Quase um mês após o polêmico discurso do vereador passo-fundense, seguido por manifestações na Câmara e nas redes sociais, pouca coisa mudou
Ao fazer o seu pronunciamento no dia 21 de setembro, o vereador Roque Letti não fazia ideia de que suas palavras transcenderiam as paredes da Câmara de Vereadores de Passo Fundo. E mais: que suas declarações a respeito dos adesivos que levavam a inscrição “Passo Fundo capital dos buracos” teriam grande repercussão nas redes sociais, mobilizando, até o fechamento desta matéria, 4477 membros no aplicativo Causes no Facebook.
Em seu discurso, o vereador criticou os motoristas que adesivaram seus carros. A manifestação se justifica: em razão das obras realizadas, principalmente no bairro Petrópolis, e do alto volume de chuva, as vias urbanas mais parecem campos minados. Os buracos ocuparam o lugar do asfalto, gerando congestionamentos, desvios e indignação nos moradores passo-fundenses. Contudo, Roque Letti parece não compartilhar da mesma opinião – ou não residir na mesma cidade onde vive o resto da população -: ele definiu a manifestação como “uma vergonha”.
Utilizando um vocabulário não muito condizente com seu cargo, o vereador defendeu que a atitude demonstrava desprezo com a cidade. “Isso é um descalabro. Não interessa se tem ou não tem. Tem buraco? Tem! Agora, andar com adesivo à mostra […], mas o que que é isso, tchê?! Será que nós, passo-fundenses, temos que conviver com isso? Isso tinha que ser associação dos calhordas e frustrados! Se não quer, vá embora de Passo Fundo!”, concluiu.
A repercussão na cidade foi inevitável. Na seguinte sessão, em 28 de setembro, o grupo de discussões do Facebook organizou uma manifestação na Câmara de Vereadores, que levou cerca de 350 pessoas para protestar contra as declarações do vereador. Os manifestantes lotaram a Câmara e eram, em sua maioria, jovens, munidos de cartazes, adesivos, narizes de palhaços e apitos. A venda de adesivos, por outro lado, também aumentou consideravelmente naquela semana: as vendas iniciais, que eram de cerca de 30 a 40 adesivos por semana, chegaram a surpreendentes 500 adesivos no dia seguinte ao pronunciamento do vereador.
Responsável pela produção dos adesivos, Edson Tibola diz que os adesivos vêm sendo produzidos há cinco meses. A proposta surgiu de um cliente, que chegou à gráfica com uma fotografia do material e solicitou 100 adesivos. Aos poucos, a ideia foi caindo no gosto popular. “Na sequência, um amigo viu esse adesivo e me procurou, pedindo mais 50. Depois, outro pediu mais 20. Aí, meus amigos começaram a pegar esses adesivos aqui na loja e vender para os amigos, colegas de aula, e assim foi”, explica Tibola.
No entanto, quase um mês depois, como está a situação? O que foi feito para resolver o problema dos buracos que continuam espalhados pela cidade?
Adesivos
Segundo Tibola, nos últimos dias, as vendas de adesivos diminuíram. “Eram vendidos em torno de 30 a 40 adesivos por semana. No dia em que deu o ‘estouro’, durante a tarde, foram vendidos cerca de 200 a 300 adesivos. No dia seguinte, bombou muito mais, sendo vendidos entre 400 e 500 adesivos. Hoje, diminuiu bastante. A cada cinco dias são vendidos cerca de 100 adesivos”, conta. Além de várias pessoas já terem aderido à campanha, muitas acabaram comprando os adesivos em grande quantidade e revendendo, o que torna difícil saber com exatidão o número de vendas. Tibola conta que aconteceu um fato bem isolado: um homem comprou os adesivos na empresa e começou a revender por um preço bem mais elevado. “Nossa ideia, em nenhum momento, foi lucrar com isso. Tanto que, até hoje, o adesivo custa três reais”.
