Foto=luz, grafia= escrever. Escrever com luz é o significado da arte criada pelo francês Joseph Nicéphore Niépce em 1826.

A fotografia, que é considerada por muitos uma arte, não é tão bem vista assim por outros, talvez por sua reprodutibiladade. Não bastasse a reprodução, há também a modificação, algo que já virou até verbo: photoshopar. Desde a descoberta da fotografia, conhecemos um mundo diferente do nosso através de outros olhos. Eternizamos lugares, pessoas, paisagens, o infinito.É uma representação da realidade, a partir do olho e da sensibilidade do fotógrafo.
Henri Cartier- Bresson, importante fotógrafo do século XX e considerado por muitos o pai do fotojornalismo, tem uma frase célebre: “[…] Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-las voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória”. Mas, e quando essas memórias são alteradas por um programa de computador? Quando o registro que temos já não é mais a representação (mesmo que utópica) do que um dia foi realidade?
A manipulação de imagens já foi alvo de polêmicas, primeiramente na Europa e, em 2010, o tema foi parar no Congresso brasileiro. A discussão era que todo anúncio de publicidade que tivesse algum tipo de modificação mais extrema deveria exibir o aviso “Atenção: imagem retocada para alterar a aparência física da pessoa retratada.” No auge da discussão no Congresso, o deputado Wladimir Costa disse que “em tempos de photoshop, a manipulação de imagens faz com que a fotografia seja muitas vezes radicalmente diferente da realidade. Manchas na pele são apagadas, rugas são cobertas, quilos a mais são extirpados.” Com a lei, o deputado disse que a intenção é “acabar com a idealização do corpo humano pela publicidade”.

Essas técnicas de manipular fotografias que o deputado tenta “controlar”, existem desde o século XIX, claro que não eram grandes modificações, mas alguns retratos já passavam por correções feitas por retocadores. Os retoques eram feitos com pincéis e tinta, com a intenção de melhorar a aparência do fotografado.

Século XXI, e o retocador de hoje é o photoshop. Com ele é possível fazer mais que simples ajustes, como acrescentar ou remover objetos ou até mesmo pessoas da imagem, mudar a iluminação e as cores, retocar maquiagem e esconder a celulite. Enfim, uma infinidade de ferramentas que prometem fazer milagres e que podem passar facilmente despercebidas aos olhos de um leigo.

Outro caso que ganhou destaque, foi um atentando em Madri em 2004, quando bombas explodiram dentro de um metrô, matando cerca de 200 passageiros. Na foto do jornal El Pais, percebe-se destroços e pedaços de vítimas pelo chão. Na foto ao lado, publicada no Diário de São Paulo, alguns detalhes foram excluídos.

O fotógrafo Diogo Zanatta, que trabalha principalmente com fotojornalismo, fotografia de eventos e fotografia documental, diz que a foto deve sair do olho, do coração do fotógrafo, “mas, se tiver um uso consciente da ferramenta, é sempre bem–vinda uma correção ou outra, alguma coisa que ficou pra trás. Porém, em excesso, como muitas vezes a gente vê em campanhas publicitárias, em moda, não acho legal”.
Já o publicitário Felipe Leduino trabalha com fotografia publicitária em uma agência de Porto Alegre e diz que é essencial para o fotógrafo “saber dosar a utilização do photoshop, e não usar ele como corretor de todos os limites da fotografia. Os recursos utilizados na própria fotografia, como luz e posição, possuem um valor muito maior no layout quando obtidos na câmera do que quando executados no photoshop. Foco na câmera, porque, se for fotografar mal, o photoshop não irá te salvar, apenas dar uma boa enrolada”, acrescenta.
Carina Fachinetto, estudante de Publicidade e Propaganda, aprova o uso de photoshop, “desde tirar uma mancha do rosto ou até por um efeito na foto pra ficar diferente, claro, sem passar dos limites, pois o exagero pode ficar nítido e apelar para o ridículo”.
A dica então é usar com moderação, apesar de ser difícil resistir à tentação de ter uma foto bacana, mas saber que pode melhorá-la. O que vale mesmo é investir numa boa fotografia, pois nem sempre o pós-processamento poderá ajudar.
