
Narrar a si mesmo. Contar o que pensa, o que faz, o que ouve. Escancarar as janelas e portas de um mundo (ir)real. Qualquer um entra, qualquer um sai. Palavras, sons e imagens unidos na busca incessante por causar uma impressão – boa ou má. O cenário é familiar. As redes sociais já são intrínsecas à sociedade. Independentemente da pergunta que fazem, suas questões são solucionadas sem qualquer resistência. Ideias, opiniões, fatos expostos; afirmação e crítica prontas para dar seu veredito. Como se 10 mandamentos não bastassem para reger a vida em sociedade, surge o 11º: siga, curta e compartilhe – só assim serás feliz.
Quando a internet começou a tomar forma, logo sugiram as primeiras possibilidades de um contato. Numa espécie de reinvenção da linguagem, os e-mails destruíram barreiras e criaram um novo modo de interação. Edvaldo Couto, Doutor em Educação pela Universidade de Campinas, e, também, pesquisador da área de cibercultura e comportamento social nas redes, acredita que a internet exerce um poder de fascínio sobre as pessoas: “A internet tem uma história. E, a cada nova invenção, nos perguntamos: ‘Como era possível viver sem isso?’Hoje não se imagina viver sem estar conectado…”. A nova possibilidade de relação interpessoal criou uma nova possibilidade de exercer a sociabilidade e uma nova visão de vida, que, somente na pós-modernidade, se concretiza. Em pouco tempo, o e-mail se tornou lento, demorado e falho. “Esperar um ou dois dias para a resposta”, comenta Edvaldo, “é inaceitável para essa geração”. De fato, e-mails foram facilmente substituídos por ferramentas que permitiram, pela primeira vez, um contato instantâneo. Os chats iniciaram sua caminhada de forma tímida, apoiados em sites já autossuficientes na rede para, somente depois, proclamarem independência e ultrapassarem, na corrida pelo gosto do público, todos os outros tipos de acessórios que a internet dispõe.

A insatisfação imposta pela modernidade líquida, no entanto, encurtou ou baixou consideravelmente a qualidade de vida dos chats e de ferramentas de contato instantâneo. O contato com uma pessoa apenas era pouco. Eis que há uma nova reinvenção do comportamento na rede e surge a possibilidade de conectar-se a milhões de pessoas e a milhões de histórias ao mesmo tempo em que é possível contar as próprias experiências. Edvaldo Couto ressalta que essa nova possibilidade diferenciou, de forma crucial, a sociedade adepta da rede: “Não existe mais o lapso de tempo entre o fato e a narrativa do fato. E essa possibilidade permite contar tudo a todos. As narrativas não estão amarradas, circulam livremente na rede”, enfatiza. Surgiram, então, espaços para vivenciar uma (outra) vida – real ou não. As redes sociais fizeram com que surgisse, também, uma nova cultura de massa que propõe e permite que se exponham aspectos da vida que em outra época, pertencia a uma esfera privada. “Eu me pergunto por que as pessoas escolheram viver dessa maneira? Por que a internet envolve tanto?”, questiona Edvaldo. Orkut, Twitter, Facebook surgiram questionando o que acontece, o que se pensa e o que se faz. Respondemos, obedientes. “As narrativas só têm sentido na esfera pública quando submetidas a uma esfera pública, ou seja, eu interfiro na narrativa ou na história de outra pessoa, enquanto a minha narrativa sofre interferências e eu acato isso. Essa é a base de uma rede social”, explica Edvaldo. O homem torna-se sujeito da sua história e da história do outro. Há, em qualquer rede social, a essência mais pura do antropocentrismo, no qual o homem e qualquer uma de suas experiências assume o centro do discurso.

O ser humano é estimulado a mostrar-se integralmente na rede. E o fato de a conexão existir de forma atemporal é um aspecto importante e que também estimula a narração de qualquer fato. Inserido nesse contexto, Grégori Leão se desconecta apenas para dormir. “Acho que as pessoas procuram suprir uma carência de afetividade humana, na maioria dos casos… Inclusive no meu. Cada post, cada compartilhar e curtir é sempre esperando que alguém veja e comente ou compartilhe ou curta” e completa: “Acho que todos são assim. Se não fossem, não existiria rede social! Todos procuram reconhecimento, dentro ou fora das redes sociais”, finaliza.As redes sociais digitais são populares porque ensinam a aperfeiçoar condutas de narrativas pessoais que concretizam a subjetividade de cada um. E nesse ponto, algumas coisas saem do controle de quem se mostra. Alice Benvegnú é estudante do ensino médio e acredita que grande parte dos acontecimentos da internet provém de uma falta de limites: “Existem pessoas que não respeitam a privacidade e a exposição de ideia dos outros, e pior ainda… Existem pessoas que nem a si mesmo respeitam! Utilizam fotos, frases, textos de ‘pura queimação’ de si mesmo…” comenta. Para Diogo Cappellesso, estudante de engenharia civil, há uma manipulação de personalidades na medida em que as pessoas “querem ser o que não são… querendo mostrar superioridade. Querem causar impressões que não são naturais e que a sociedade prega que causem. Seria muito mais bonito mostrar o que cada um é…”, opina. O cenário que se pinta aponta para uma falta de privacidade que não incomoda. “Um dos problemas sérios da nossa época”, aponta Edvaldo, “é que muita gente se estremece fazendo discursos de privacidade, quando a maioria das pessoas não se preocupa mais com isso. Me parece que valores como intimidade, segredos, vida privada, são valores de uma outra época…” reflete.
[stextbox id=”custom” caption=”Se liga!”]Edvaldo Couto, em palestra no SENID – Seminário Nacional de Inclusão Digital – comenta e resume a transformação que ocorre a partir desse universo de possibilidades ao alcance dos dedos: “As redes sociais devem se vistas como ambientes privilegiados de uma cultura de compartilhamento. Cada sujeito deve ser um protagonista feliz e triunfante e por meio das narrativas de si, deve promover encontros e criativos modos de viver baseados na solidariedade, pois nesse universo da cognição conectiva cada um é o que compartilha.”[/stextbox]A revolução 2.0, proporcionada pelas novas tecnologias e pelas redes sociais, não consiste em ser apenas mais uma revolução de atitudes. É mais. É uma revolução de pensamentos. O pensamento linear, analógico e inflexível ligado à modernidade transforma-se em não linear, digital e totalmente flexível com a vinda da pós-modernidade e todos os seus atributos. Avatares são criados, a comunicação se torna mais abrangente, as cidades tornam-se vazias ao passo que a rede de nós digitais enche-se de seguidores. E essa nova cultura foi adotada. “Ninguém precisa ser um especialista em programação ou um grande mestre da informática. Não se trata disso. Se trata de uma cultura, de um modo de ser que traduz uma participação ativa e o desejo de compartilhar das coisas. É essa civilização do desejo que vai potencializar o fascínio da internet”, comenta Edvaldo.
Há um espetáculo, no qual a humanidade assume o papel principal. Espetáculo de ideias e opiniões que voam às telas dos computadores. A rede social permitiu uma revolução desejada desde o início da civilização: cada um escolhe como quer ser visto – independentemente da realidade. A liberdade, hoje, acontece de uma maneira bem diferente da idealizada.
