Marcelo Carneiro defende que a melhor maneira de entender a realidade é pela ficção: “A realidade não nos dá ferramentas para entendê-la”.
A cada mês, um livro é escolhido para ser lido por centenas de alunos de escolas públicas e particulares de Passo Fundo. Esta ação faz parte do projeto interinstitucional Livro do Mês, promovido pela Prefeitura Municipal através da Universidade Popular (UP), da Secretaria de Educação (SME), juntamente com a Universidade de Passo Fundo (UPF). Desde 2006, o projeto vem sendo realizado e justificando ainda mais o título de Capital Nacional da Literatura para a cidade.
Neste ano, o primeiro seminário do Livro do Mês contou com a presença do escritor e jornalista Marcelo Carneiro da Cunha, que veio a Passo Fundo para participar de atividades com alunos do ensino fundamental e também dos cursos de graduação da UPF.
Na noite da segunda-feira (26), Marcelo, em um bate-papo bem informal no auditório do Centro de Educação Tecnológica (CET), falou sobre sua obra Antes que o mundo acabe aos alunos dos cursos de Letras, Publicidade e Jornalismo. O objetivo foi trabalhar os aspectos da obra antecipadamente, para depois trocar informações, opiniões e encontrar respostas para as dúvidas dos leitores.
Antes de começar a falar sobre a obra, Marcelo contou um pouco sobre sua trajetória em meio aos livros. Comentou que gosta mesmo é do contemporâneo – descrição perfeita para o título do livro -, da ausência de isolamento, do diferente. O que lhe interessa são as mudanças dramáticas: “A literatura brasileira tem mais vocação para falar do passado, e o mundo contemporâneo consegue quebrar essa barreira”.
O escritor diz que, para ele, não existe público específico, ele não escreve pensando em quem vai ler. “O que importa é que pessoas leiam, entendam e apreciem”, ressaltou. Ainda diz que muitos escritores, ao seguirem os pedidos das editoras, fazem o que dá dinheiro e são focados nesse universo. Não se preocupam em fazer algo a mais, e completa dizendo que “uma história divertida não pode ser somente divertida, deve ser uma história divertida que transforma a vida de quem lê”.
[stextbox id=”custom” caption=”O livro”]Na obra Antes que o mundo acabe, Cunha conta a história de um pai que deseja reconstruir a relação com seu filho adolescente, de uma forma inusitada, a distância, por meio de cartas e fotos, que mostrem o seu mundo. Narrado por um rapaz de uns 16 anos, com sua linguagem típica, ele nos defronta com situações das mais diversas: além do pai que reaparece do nada, o garoto leva um fora da namorada, tem um amigo acusado de roubo, estuda em uma escola aparentemente injusta. Parece uma grande colcha de retalhos. Como pano de fundo para a narrativa, o autor lança mão de fatos históricos e dados da realidade.Marcelo Carneiro da Cunha é escritor, gaúcho de Porto Alegre, formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Já publicou 16 livros, tendo conquistado diversos prêmios. Escreveu os roteiros dos filmes Batalha naval e de O branco.

ganhou prêmios no 2º Festival Paulínia de Cinema e na 3ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Em entrevista, você disse que “quem mora em Porto Alegre tem a obrigação de escrever livros, fazer filmes. É um carma”. Você é formado em Jornalismo, como foi para esse caminho de escrever livros e até roteiros de filme?
Lendo textos ficcionais ou semificcionais, é possível compreender melhor o passado do que lendo a imprensa. A imprensa tem a função de relatar, mas, quando ela relata, ela raramente explica o fenômeno. Com a literatura se entende a lógica, o “porquê das coisas”. Jornalismo e literatura sempre tiveram uma relação muito próxima. Como não tinha uma escola de literatura no Brasil, o mais próximo disso era o jornalismo. Quando comecei a fazer literatura no cinema, o lugar onde era possível encontrar recursos para isso era no curso de Jornalismo. Todo mundo que queria fazer cinema estava lá. Meus livros são jornalismo. No caso deste livro, ao observar que muitas famílias não são biológicas, estou observando e entrevistando gente o tempo inteiro. Eu ainda acho que o jornalista tem que ser um cara interessado em gente e tem que ter um fascínio no que não é óbvio, no que é novo, nas entrelinhas, não pode ter medo.
