Tão importante e ao mesmo tempo tão complicado: como lidar com a contradição que cerca o ensino de arte nas escolas brasileiras.
O ensino de arte nas escolas brasileiras tornou-se obrigatório a partir de 1971, com a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional, mas essa sempre foi uma questão delicada no país. A falta de profissionais capacitados, de infraestrutura, materiais e até mesmo de interesse por parte de educadores e alunos dificultaram a consolidação dessa disciplina fundamental para o amadurecimento pleno das nossas crianças.
Por aproximadamente quatro décadas, ensinar arte no Brasil foi uma ideia fortemente ligada ao ensino técnico, iniciada com a chegada dos jesuítas, através de processos informais que ensinavam a arte em oficinas de artesãos. O “porém” é que essa prática não ficou restrita ao passado e até hoje muitas escolas ainda carregam essa concepção de ensino. Everson Silva e Clarissa Araújo, da Universidade Federal de Pernambuco, defendem em seu artigo “Tendências e concepções do ensino de arte na educação escolar brasileira” que “o ensino de arte na educação escolar não possui um fim em si mesmo, mas, serve como meio para se alcançar objetivos que não estão relacionados com o ensino de arte propriamente dito.”
Jacqueline Ahlert, professora de artes em uma escola particular de ensino fundamental defende a ideia de que o maior problema das escolas públicas hoje é a falta de especialistas na área. O cargo acaba sendo ocupado por profissionais de outras áreas para cumprir a carga horária. Não bastasse isso, o professor de artes ainda sofre com as reclamações dos outros professores e não consegue espaço para trabalhar.
Por que ensinar arte?
Se é tão difícil ensinar arte nas escolas, por que então manter a disciplina? A Lei de Diretrizes e Bases, que instaurou a obrigatoriedade da matéria nas escolas públicas, defende que “a arte é patrimônio cultural da humanidade e todo o ser humano tem direito ao acesso a esse saber.” Basta ter uma conversa com crinças de uma escola que tem a disciplina como foco para perceber por que é tão importante. O pequeno Natan afirma que nas aulas de artes pode desenhar o que sente e que futuramente poderá se expressar através de meios artísticos. A riqueza dessa interação pode ser percebida quando Natan explica que para ele “arte é estranha, mas é legal.”
Para a professora, toda criança tem propensão a gostar de artes, desde que seja algo desafiador e prazeroso. Cabe ao professor trabalhar o fato de que esta é uma área do conhecimento que permeia todas as outras – “a gente pode, a partir da arte, pensar na história da humanidade, pensar nas técnicas desenvolvidas, mas não só isso, pode pensar no ser humano enquanto ser antropológico, um ser que evolui, que dentro da sua cosmovisão altera muitas coisas dentro dos seus costumes, a partir das representações artísticas de cada cultura e de cada período histórico”.
A criança, por meio da arte, aprende a buscar soluções para seu dia a dia – “não importa qual é o meio, não importa qual é a técnica, o que importa são boas soluções para representar fenômenos, representar sentimentos, a arte como um meio para uma representação poética do cotidiano” – ressalta Jacqueline. A criança que acha que não tem capacidade de fazer alguma coisa é porque nunca recebeu incentivo, nunca teve contato com um pincel ou uma folha de papel.
Não é difícil chegar ao clichê necessário de que “arte é imprescindível”. Afinal, vivemos em uma sociedade de imagens e acabamos consumindo-as em um ato automático. A arte entra no sentido de sensibilizar o indivíduo. O maior ganho acaba sendo no acervo que as crianças constroem como indivíduos, independentemente da profissão que eles escolherem, na leitura poética do mundo que humaniza e isso não se dá somente por meio das artes plásticas, mas das várias artes, da literatura, do cinema, da música; é um trabalho conjunto.

Como incentivar?
Sabe-se que nem todas as crianças têm esse livre acesso à arte, como Natan. O desafio, então é como fazer a ponte de ligação entre a criança e a arte. Como incentivar e até mesmo introduzir as formas artísticas na vida dos pequenos.
Para começar: a arte não pode ser vista como algo exclusivo de uma determinada cultura ou classe social e, antes de qualquer coisa, quem deve ter um posicionamento crítico são os pais. Para Jacqueline, os pais não podem ser consumidores passivos de imagens da cultura de massa. “Não existe essa distância entre as pessoas e a arte, como muitos acreditam que exista.”
A sensibilidade artística de uma criança não precisa ser necessariamente desenvolvida por meio de obras de Van Gogh ou Monet, mas sim através de coisas do dia a dia. “Ser capaz de apreciar um belo filme, um belo pôr do sol, uma bela cena na rua, uma fotografia vai sensibilizando o indivíduo.” Além disso, é claro, é importante ter acesso a bons textos, a bons programas de televisão, boas revistas ou até mesmo ir ao museu. São pequenas ações que não dependem da escola para acontecerem. É fundamental para os pais proporcionar às crianças meios para elas se expressarem, deixar que desenhem e que expressem sua visão do mundo.