Atualmente, existem cerca de dois mil adesivos nas ruas e grande parte deles foi comprada somente por causa do pronunciamento de Roque Letti. “Antes, o pessoal chegava aqui, comprava um adesivo e ia embora. Hoje, eles compram o adesivo e comentam o caso, tipo: bah, que palhaçada isso aí. Já virou uma polêmica. Quantas pessoas chegam aqui para comprar e dizem: eu nem ia colocar no meu carro, mas só por causa do que esse trouxa falou, eu vou botar o adesivo”.
Pelo menos na compra dos adesivos, os mais indignados com o discurso do vereador são os mais velhos. Edson Tibola conta que, na última sexta-feira, um senhor foi até a loja e, além comprar seis sobre a capital nacional dos buracos, pediu a produção de mais dez adesivos com a inscrição: “Cuidado, desviando dos buracos”. De acordo com ele, essas pessoas não querem apenas comprar, mas conversar, discutir o fato, saber quem mandou fazer ou se ele está sofrendo algum tipo de retaliação. “Muitos querem saber se o motivo é partidário ou se algum partido me procurou. E em nenhum momento isso existiu. Foi uma coisa de gurizada. Tiveram pessoas da política que procuraram a gente, querendo se envolver, saber. Mas nós começamos de uma maneira e vamos terminar da mesma. Não é contra ninguém, contra uma pessoa específica, muito menos contra o próprio Roque Letti. Ele fez um comentário infeliz, mas não é contra ele”, afirma Tibola.
Protesto na Câmara
Já os participantes da manifestação na Câmara de Vereadores continuam motivados. Ronaldo Pires Canabarro, professor de História, defende que a indignação foi a força motriz para o protesto, que contestou a forma como um representante – uma figura de poder – se dirigiu às pessoas que estavam, de forma pacífica, protestando contra um dos problemas da cidade: os buracos. “As pessoas que lá estavam não foram movidas por um ato de política partidária, mas sim de um sentimento. Algo que os vereadores não entenderam. O movimento não tinha representantes legais, ele se deu da noite para o dia, e foi baseado no sentimento de ofensa à honra e ao direito de expressão. O vereador usou expressões que mostram como muitos dos que estão no poder pensam, ‘se você não gosta, sai daqui’, quase como na ditadura. E isso ninguém mais aceita”, explica Canabarro.
Resolução do problema
Do lado oposto, o secretário de obras, Ermindo Simonetti, desviou do assunto polêmico. De forma curta e grossa, explicou que a secretaria não atua em cima dessa polêmica e que mantém o mesmo trabalho desde sempre. “Isso não motivou para a secretaria nenhuma ação diferenciada daquela que nós vínhamos até então, que era o trabalho de recuperação dos principais pontos críticos da cidade”. Segundo Simonetti, a secretaria está se preparando para a entrada do verão, quando será possível fazer um trabalho mais seguro e de resolução, evitando que se desperdicem recursos, como, por exemplo, ao se fazer recapeamentos no inverno – um período inadequado.
Confira o trecho da entrevista em que o secretário de Obras fala sobre as reformas que serão feitas na cidade:
Simonetti afirmou ainda que as manifestações e protestos “não mudaram em nada, nada, a programação da administração”. “Temos nossas metas a atingir e viemos de forma intensa fazendo as recuperações. Entendemos, sim, que a cidade tem uma necessidade de investimento significativo nessa área, haja visto que estamos agora com uma programação acelerada para este ano e, em continuidade, no ano que vem”, conclui o secretário.
[stextbox id=”custom” caption=”Curiosidade:”]O site Buracópoles “surgiu para se tornar um canal onde as pessoas possam expressar as suas manifestações publicamente e quem sabe assim despertar a atenção das prefeituras”. Por meio dele, as pessoas podem enviar fotos e manifestar sua indignação. [/stextbox]
Confira também a reportagem anterior sobre os danos causados aos veículos pelo tráfego em vias esburacadas.
