Justiça sob duas rodas

Colaboração: Sammara Garbelotto

O sol ofusca o motoqueiro, que sente a testa oleosa de suor. Vendo aquela luz cegante, ouve tiros. Seu braço direito e o peito formigam, esquentam e ardem.
Desequilibra-se. A moto rodopia até a calçada, jogando-o para o outro lado da rua. Cai quase em frente à casa dos pais. Sua cabeça quica como bola de basquete. O céu, antes azul, avermelha-se. Ouve a voz de soprano de sua mãe gritar: “filho”. Sente um abraço de mulher gorda e suada, embalando-o como se fosse um bebê.
Gustavo sabe que chegou em casa pela última vez. 

Gustavo é, na verdade, Clodoaldo Teixeira, motociclista de 17 anos, assassinado em uma época conturbada da história de Passo Fundo. O episódio, que ficou conhecido como Revolta dos Motoqueiros, começou no dia 5 de fevereiro de 1979 e movimentou a cidade. O mundo estava imerso em uma crise econômica que havia iniciado em1974. Acidade (e o Brasil) enfrentava um duro regime militar, que se estendia há quase 20 anos, e as revoltas eram frequentes em todo o país. Não bastasse isso, a região sofria com os efeitos de uma seca que agitava os ânimos dos moradores.

O estopim da revolta se deu na tarde do dia 5, quando o jovem Clodoaldo voltava do trabalho com sua moto e se deparou com uma barreira policial. Como era menor e não tinha carteira de motorista, o jovem desviou a barreira. Os policiais o seguiram e o atingiram com um tiro nas costas a poucos metros do portão de sua casa.

A morte do jovem comoveu os colegas motoqueiros e a população passo-fundense e gerou uma revolta contra a Brigada Militar – que se negava a punir os responsáveis.  No dia 6 de fevereiro, cerca de 10 mil pessoas se uniram e saíram às ruas para acompanhar o cortejo fúnebre. Os protestos se estenderam por três dias. Na garganta, um grito contra a impunidade e o desejo por justiça.

A história dessa que foi a última grande revolta ocorridaem Passo Fundoé tão marcante para a cidade que virou livro nas mãos do jornalista e cartunista Leandro Malósi Dóro.

Jornalismo e história se unem 

Leandro Dóro escreveu um livro de ficção baseado na Revolta dos Motoqueiros.

O jornalista se interessou pelo assunto ainda jovem – com 18 anos – mas não fora a primeira vez que Dóro ouvira falar na revolta. “Eu era criança, tinha 3, 4 anos na época, e eu ainda me lembro dessa movimentação da Revolta dos Motoqueiros de uma forma muito vaga. Quando eu tinha uns 16 anos, mais ou menos, eu frequentava uma banca de revistas e o rapaz que atendia a banca pediu: ‘Olha tu pode passar num bar pegar um café pra mim?’ Eu fui e nesse bar eu encontrei o Argeu Santarém narrando a revolta dos motoqueiros. A partir daí eu comecei a me interessar mais sobre o assunto e pesquisar esse tema.” A oportunidade veio aos 18 anos, quando Leandro começou a trabalhar no Museu de Artes Visuais Ruth Scheneider, o MAVRS, e conheceu André Martineli Piasson, que na época estava começando o curso de História e queria trabalhar na sua monografia a Revolta dos Motoqueiros. “Então, a gente se uniu, eu com interesse de repórter, ele com interesse de historiador.”

De acordo com Dóro, a revolta não foi um fato isolado. Uma série de fatores deu início ao sentimento de indignação da população. Entre eles, a seca que vinha ocorrendo há dois anos  na região acabando com as lavouras de soja; a retirada das famílias do campo, sem contar as inúmeras mortes que aconteciam na cidade. “A cidade estava fervilhando naquela época, estava quente, passávamos por uma seca muito forte; então, os ânimos estavam exaltadíssimos, a população estava exaltada. Ao mesmo tempo você tem o período militar, em que eles eram mais duros no trato cotidiano, mas isso não era exatamente um problema apenas da ditadura, era um comportamento padrão. A maneira relativamente grosseira de falar, de agir e de tomar decisões era muito aceita na sociedade naquela época.

 A realidade virou ficção

Leandro conta que, apesar de ser um livro de ficção, ele tem muito de realidade. “Toda verdade tem um pouco de ficção. A ficção está presente, inclusive, nos fatos cotidianos porque você cria interpretações sobre o fato.” Segundo o jornalista, a opção de trabalhar o fato como ficção se deu porque o episódio foi muito marcante na história de Passo Fundo. “Eu tentei fazer um livro mais complexo, com vários narradores e depois desse livro mais complexo eu decidi fazer quase um infanto-juvenil porque a ideia era tratar o livro de uma forma que pudesse ser palatável e interessar desde a um jovem de 16 anos até uma pessoa de 40, 50 anos de idade.” conta.

 No livro, literatura e jornalismo se confundem. Segundo Dóro, quem estuda ficção se dá conta de que existem dois mundos paralelos correndo como, por exemplo, no roteiro de um filme em que existe um ponto, no meio da narrativa, em que acontece alguma coisa e o filme “vira”, de maneira quase imperceptível. Nesses moldes surgiu o livro. “Usei esses recursos ficcionais de uma história principal e de histórias secundárias, incluindo humor, tentando incluir romance e uma discussão sobre o futuro do  personagem, porque um personagem é feito de vontades.”

Dóro ainda acredita que, se a revolta acontecesse hoje, não seria de forma semelhante. “Hoje o contexto é totalmente diferente na cidade. Existem rebeliões locais, mas não com a mesma força e não com a mesma intensidade. As necessidades básicas da sociedade já estão atendidas, de certa maneira.” Por mais que os fatos tenham ocorrido na época da ditadura militar, Dóro afirma que ela não foi decisiva para que a população tomasse a decisão de sair às ruas. “A nossa população na época, a população brasileira, em geral, boa parte era alienada, não compreendia isso. A mídia não externava nada sobre esse tema. Quem sabia eram as pessoas politizadas, que estavam em grupos de esquerda e que normalmente poderiam vir a ser perseguidas por saberem dessas informações. A maior parte da sociedade era fã do Roberto Carlos, e não sabia o que estava acontecendo. Essa divisão existia e também se reproduziu aquiem Passo Fundo”, encerra.

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