
Os dias são diferentes, os cavalos também. Há dias de sol e há dias de chuva, existem éguas brancas e cavalos escuros, cavalos e éguas marrons ou mesclados e o treinamento não pode parar. Se os instrutores, cavaleiros, amazonas e até mesmo os cavalos não têm poder de escolher tempo para treinar, tampouco nós teríamos! O sol acompanha a repórter até o Haras e depois se despede. Sob pingos de chuva, sem capa ou guarda-chuva, acompanhamos uma tarde inteirinha de treinamento.
Quando o tempo está nublado ou chuvoso, os treinamentos iniciam mais cedo, para encerrar mais cedo. Eram 14h quando chegamos ao Haras MD e lá estavam as amazonas sobre seus cavalos, aquecendo e alongando para os futuros saltos. Eroni Pacheco – pratica hipismo há 28 anos – treinador, gritava instruções que para os leigos não dizem muito, porém para os montadores são de grande importância: “Calma, organiza, levanta, deixa ir, olha, olha, olha… trabalha ela, círculo, assim, volta, tá baixo!” E a cada nova palavra – orientação – a amazona toma outra postura.

Se o instrutor manifesta instruções a todo o momento, se entende que é necessário muito treino e eles ocorrem diariamente, com uma folga semanal para o cavalo – no Haras MD é na terça-feira. Não só o montador, mas também o cavalo precisa ter um ritmo, já que nas provas são os milésimos de segundo que definem o vencedor. A agilidade e a destreza não dependem só do animal, mas também muito do atleta, que precisa ter uma massa muscular forte, prática constante e o fundamental: concentração. E, enquanto as alunas troteavam na pista, fomos à arquibancada conversar – claro, na arquibancada, para não perdermos a visão nem sermos atropelados.
Seguros, sentados e observando a pista, Eroni explica o que é preciso conhecer e treinar para chegar a bons resultados, a começar pelos armadores, que são as pessoas que organizam a distância dos obstáculos, a cor das barras e altura, e aqui todos os detalhes são importantes. A distância de um obstáculo a outro varia conforme a pista, a categoria e a dificuldade que o armador impõe.
Dificuldade e superação

Apontando para a pista Pacheco explica: “Se o armador coloca uma distância de vinte e sete metros, é para sete lances de galopes, mas, se o cavaleiro tem o cavalo grande, não pode ir de sete galopes, tem que ir de seis e cuidar para não fazer a falta”. O montador tem que ter a noção do tamanho do seu cavalo, da distância que ele irá percorrer e da velocidade que pode atingir. “Tudo tem que estar na cabeça”, completa.
Para quem olha “de fora” e vê os obstáculos – barras – coloridos, pensa que estão compondo um cenário decorativo, já que o esporte sugere elegância, porém não é tão simples, vai muito além de mera decoração. Quando os armadores pretendem colocar um grau de dificuldade maior no percurso, escolhem barras e lonas de cores diferentes, de forma a confundir o animal. Eroni relata exaltado como é complicado: “Obstáculos com varas brancas e a lona azul embaixo confundem o cavalo, às vezes até travam quando chegam na frente”.
A relação feita com as barras brancas e a lona azul é explicada: a princípio o cavalo não enxerga a barra branca; vê apenas a cor azul, no chão. O azul sugere água, um símbolo respeitado pelo equino. Onde há riachos e lagos ele não passa, sabe que ali é o seu limite. Não obstante, ao encontrar o azul das lonas, ou até mesmo os rios artificiais no percurso, ele para, não salta ou comete a falta.
Esses momentos de maior dificuldade são os que dominam o público, que prendem o fôlego de quem assiste e torce, de quem não conhece o competidor, mas percebe sua capacidade e até de quem não conhece o hipismo e, assim mesmo, assiste aflitamente. Essa emoção tomou o instrutor em alguns momentos da entrevista, enquanto as amazonas e cavaleiros treinavam os saltos. Sua voz – que é firme e constante – embarga ou nem mesmo sai da garganta.
Uma relação de amor
No dicionário, o significado de relação: ação ou efeito de referir-se, vinculação, ligação. Amor: afeição profunda; zelo, cuidado. Unindo os dois termos, temos a definição do envolvimento entre montador e animal no hipismo. O esporte desperta o interesse e cativa o atleta. Quem experimenta vicia. A elegância e a classe apresentadas nas competições hipnotizam. Muitos passam a apreciar, outros, a praticar.

