Colecionando Heróis

Possuir figure actions vai além do ato de colecionar: é a lembrança viva de uma época nostálgica

Para muitos, é apenas um passatempo.

Para aqueles que viveram a época, é a lembrança viva de uma geração inteira. Os bonecos de ação colecionáveis, chamados originalmente de figure action, já foram os objetos mais desejados pelas crianças nas décadas de 80 e 90. Hoje há pouco espaço para brinquedos, já que as crianças preferem ficar em computadores e videogames. Mas o que seria uma simples brincadeira de criança acabou virando coisa de adulto. Uma pesquisa rápida em lojas virtuais mostra peças e coleções completas que valem até R$ 17.000,00.

Nos anos 60, o mercado de brinquedos nos Estados Unidos estava saturado de bonecos femininos e de bichos de pelúcia. Para os meninos, brincar era sinônimo de andar de bicicleta, jogar bola na rua e outras atividades. O cenário mudou em 1964, quando a Hasbro lançou a primeira linha de bonecos voltada para o público masculino, os G.I. Joe, com tamanho padrão de 12 polegadas, aproximadamente 30 centímetros de altura. Condor, Torak e outros nomes marcaram uma geração inteira, mas nenhum foi tão importante quanto Falcon – seu rosto estampa até hoje a logo do G.I. Joe. A primeira linha representava os quatros pilares das forças armadas norte-americanas: Action Soldier representando o Exército, Action Sailor, a Marinha, Action Pilot, a Força Aérea e o Action Marine, os Fuzileiros Navais – mais conhecidos como Marines (empresa também é responsável pelos colecionáveis dos Transformers).

No Brasil, a Brinquedos Estrela S/A alugou a franquia e em 1984 trouxe os bonecos com o nome Comandos em Ação, que rapidamente se transformaram nos brinquedos mais venerados do momento. A maioria dos adultos na faixa de 30 a 40 anos teve ou pelo menos quis ter um para brincar em casa. Segundo o site Yo Joe Brasil, entre 1984 e 1995 foram lançados 124 bonecos – 37 exclusivos do país – e 97 veículos. Tal como nas forças armadas, os miniexércitos eram divididos em facções, como as Forças Tigre, Cobra e Oficial.

Brincando na infância
O despachante Tiago Sangalli, de 33 anos, residente em Passo Fundo, conta como iniciou sua coleção de Comandos em Ação. “Na época era uma febre, era o brinquedo que mais fazia sucesso. Mas, como eram bastante caros, era um parto para ganhar um. O primeiro que consegui, que bem me lembro, foi quando minha mãe deu dinheiro e comprei o personagem Arma Pesada em 1984. Depois a gente ia incomodando até ganhar outro, coisa que era muito difícil”, explicou.

A opinião de Sangalli bate exatamente com a da psicóloga e professora da Faculdade de Artes e Comunicação da UPF, Maria Goretti Bittencourt, para quem o ato de colecionar está ligado com a reconstrução ou resgate da história do indivíduo. “Na verdade ele está fazendo um resgate da própria infância, daquilo que tinha um significado importante. A coleção é um repositório de significados que aquele sujeito faz”, disse. O meio tem sua parcela de influência. “Ter uma família que estimule para determinados tipos de interesses culturais vai tornar o indivíduo “colecionador” dessas coisas”, completa.

Detalhe: a professora da FAC também é colecionadora, só que de bruxas. “Pra mim, elas têm um significado histórico que foi deturpado ao longo dos anos e um contexto mítico relacionado com o universo feminino. Quando eu vejo o boneco de uma bruxa, eu vou lá e compro”, afirma.

Saindo das bruxas e voltando para os militares, Sangalli sempre gostou de colecionar brinquedos. Ele também possui figuras do Star Wars, mais de 120 carros da marca Hot Wheels e miniaturas de motos. Suas últimas aquisições foram quatro bonecos do game World of Warcraft. O problema, segundo ele, foi a taxa de importação das miniaturas, que ficou em torno de R$ 160,00. A internet é uma grande aliada para os aficionados por coleções. “Comecei a comprar na internet há uns 10 anos, achava bonecos interessantes no Mercado Livre e ia estocando”, ressaltou. Sua coleção de Comandos em Ação conta com mais de 100 bonecos e cerca de 20 veículos como tanques, aviões e helicópteros.

Raridades
Entre as preciosidades mais valiosas está a réplica de um avião F-14. Não há preço que pague o valor emocional da peça, é o que afirma o despachante. “Eu consegui com um amigo, que tinha guardado o avião em casa ainda na caixa. Por ter sido de um conhecido, tenho que cuidar mais ainda, já que ele também fez a alegria de alguém”, ressalta.

Isso dá ainda mais importância para a coleção de Sangalli, já que diferente dos dias atuais, o transporte e a importação de brinquedos eram extremamente raros nos anos 80 e 90. O mais comum eram empresas adquirem os direitos e produzirem. Isso resultou em uma variedade muito grande de peças, algumas exclusivas de cada país. Algumas versões são encontradas apenas no Brasil, como o Cobra de Aço, uma versão de outro personagem, o Ninja Preto, com o corpo do Raio Laser, mas pintado de amarelo com o símbolo dos Cobras em vermelho e a cabeça cromada. Um exemplar do Cobra de Aço custa em média R$ 350,00 no Mercado Livre.

Paciência e cuidados
Para quem pretende iniciar sua coleção de “Comandos”, é aconselhável ter bastante paciência para procurar os bonecos, já que a quantidade de peças da franquia é bastante escassa. Em 1995, a Hasbro não renovou a concessão com a Estrela, e a produção nacional das miniaturas cessou. Além disso, prepare o bolso: os valores variam de R$ 50,00 até alguns milhares de reais. Peças de reposição, como molas, parafusos e pedaços sobressalentes, também são essenciais no caso de um acidente.

O espaço físico também é importante, já que alguns veículos possuem mais de 50 cm de largura. “É muito legal ver eles colocados em uma estante ou em uma prateleira, todos arrumados, fica muito bonito. Se eu pudesse colecionava todos os bonecos de ação que existem”, diz Sangalli. Certas pessoas montam verdadeiros santuários para guardar seus itens. “Isso acontece porque os objetos têm um significado importante na vida dessas pessoas”, explica Goretti.

Não bastassem o custo e outras dificuldades, as intempéries do tempo são o maior problema para os colecionadores. O ideal é organizar sua coleção em ambientes que não peguem sol, cada peça com seu respectivo acessório. Capacetes e metralhadoras, por exemplo, são partes bem pequenas e fáceis de serem perdidas. Brinquedos nas cores branca, bege e cinza ficam amarelados se não forem bem cuidados, assim como os adesivos. É melhor organizar os bonecos em sacos plásticos especiais e guardá-los dentro de uma caixa, protegendo-os do sol. Os dedos das mãos dos Comandos carecem de mais cuidado ainda, já que são facilmente quebráveis.

Vender a coleção, seja pela quantia que for, é algo que não passa na cabeça de Sangalli. “Não há dinheiro que pague essas lembranças, como essa nave do Star Wars que tenho. A nave é mais velha que eu e está em perfeito estado. Ela me remete àquela época muito boa”, complementa. A questão é maior do que simples miniaturas que ficam em caixas ou estantes em um cômodo. Na verdade, trata-se de pequenos grandes heróis que jamais serão esquecidos por quem viveu esse tempo.

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