Você disse que “o que define a qualidade de uma obra não é o tema, mas a qualidade do ficcionista. A inquietude do ficcionista se transforma em uma obra. Ele vai eleger aleatoriamente os seus temas”. Então, como você elegeu este tema do livro Antes que o mundo acabe? Foi de alguma inquietude sua?
Na verdade, o livro foi encomendado. A editora pediu um livro com fotos para que os seus leitores refletissem sobre as culturas do mundo. Eu queria fazer uma coisa que tivesse um movimento, uma dinâmica. Eu tinha que achar um truque, uma coisa maior. Quando você recebe um desafio, passa a ficar ainda mais atento a tudo que acontece a sua volta. Certo dia conheci um menino que estava num drama, pois não conseguia encontrar o pai dele. Outro dia, fui ver uma mostra de fotos e havia um pai explicando as fotos para o filho. A partir daí já pensei em um milhão de possibilidades. Um filho que não conhece o pai, e a única coisa que os ligam são as fotos, tornam essas fotos muito mais importantes. A partir daí, a história começou a tomar forma.
“O legal é o narrador que impõe limites, convence o leitor que é um menino, uma menina falando, e não um homem de tantos anos”. Como é esse processo de se colocar no papel de um garoto, no caso de “Antes que o mundo acabe”?
A gente precisa começar a ver os outros de outra forma. Temos que entender a lógica do outro, se permitir imaginar como elas pensam. Para mim, esse “exercício” já virou uma questão de natureza e não de trabalho.
Quando e como o livro foi adaptado e virou filme? A ideia partiu de você?
Meus amigos da Casa do Cinema me disseram que haviam lido o livro e achado muito interessante para adaptar em filme. Confiei e disse: vão em frente. Um filme é muito caro e demora muito tempo para fazer. Fui acompanhando de longe. Vi o filme pronto e o melhor foi ver a reação positiva do público.
Quais as maiores diferenças entre o livro e a adaptação feita para o cinema?
A diretora inventou a menina narradora, Maria Clara, irmã do Daniel – que é o narrador no livro. Ela está sempre atenta em tudo que acontece na família. Tudo passa por ela. Ela não entende o que acontece, mas junta todas as informações.
O livro se passaem Porto Alegre. Nofilme, eles optaram por uma cidade pequena e inventada. O ganho, nesse caso, é que os meninos têm que ir embora da cidade para poder estudar, isso fortalece a trama.
O que não tem no livro e tem no filme é a questão linguística do gaúcho. No livro, optei por usar “sua”, “seu”. Já no filme, os personagens falam “teu”, “tua”.
No filme, os três garotos (Daniel, Lucas e Mim) criam um triangulo amoroso, o que não tem no livro. Isso gera uma tensão na história. Tudo no filme é mais complexo. O filme trata mais da moral, no livro, trato mais da ética.
Você participou do encontro com os alunos que leram o seu livro. Como foi a participação deles? Mostraram interesse e curiosidade acerca da trama do livro?
A cidade de Passo Fundo é superorganizada no aspecto leitura. Foi um encontro informado, entre sujeitos, e não entre sujeito – objeto. Isso é muito bom. Acho que o que faltou foi a comparação entre livro e filme.
Conte um pouco do seu trabalho como jornalista.
Tenho duas colunas. Uma no Terra Magazine e uma no Sul 21. São colunas semanais com jornalismo do século XIX, XX. Ali eu exercito a opinião informada, filosofia moral, comentários sobre eventos. Eu uso muito o Twitter como meio de jornalismo, é a minha maior fonte de informação, sigo veículos de comunicação que me dão uma seleção de artigos. Acho que o que eu fazia era ainda muito 1.0, convencional. Estou migrando para uma coisa mais 2.0, mais web, que vai me levar a mudar minha prática de jornalismo. Eu também faço sistemas de comunicação para empresas, ou seja, vou lá e bolo um jeito de fazer a informação chegar até as pessoas. Meu jornalismo é isso: eu exercito nos veículos, criando, e na minha literatura, que é essencialmente jornalística. Acho que sou um jornalista em tempo integral.

