Meia Noite em Paris

O filme construído sobre o realismo fantástico traz a arte como desmistificação do consumível e a reflexão sobre a transcendência do presente.

Um cartão-postal em transformação, diversos lugares da cidade-luz em sequência. Woody Allen inicia Meia Noite em Paris, sua 49ª longa, com imagens embriagantes de Paris em movimento. Torre Eiffel, Museu do Louvre, Rio Sena, Catedral de Notre Dame, Avenida Champs-Élysées, Giverny – os Jardins de Monet, Musée de l’Orangerie, Ponte Alexandre III, Square Jean XXIII, Marché Paul Bert, Museu Rodin, além dos bares, hotéis e restaurantes que compõem o cenário da trama e traçam um roteiro pela cidade artística dos pintores, músicos e escritores. Uma cidade que se movimenta. Uma cidade tradicional, mas que se contradiz ao mesmo tempo em que o clima encontra-se em constante mudança.

Conhecida como a poética “cidade luz”, eleger Paris e retratá-la com base no realismo fantástico não poderia ser melhor para Allen, que já abordara o realismo fantástico nos anos 80 com A Rosa Púrpura do Cairo, ambientado durante a Grande Depressão dos Estados Unidos, em que o ator principal sai literalmente da tela do cinema e vai ao encontro da garçonete Cecília, que o assistia constantemente após a sua demissão, para viver a vida real. Allen faz uma ótima escolha ao explorar dentro do realismo fantástico a ideia do que é consumível e do que é intelectualidade – e, aqui, a aposta do diretor, que geralmente produz seus filmes em Nova York, é trabalhar sobre a arte como experiência a ser sentida.

A proposta defendida é que a arte deve ser experimentada, como desmistificação do consumível, em busca da valorização dos grandes mestres de todos os tempos, como acontece com Gil (Owen Wilson), um roteirista de Hollywood bem-sucedido financeiramente, mas frustrado consigo, que, quando encontra a possibilidade de retornar a Paris, o faz com grande entusiasmo.

Acompanhando a noiva Inez, (Rachel McAdams) e os pais dela, Gil, que sonha em ser escritor, conhece Paris depois da meia-noite, quando o realismo fantástico entra em cena e a cidade deixa de ser simplesmente a cidade-luz e se torna a cidade mágica, onde é possível voltar no tempo e vivenciar os dias dos artistas dos séculos passados, participar do círculo de amizades e se envolver com pessoas que viveram em épocas passadas. O encanto despertado faz com que Gil volte a sonhar em ser um grande escritor americano, traçando outros rumos para sua vida.

Para quem gosta de história da arte, o novo Allen é inebriante. Traz partículas bibliográficas dos artistas mais renomeados em suas diferentes épocas, como F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Picasso, Dali, entre outros.  Gil é colocado no contexto histórico dos artistas e vivencia a época e as perturbações individuais de cada pintor, escultor ou escritor, checando sua própria atividade. A trama nos faz pensar se existiu mesmo uma “época do ouro”, que Gil acredita ter sido nos anos de 1920, ou se apenas existe uma transcendência do presente para viver na nostalgia de um passado desconhecido e idolatrado, já que, ao conhecer Adriana (Marion Cotillard), uma estudante de alta costura que vive nos anos de 1920, percebe que o seu deslumbre está na Belle Époque. Ao viajar com ela para esta época, encontra Degas e Gauguin, que sonham com a Renascença como a época de ouro – o fascínio por um passado desconhecido, assim como Gil sonha com seus anos 20.

Tratando-se de Woody Allen, o contexto se justifica, já que não há necessidade de uma ordem narrativa, por se tratar de uma produção não linear, na qual as cenas correm entre os anos antigos e os atuais, a vida passada, intelectualizada e a atualidade consumista. O diretor sempre consegue inserir o público em seus enredos, levando-o a sentir a mensagem, a intenção primordial objetivada por ele. Ao longo de sua filmografia, em obras como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa , Manhattan e Um Assaltante Bem Trapalhão levou o público a sentir a neurose, o humor e a nostalgia, geralmente mesclados em suas histórias. Em Meia Noite em Paris, Allen insere as pessoas na elegante cidade – a verdadeira protagonista – e faz com que sintamos o encanto do local, além de defender que não se pode abdicar da vida em nome da arte, pois esta deve nos ajudar a compreender a vida. Nada mais óbvio quando se fala de Allen, o judeu que transformou a tela de cinema em uma extensão da própria vida.

[xrr rating=5/5]

Veja o trailer

httpv://www.youtube.com/watch?v=aYP4RfN1NvU

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