Colaboração: João Vicente Mello da Cruz
A tecnologia, livre e acessível a todos, é uma realidade presente e inegável. Os verbos que passeiam por esse novo universo – criar, combinar, editar, registrar, escrever, refazer – são atrativos para qualquer ambiente porque permitem novas possibilidades de escolha. Para a educação, no entanto, surge o desafio de conciliar o aprendizado e as atividades desenvolvidas em rede – por meio de diferentes tecnologias. Roberto Maragliano é italiano, professor Doutor da Universidade de Roma Tre – responsável pelas disciplinas de Tecnologias para a educação de adultos e Rede de comunicação para a aprendizagem – e defende a ideia de que a modernidade líquida impõe que a educação aconteça através da tecnologia. Em entrevista ao Nexjor, durante sua participação no 1º Seminário Nacional de Inclusão Digital – SENID –, sediado pela UPF, ele contou as experiências desenvolvidas na Itália para afirmar um novo modo de fazer acontecer a educação.

Nexjor: A tecnologia nem sempre é acessível aos mais velhos – seja por falta de contato ou por não haver adaptação. De acordo com os seus estudos realizados na Itália, a educação só poderá acontecer, de fato, na digitalidade. De que forma, então, futuramente será possível o professor estar mais próximo do aluno?
Roberto Maragliano: Isso é muito duro. É necessário ser muito corajoso. É importante fazer as pessoas perceberam que só é possível ser professor quando se vive o mundo digital. A experiência que nós temos é de promover ao máximo a relação entre aqueles que aprendem, fazendo de uma maneira que exista a intercomunicação no interior do grupo. Quando eu faço uma atividade na rede, o meu papel muda e não é mais do de professor. Às vezes, porém, é necessário criar condições para que a educação aconteça através da tecnologia. É um novo modo de ver a educação e deve acontecer nas universidades e nas escolas. Hoje, os modelos que seguimos são os mesmos de duzentos anos atrás.
N: Quais os principais aspectos que devem ser levados em conta quando falamos nesse novo modo de ver a educação?

RM: A respeito da educação anterior à digitalidade: por causa dos livros estamos acostumados a conceber o saber como algo físico, definido e organizado e interpretamos a realidade possível de ser lida, analisada e dividida. Pensamos que a realidade do nosso conhecimento esteja dividida e organizada no nosso interior exatamente como é dividido e organizado um livro – sendo estruturas sólidas, como índices de um livro de física ou geografia. Se abro um livro na metade, quer dizer que estou na metade de um percurso linear. Por isso tendemos a entender o conhecimento como algo que pode ser, da mesma maneira, dividido e organizado. Existe uma pedagogia que nos habitua a pensar o mundo e a nossa própria existência como algo que pode ser classificado, ordenado e colocado no seu lugar. Quando você inicia um livro de matemática, você não sabe nada de matemática, mas, no final, você saberá. Só que aqui, nesse novo modo de ver a educação – de acordo com a pós-modernidade -, o conhecimento acaba na última página do livro. O mundo do passado e aquele modo de pensar são ainda muito presentes na sociedade, principalmente nas instituições educacionais. A revolução digital não está mudando o modo de pensar dos conteúdos, mas modifica o modo de produzir, apresentar e comunicar tal conteúdo. Todas as coisas estão se tornando líquidas. Os contornos vão se atenuando dentro do universo digital. E, aí, a questão consiste em achar solução para os problemas. Devemos aceitar que existem coisas complicadas, mas pensar sempre que podemos resolvê-las, transformando-as em simples. Na digitalidade se vai adiante! Se faz, se refaz, melhora, se constrói novamente.
N: Então, nessa “nova educação” o professor assume outro papel? Qual o limite entre orientação e censura?

RM: O professor não deve estar ao centro, deve estar à margem, intervindo e ajudando somente de um modo muito ligeiro e sutil. Como um cão pastor, que não agride o rebanho, mas que está ali, vigiando o rebanho. Se não acontecer assim, todos vão olhar para o professor e, então, aprendem menos. Olhando para o professor, se esquecem de interagir entre si. O professor deve observar e motivar o trabalho do grupo.
N: E quem ficar de fora desse mundo digital?
RM: Nos países onde a situação é menos critica, os idosos que não trabalham demonstram muito interesse pela tecnologia e que podem aprender com seus netos. Para um idoso, a TV é um instrumento importante, e a rede será melhor e mais utilizada se idosos se habituarem a utilizar. Não teremos problemas com idosos. Teremos problemas com as pessoas que têm entre quarenta e sessenta anos. Eu me questiono o que acontecerá com as escolas e universidades que atuam de acordo com certos métodos e que tem um modo de pensar e agir que depende desses métodos. Vivemos numa fase de modificações! Existem os carros, mas ainda existem carroças puxadas a cavalo, e o problema não é a qualidade do carro ou da carroça, mas, sim, o alcance: a carroça não serve para certas situações que o mundo atual apresenta. É uma modificação importante da mentalidade e das experiências porque vivemos uma passagem – não só uma transferência de corpos e objetos – mas de compreensão e de tecnologias.
N: A educação inevitavelmente avança ao máximo para o contato com a tecnologia. O mundo digital está cada vez mais próximo da sala de aula e, como se percebe na prática, isso contribui em muito para o avanço do aprendizado. E quando não há relação entre a tecnologia e a educação?
RM: É impossível, não existe! Na educação não-digital existe, de certa forma, uma tecnologia, mas é uma tecnologia que já não corresponde à realidade do mundo. Por exemplo: os fenômenos econômicos da globalização não podem ser entendidos por meio de um manual; eles podem ser entendidos através das mídias e da experimentação. Outro exemplo: um sistema financeiro, por exemplo, se entende melhor com um jogo do que com um manual… O encontro entre a palavra, a imagem e o som – todos esses elementos de estética – dá sentido à educação na rede. A tecnologia amplia a capacidade de conhecimento e as experiências do homem e isso, quando colocado em evidência, revoluciona a aprendizagem.
[stextbox id=”custom” caption=”Experiência italiana”]Na Itália Roberto Maragliano é coordenador de um grupo que desenvolve trabalhos totalmente através da digitalidade. “Um livro é construído em conjunto”, explica. “Nós fazemos atividades de formação totalmente em rede. Temos cursos de mestrado com participantes no mundo e que não conhecemos.” O trabalho do grupo consiste em “completar o pensamento do outro”: um texto é publicado e todos os integrantes do grupo acrescentam suas ideias e comentários a respeito do que foi escrito. O foco de discussão do grupo é a tecnologia comunicativa – do passado, do presente e do futuro – e toda a experiência adquirida através dela. “Isso muda o sentido da aprendizagem”, encerra o doutor.[/stextbox]
