A rivalidade é vista há mais de um século no Rio Grande do Sul entre as grandes torcidas azul e vermelha e desde sempre na história do ser humano.
De um lado o vermelho, de outro o azul. Rostos pintados, bandeiras erguidas e muita energia de ambos os lados. No estádio, hinos em uníssono. Em casa a televisão ligada e o sofá cheio de gente. A mesma camiseta ou cueca, um chapéu ou batom em específico, ir ao banheiro em determinado horário, segurar um amuleto. São rituais e superstições que completam o dia do clássico Grenal dos torcedores gaúchos mais fervorosos.
A bola é mero detalhe se comparada à devoção dedicada ao time e a paixão que envolve a torcida. Vencer é o objetivo de todos os jogos, não só contra o principal rival, mas em qualquer jogo – de time oficial ou “pelada de final de semana”. Para vencer, é necessário que a bola entre no gol, que ela passe pelo goleiro, que com ela se driblem os adversários – de fato, a bola é importante – mas a vitória não será válida se não tiver público para aplaudir, para comemorar e, claro, flautar o amigo do time derrotado.
A rivalidade vista em campo é reflexo da rivalidade entre a própria torcida que às vezes começa dentro da casa do torcedor, entre família e se estende aos círculos sociais, trabalho, relacionamento entre cônjuges e amigos.
Segundo a professora e Doutora em Psicologia, Ciomara Benincá, “a rivalidade nasce a partir do momento em que se percebe que não se é único no mundo”. O ser humano deseja reconhecimento, procura provar que é merecedor, no caso do futebol, dos títulos e vitórias. Como explica Ciomara: “É preciso competir, para se ter o que quer”.
Grenal
Amar no dicionário significa querer muito bem, sentir ternura ou paixão, ter afeição, dedicação, devoção. São esses sentimentos que os torcedores expressam por seu time, definem essa relação como de amor. A torcedora assídua do Grêmio, Kaliandra Alves Dias, 18 anos, diz que “amar o Grêmio ou o Inter é a mesma coisa que amar uma pessoa”. E continua explicando: “Fazemos de tudo para defender quando alguém ofende”, referindo-se aos comentários e flautas que não lhe agradam. Outro gremista apaixonado e atual cônsul do Grêmio em Ibiaçá, Paulo Henrique Santini, 19 anos, ainda acrescenta: “Pelo futebol, tenho paixão. Pelo Grêmio, um amor único.”
Esse amor expressado pelos torcedores, geralmente, é hereditário. A família torce por um time e passa para os filhos, como aconteceu com a colorada Renata Pegoraro, 32 anos. “Cresci numa família totalmente colorada e, como este amor também me contagiou, virei colorada fanática e, principalmente, antigrêmio.” Com Matheus Henrique Bedin, 25 anos, não foi diferente. A sua família influenciou na escolha: “Ganhei uma camiseta do Inter quando tinha 6 anos, e, quando eu ia jogar futebol, tinha que usá-la”.

O amor pelo time muitas vezes precisa ser dividido e até superado – ao menos por alguns momentos – afinal, Grenais também acontecem nos relacionamentos entre duas pessoas e isso não é – ou não deveria ser – problema. Há gremistas que amam colorados, da mesma forma que há colorados que se apaixonam por gremistas.
Esse Grenal conjugal aconteceu com Renata e o marido, Paulo Marcos Tesser, 33 anos. “Quando nos conhecemos, foi bem engraçado”, conta Renata. “Ele estava me dando carona para casa e, quando me disse que era gremista, eu falei ‘não acredito que eu estou no carro de um gremista!’”. A reação do Paco, como é conhecido, foi instantânea. Segundo Renata, “ele parou o carro, desligou, abriu a porta e disse: pode descer!”.
Um confronto entre gremista e colorada aconteceu no primeiro encontro, porém o carinho e o amor entre eles falou mais alto que a rivalidade, mas não ficou de lado, já que no casamento, em determinada altura, cada um pegou a sua bandeira e “recrutou seus aliados” a cantar junto o hino do time adorado. Esse relacionamento, como muitos outros, prova que, apesar do fanatismo de alguns, há fatores que, em determinados momentos, falam mais alto.
Esportiva
Defender o time das gaitas de familiares, amigos ou chefes é válido, como também é válido flautar os mesmos. O que não pode acontecer – mas, por vezes, acontece – é discutir e brigar a ponto de terminar uma amizade, ou perder o emprego em função do fanatismo. Levar na esportiva é sempre mais saudável; afinal, a graça está em poder cutucar alguém – sabendo que algum dia também será cutucado.

E, quando esse dia de baixar a cabeça e aguentar as chacotas chega, não se acha muita graça na brincadeira do amigo sobre a derrota – que já é bem chata – e, então, a conversa pode mudar. Kaliandra conta que já terminou amizades por causa de comentários que não gostou sobre seu time. “Para mim é assim, rivalidade tem um limite e, quando passa esse limite, acaba o respeito”. Mas admite: “Eu não sou uma torcedora que leva na esportiva”, justificando as tentativas inúteis de levar na boa.
Para Matheus também existem limites, entretanto, o limite é não ficar brabo por uma brincadeira do adversário. “Há quem leva a discussão adiante, mas tem que perceber que isso não passa de um lazer e que em nada vai mudar nossas vidas”, lembrando que, quando provocado, sempre fala “da grande vantagem quando se trata de confrontos diretos com o rival – Grêmio”, entre seu grupo de amigos.
Entrar para algum time é pertencer a um grupo. O pertencimento faz com que as pessoas se sintam na obrigação de defender esse grupo, por se tratar de um ser social. Como complementa Ciomara: “A gente acredita que o nosso time é melhor que o outro e o idealiza”. A partir desse momento, concretiza-se um sentimento por esse time, que Ciomara define de “quase familiar, uma identificação”.

Crhistian Benvegnú, 19 anos, é a prova de que torcer por um time é ter um sentimento “quase familiar”. Afirma que “ser gremista é mais que um sentimento, é uma filosofia”, e, por sentir-se assim, quando uma ofensa é dada ao time, o ser humano a compreende como pessoal, levando a brincadeira a sério.
Rivalidades à parte, o ser humano compete também fora de campo, entretanto, é nos dias de jogos, entre a torcida, que ele pode expressar seus sentimentos mais íntimos, como acrescenta a professora em psicologia, Ciomara: “Encontra ali um terreno fértil para manifestar seus sentimentos”.
Os sentimentos devem ser manifestados, o que não pode acontecer é partir para a agressão, seja ela verbal ou física. Afinal, nada melhor do que poder sentar entre família e amigos para curtir um clássico de final de semana, na esperança de – dessa vez – se sair melhor, já que um dia é da caça e o outro do caçador.
