Nem só de estudos é feita a vida dos universitários. Festa é a mais pedida nas universidades.
Com livros e cadernos entre os braços, a conversa transita entre o conteúdo visto em aula e a próxima balada, as provas que já passaram e a roupa que irão vestir, os trabalhos que estão por vir e o “esquenta que vai rolar”. Essa mescla entre responsabilidade e diversão, entre o estudo e o agito, faz parte do contexto do gênero musical – nem tão novo, mas em alta – solicitado por eles, jovens, o sertanejo universitário.
Entre essas diferentes influências, culturas e até mesmo o contexto, que está em constante transformação, se introduz o termo universitário – sem grandes mistérios – à denominação sertaneja. Sem muita elaboração, simplesmente porque o ritmo é apresentado pelas duplas em festas universitárias, circuitos musicais nos campi das universidades, primordialmente em Minas Gerais, e posteriormente pelo Brasil. O músico e professor da Universidade de Passo Fundo, Marcos Langner, de 38 anos, explica que “acabou se rotulando e desenvolvendo uma forma de cantar música sertaneja para esse público, tornando-se um estilo”.
Esse gênero vem movimentando as festas em todo o país, por se tratar de um estilo mais jovial, adotado nas “baladas”. O ritmo universitário é mais animado do que o sertanejo romântico e se diferencia também do sertanejo de raiz, por abordar temas urbanos. Mateus de Freitas Gregório de 25 anos, já participou desse mundo – no palco – e acrescenta que “o sertanejo de hoje é bem mais animado do que o romântico e muito mais de classe alta do que o de campo”.
A denominação sertaneja surge por ser música do sertão, porém há uma diferença entre rotular e identificar. A música de raiz, segundo Langner, “nem sempre é tão de raiz”, já que, historicamente, a colonização portuguesa se misturou com a cultura dos negros e dos índios, surgindo o folclore com seus estilos de tocar e de cantar e a representação literária, que acaba redundando nas canções. A raiz do sertanejo, portanto, é a unificação de diferentes culturas. São vertentes: uma vai para o sertanejo, outra para o samba, outra para o choro, como explica Langner: “Coisas que vão se espalhando e se aculturando, conforme as regiões, influências geográficas, de idioma e de tantas outras coisas”.
Do campo para a cidade
Cantar a vida. Uma maneira sertaneja de retratar o dia a dia do caipira que saiu do campo para a cidade. O sertanejo rotulado de raiz é o sertanejo do morador do campo, que canta a pobreza e a vontade de sair de lá. Quando chega à cidade, canta a saudade de onde nasceu. Posteriormente, acostuma-se com a vida urbana e novamente a descreve. O sertanejo acompanhou o processo migratório e o descreveu em seus diferentes contextos e regiões, como expõe Mateus: “Antigamente o sertanejo falava do campo, da viola, do amor e da relação entre homem e mulher. Hoje esse gênero veio para a cidade, deixou o campo e, por isso, fala em balada, dinheiro, bebida, traição, ou seja, assuntos diários, principalmente entre os jovens”.
Já Marcos faz uma ponte entre a raiz do sertanejo em seu ritmo, propriamente, e o rótulo comercial do mesmo. “As pessoas saem da roça – em se tratando de São Paulo, Goiás – mas a roça não sai de dentro delas. Comprou carro, comprou apartamento e não é mais rural, mas os costumes ainda são rurais, o que explica o boom do sertanejo nos anos 90, com Leandro e Leonardo, Zezé Di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, que começaram esse novo sertanejo comercial”.
O auge

Entre os jovens nascidos depois de 1990, é difícil encontrar apreciadores convencionais. Eles pedem por uma batida mais agitada, que lhes anime e, claro, fale sobre o seu contexto. Suprindo essa necessidade jovial, o sertanejo universitário prevalece. Quando questionados sobre o que esse estilo tem de melhor, os jovens apreciadores respondem prontamente: balada, agito. Mateus conta que a proposta da sua dupla era justamente essa, agitar o público. “Somos jovens como o sertanejo universitário, gostamos de ver a galera agitando, cantando com a gente, e isso só seria possível tocando o sertanejo universitário”.
