Dona de um dos mais belos textos jornalísticos da atualidade, a gaúcha Eliane Brum é referência quando falamos de textos introspectivos, que contam a realidade escancarada de sujeitos sem voz na sociedade. A percepção dos acontecimentos visíveis, mas que poucas pessoas enxergam, a simplicidade de seus personagens e a forma marcante como eles protagonizam no enredo nos enchem de esperança em meio a uma sociedade vaidosa, que não abre espaço para sutileza de histórias verdadeiras.
Trabalhando atualmente na revista Época, com passagens tanto pelo Zero Hora como pela produção de documentários, Eliane já conquistou o prêmio Açorianos de Literatura, pela obra Coluna Prestes: o avesso da lenda (1994), em que narra os relatos de uma viagem pelos 25 mil km da Coluna, 70 anos depois do movimento armado, que buscava derrubar as oligarquias da República Velha. O livro causou polêmica por recuperar casos de roubos e estupros contra moradores de pequenas cidades pelas quais a marcha passou.
Eliane trouxe para o seu mundo de pessoas reais a beleza de um texto ficcional. Seu primeiro romance, Uma Duas, editado pela Leya, retrata com maestria a relação nem sempre harmônica e cheia de subjetividades entre uma mãe e uma filha. Na 14ª Jornada Nacional de Literatura, autora da obra (prima) A vida que ninguém vê – compilação de coluna semana que a jornalista tinha em Zero Hora durante o ano de 1999 -, vencedora do prêmio Jabuti de 2007 na categoria melhor livro de reportagem, a “craque das palavras” nos conta um pouco sobre sua rotina jornalística e como lida com o reconhecimento de um dos mais consagrados jornalistas do país.
Nexjor – Eliane, no livro A vida que ninguém vê, você fala das histórias das pessoas que às vezes ficam sem voz na sociedade. Qual o segredo pra achar essas boas histórias?
Eliane Brum – Elas estão em toda a parte. Todo mundo tem uma boa história. Sempre que alguém me diz “Ahh, a minha vida daria um romance”, eu sei que dá. Não acho que a pessoa é chata. Eu acho que dá um romance mesmo. Às vezes eu não tinha nenhuma ideia, eu só sentava na Esquina Democrática, na Rua da Praia em Porto Alegre e esperava pelo primeiro que aparecesse e contasse a história.
Nexjor – Você conversava com muitas pessoas por dia? Como era o seu trabalho ou o seu método de compilação dessas histórias?
Eliane – Eu fazia toda semana uma entrevista, como era uma por semana no jornal. Havia algumas [reportagens] para as quais precisava falar com várias pessoas; outras, era a história de uma pessoa só, mas não é só falar. É também olhar, escutar. Acho que o principal instrumento da gente que é repórter é a escuta, mas não é uma escuta só de audição, é uma escuta de todos os nossos sentidos.
Nexjor – Você acha que tem espaço no jornalismo diário para as histórias que você conta, ou é mais um conteúdo para o fim de semana, como era a sua coluna no Zero Hora?
Eliane – Eu acho que sim. Tenho 23 anos de reportagem e todas elas – ou a maioria delas – são sobre o que eu chamo de “desacontecimentos”. Sobre o que não é considerado tradicionalmente notícia.
Nexjor – Você trabalhou também com o Augusto Nunes, que é um grande companheiro seu no jornalismo. Ele descobriu você no Zero Hora e depois a chamou pra Época. Ele diz que hoje em dia você é considerada um Neymar do jornalismo…
Eliane – Ele exagera.. heh
Nexjor – É uma honra ter um reconhecimento assim até mesmo pela concorrência, já que o Augusto Nunes está na Veja atualmente e diz que você é a melhor repórter do Brasil.
Eliane – O Augusto é um diretor de redação muito ousado. Tive grandes oportunidades com ele e fico muito honrada de ele falar isso de mim, mas é um exagero. Hehe
Por: Afonso Gobbi