Eroni é uma das pessoas que foi cativada pela beleza equestre em seus saltos. O desejo de aprender a saltar sobre obstáculos foi despertando gradativamente. “Eu via os caras saltando e pensava: o que eles querem saltar? Tinha pena dos cavalos, mas aos poucos fui olhando… resolvi que queria fazer também e nunca mais parei, desde1984”, conta, expressando orgulho do anos de prática. Na época, Eroni praticava o esporte na Brigada Militar, onde trabalhou. Posteriormente, se tornou instrutor e hoje atua no Centro Hípico e Haras MD, única escolinha de equitação aberta ao públicoem Passo Fundo.
Com os concursos ocorrendo e pessoas cada vez mais interessadas, a escola é muito visada, já que não é necessário ter seu próprio cavalo e treinar para competir. Há quem treine por hobby. Rafaela Weber Cecconello, 22 anos, é uma das pessoas que frequenta o Haras uma vez por semana, durante uma hora. Ela se diz apaixonada pelo esporte e, diferentemente do instrutor, procurou o hipismo justamente por enamorar-se dos cavalos. “Eu sempre gostei de cavalos, desde que eu me dei por gente. Tem fotos minhas de bebê em cima de uma égua que tinha na casa do meu avô. Minha avó sempre dizia que antes de dar um abraço nela eu ia andar na égua”, relata achando graça.
Apesar da diferença visível pela forma que o interesse foi despertado em cada um, ambos chegam a um ponto em comum: o carinho é mútuo entre atleta e animal, dentro da pista eles seguem juntos, entram em sintonia, sentem. “É quase uma intuição” explica Rafaela, enquanto Eroni admite “Eu gosto mais de montar”.
Tratamento de celebridade
“Tem que fazer o cavalo gostar do esporte, gostar de saltar”, pondera Eroni. Os cavalos são submetidos a um forte treinamento e, como pessoas, cavalos cansam. Não só cansam como precisam de folga. Todos têm seu limite, inclusive o cavalo que, quando exaurido ou com dor, não tem bom desempenho. Para que o cavaleiro não fique a pé em suas competições – ou até mesmo nos treinos – o cavalo passa por um complexo ritual. “Às vezes eles têm um tratamento melhor do que o das pessoas” brinca Pacheco.

O tom de brincadeira logo muda assumindo uma postura séria de quem explica algo importante – e muito importante por sinal. Para cada sete cavalos, um tratador, um número significante, se comparado a um hospital, onde uma enfermeira tem a incumbência de cuidar de vinte pacientes, por exemplo. Os animais recebem a primeira refeição cedo, às seis horas– ração de primeira qualidade, pasto bem tratado. Se o cavalo não comer a quantidade determinada a ele, o tratador avisa o veterinário – que passa o dia na hípica – para examiná-lo. Além dos imprevistos, eles passam por revisões semanais.
Aqui não é preciso aguardar dias de espera, o horário marcado com o médico é fixo. Nos dias de folga, os cavalos fazem a revisão – o veterinário trota o cavalo, pinça, puxa, examina as patas e passa a receita – se necessário. Nos dias de treinamento – com saltos – os tratadores preparam os cavalos. Antes de entrar na pista, 40 minutos de gelo nas patas. Posteriormente são colocados protetores com gel nos tendões– prevenindo as distensões – e, nos dias gélidos, uma capa para que ele não sinta muito frio ao treinar – pelo menos até aquecer.
Depois de um treino, geralmente o atleta toma banho. O mesmo ocorre com os cavalos de hipismo: banho diário e, ao invés de sol para secar, sombra. Para descansar, cama especial: cada cavalo dorme com uma liga de descanso que serve como aquecedor para o tendão. Assim, as dores que ele pode estar sentindo do esforço diário aliviam.
Originalmente criado solto, livre no campo e correndo, o cavalo tem energia gasta em seu habitat, diferentemente do cavalo do hipismo, que não gasta sua energia nos campos, o que não é problema, já que com o treinamento, ela se consumirá. Tudo meticulosamente controlado, afinal, não se pode perder a classe.
Explosão de interesse
Como uma tacada certeira, a ideia de trazer o público para os shows de encerramento dos concursos sediados no Haras MD funcionou. Entrada franca – desde que haja apresentação de convite – e horário estabelecido. Ok, venham ao show, porém antes conheçam o fascínio desse esporte cordial e interativo que é o hipismo. O pessoal chega, sem muito interesse, se instala nas arquibancadas e, em questão de minutos, sem perceber, estão hipnotizados, vibrando e aplaudindo euforicamente os acertos, lamentando as faltas.

No primeiro contato, já se estabelecem aproximação e, claro, interesse. E, dessa forma, o cenário cordial, elegante e interativo, de jovens despretensiosos, famílias e crianças animadas vai se compondo. A cada novo concurso, maior o público, como ocorreu no – Concurso de Saltos Nacional – realizado em março, que somou vinte mil pessoas nos três dias de competição. Comprovante da explosão, aqui estamos, na cidade que se tornou polo hípico e que não pretende deixar o título tão cedo.
“Sempre tem a primeira vez”. O treinamento começa leve, com trotes e galopes, confira como acontecem os primeiros saltos.
httpv://www.youtube.com/watch?v=cUkC4iiIO0c
Saltar: toda a preparação do atleta e do cavalo tem uma finalidade.O treinamento diário de quem já tem prática.
httpv://www.youtube.com/watch?v=A_o0tHao_sU
Confira também, a galeria de fotos
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