaço? Muita gente duvida. Entre eles Douglas Radaelli Fucina. O estudante de direito é frequentador assíduo das salas de cinema e concorda que baixar filmes em casa é mais fácil e não demanda dinheiro, mas afirma que o cinema é mais que isso. Douglas acredita que exista algo meio místico. Segundo ele, esperar a estréia de um filme, enfrentar filas pra comprar ingresso e comer pipoca tem um gostinho especial.

Douglas também acredita que o cinema não ficou parado no tempo: “Cada vez mais eles investem em conforto e tecnologia, como por exemplo, o 3D. Então, a resolução no cinema é muito melhor que qualquer filme que tu baixes ‘piratamente’.”

Mas se engana quem acha que esse é o único argumento do estudante. Existe outro e melhor: “Eu acho que o cinema é um lugar pra tudo. O cinema aproxima as pessoas já que é um lugar pra ir com os amigos, com a família e, principalmente pra levar uma menina (nesse caso filmes de terror são os mais indicados, visto que o guri espera mesmo que a guria se agarre nele)”, brinca.

Seja em casa, no cinema ou na locadora, não importa. Todos concordam que o importante é se divertir. Mais de 100 anos depois do pioneirismo dos irmãos Lumiére, o cinema continua se reinventando a cada dia e ainda tem um longo caminho pela frente.

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