Um estilo que traz a batida pesada do rock e animada do funk – de favela – só poderia surtir efeito positivo entre os jovens ecléticos de hoje, que não se prendem mais a um único estilo. Mateus explica esse fenômeno baseado no próprio ritmo musical: “Alguns instrumentos, como a sanfona, se tornaram mais eletrônicos, tornando assim a música com um ritmo um pouco mais acelerado. A maioria do pessoal que gosta de música sertaneja antiga é nascida antes de 1990. Praticamente todas as pessoas que apreciam o sertanejo universitário têm menos de 30 anos”. Abre uma ressalva e acrescenta: “Os mais velhos que entraram na onda, pode ter certeza, é por causa do agito, da música, da alegria”. E ele ainda admite: “Não posso acreditar que as pessoas levem alguma mensagem positiva para a vida com o sertanejo universitário atual”, referindo-se às músicas que muito falam, mas pouco dizem.
Gosto não se discute
O sertanejo tem suas classes: raiz, romântico, universitário. Não há discussão quanto a isso, da mesma forma que não há discussão sobre o gosto de cada um. Alguns apreciadores de sertanejo falam sobre seu ritmo preferido. Confira:
Ariéli Fim, 22 anos: sertanejo universitário, bem menos melancólico, muito mais dançante.
Luiz Carlos da Costa, 25 anos : sertanejo de raiz, porque tem a ver com a cultura de quem morava no campo, que falava de seu cotidiano. O universitário fala de coisas sem sentido e não tem nem o porquê de levar o nome de sertanejo.
Josiane da Rocha, 22 anos: universitário, porque tem a ver mais comigo, a época que estou vivendo, as festas, as farras e os amores (risos).
Franciele Oriolli, 21 anos: essa é sem pestanejar. Prefiro o de raiz, pois traz em suas letras uma história seja ela de amor, alguma recordação do passado, das coisas da terra, alguma lição, fatos que trazem à memória histórias antigas, e que identifica sentimentos! Também pelas melodias que tocam fundo na alma de quem ouve e não só escuta. O sertanejo universitário é uma “extensão” do sertanejo, ritmo dançante; fala da vida universitária, balada, festa, algumas de amor e de fato com grande repercussão e público, também ouço, mas entre um e outro prefiro aquilo que pode trazer algum tipo de mensagem, algo mais profundo do que um “sábado na balada”.
Amanda Machado, 17 anos: sertanejo universitário, porque gosto de dançar e, como sou jovem, as letras das músicas universitárias me agradam muito mais que as do sertanejo de raiz.
Shaiane Goulart, 20 anos: sertanejo universitário. Apesar de ser um gênero musical muito criticado, ele veio para modificar o cenário da música sertaneja brasileira, inclusive da classe universitária, não desdenhando o de raiz, que possui sua base cultural que permanece ainda. Pouca, mas existe!
Willian Prestes, 23 anos : gosto dos dois porque, para gostar do sertanejo universitário, tem que gostar do sertanejo raiz. O sertanejo universitário não existiria sem o sertanejo raiz, assim como o samba raiz, escutamos pagode, é uma evolução de uma raiz.
Camila Fernanda dos Santos Strada, 18 anos: não tenho uma preferência. Só escuto o sertanejo raiz desde pequena. Então isso me faz gostar mais desse “tipo” de sertanejo, o sertanejo atual é bom, tem músicas românticas que gosto de ouvir, mas está cada vez mais vulgar e isso não é bom pro sertanejo.
[stextbox id=”download” caption=”LUNDU”]
Acompanhamento musical: Rabeca (viola), clarinete, reco-reco, ganzá, maracás , banjo e cavaquinho.
O músico e professor universitário Marcos Langner explica que o lundu é a provável raiz do sertanejo. Segundo o músico, “o lundu é um estilo de música que nasceu na senzala e depois passou para dentro da casa dos senhores, tocada com piano, instrumental e introduzido nas canções”. Confira:
httpv://www.youtube.com/watch?v=7TSoR9gM-qY&feature=related
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