Um poema é um sentimento! Sim, ele só existe porque alguém o sentiu. Pode ser um sentimento de culpa, de ódio, de repudia, de amor, de amizade, enfim qualquer desmembramento do sentimento. O poema é o que existe de mais profundo na alma alheia, é a busca por ouvidos ou apenas olhos… E o leitor? O leitor de um poema é um ouvinte, atento… Um ser conivente, como alguém que sabe o autor do crime e não conta a ninguém, um cúmplice daquelas palavras, daqueles versos.
Por Karina Oliveira e Marcus Vinícius Freitas
No Brasil o campo poético é vasto. Percorremos nomes como Cecília Meireles, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Mário Quintana, Olavo Bilac, os modernistas Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Esses são apenas os mais conhecidos, pois temos ainda os poetas anônimos, os desconhecidos, ou conhecidos deles mesmos, no seu imaginário. Poetas que escrevem porque gostam ou simplesmente para desabafar. A poesia é a forma mais simples e a mais difícil de expressar ou compreender os sentimentos.

Entre outras publicações, Cecília Meireles foi uma grande poetisa, que escreveu sua primeira poesia aos nove anos, estreando aos dezesseis com a obra Espectros (1919). A ela foi concedido o Prêmio de Poesia Olavo Bilac, pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Viagem, em 1939, que resultou de vários debates, colaborando para a alta qualidade de sua poesia. Já em 1965, Cecília também foi agraciada com o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra, concedido pela Academia Brasileira de Letras.
Sua poesia foi traduzida para o espanhol, francês, italiano, inglês, alemão, húngaro, hindu e urdu, além de ser musicada por Alceu Bocchino, Luis Cosme, Letícia Figueiredo, Ênio Freitas, Camargo Guarnieri, Francisco Mingnone, Lamartine Babo, Bacharat, Norman Frazer, Ernest Widma e Fagner.
O crítico Paulo Rónai a definiu assim:
“Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo… A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea.”
Leve, feminina, espírito de mulher. A obra de Cecília Meireles é densamente feminina, é uma leveza de espírito para falar de revoltas, como no livro Romanceiro da Inconfidência, onde ela traz a Inconfidência Mineira e seus heróis. É uma coletânea de poemas escritos em 1953 contando a história de Minas no início da colonização no século XVII até a Inconfidência. Sua obra faz parte da história do Brasil, trazendo fragmentos desta em versos íntimos, delicados como perfume de [A] Rosa.

Bilac foi um jornalista brasileiro, mas antes disso é poeta, foi ocupante da cadeira número 15 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Gonçalves Dias. Como republicano e nacionalista, escreveu o Hino à Bandeira. Era um parnasiano. Movimento essencialmente poético, que se opunha à prosa, que se afastou do sentimentalismo romântico e iniciou a poesia filosófica.
Outro tema abordado por Olavo Bilac é a língua portuguesa. No poema “Língua Portuguesa” ele aborda o histórico da nossa língua. Esta história é construída de quatorze versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos, que formam um soneto, seguindo a rima clássica. O autor refere-se ao fato de a língua portuguesa ter sido a última língua neolatina formada a partir do latim vulgar, falado pelos soldados do Lácio, na Itália.
O poeta Olavo Bilac, além de admirador de sua pátria, era um amante da língua, das raízes culturais do país e evidenciava nas suas obras esse louvor.

Poeta brasileiro conhecido pela originalidade temática e vocabular, pois utiliza em seus versos termos científicos, biológicos e médicos. Além disso, a constante presença da temática da morte em sua obra revela o seu pessimismo diante da vida.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Os versos acima são do poema “Versos Íntimos” e evidenciam esse pessimismo atroz de Augusto dos Anjos.

Com obras traduzidas para o espanhol, alemão, búlgaro e dinamarquês, o poeta segue o estilo modernista de Mário e de Oswald de Andrade. Integrante de Semana da Arte Moderna, também buscou a renovação e a independência artística. Muitos poemas de Drummond foram uma denúncia da opressão que marcou o período da Segunda Grande Guerra. A temática social predomina na obra Sentimento do mundo, 1940 e A rosa do povo, 1945 como obras que não fogem da literatura comprometida com a denúncia da ascensão do nazi-fascismo.
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
No momento histórico em que viveu realizou observações filosóficas sobre o sentido da vida, revelando-se um pessimista, sem motivações para crer em coisas boas. Drummond revive o passado nas poesias buscando-o como antítese para uma realidade presente.

Nascido em Alegrete, o poeta gaúcho cresceu em meio às influências francesas da belle époque. Quintana foi considerado o “poeta das coisas simples”, por seu estilo irônico mas ao mesmo tempo profundo e com técnicas perfeitas. Trabalhou como jornalista por quase toda a sua vida. Traduziu mais de cento e trinta obras da literatura universal, entre elas Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, Mrs Dalloway de Virginia Woolf e Palavras e Sangue, de Giovanni Papini.
“Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas… Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida – a verdadeira – em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira”. E, brincando com a morte disse: “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”.
Da Grécia Antiga ao Chile
William Shakespeare, Dylan Thomas, Charles Baudelaire, Walt Whitman, Jorge Luis Borges, Virgílio, Fernando Pessoa, Edgar Allan Poe, Dante Alighieri, Allen Ginsberg, Vitor Hugo… São tantos os grandes nomes desse gênero da literatura que seriam necessários muitos sonetos para listá-los. Diferente do conto e do romance, cujas estruturas são mais rígidas e definidas, a poesia dá mais liberdade para interpretações tanto para o autor quanto para o leitor. A poesia dá mais margem para a imaginação.
Sem a intenção de escolher o melhor ou o pior, elegemos cinco poetas estrangeiros que você deve conhecer, tanto pelas características literárias quanto pela importância na história.

Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida –
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
Aqui no Brasil, o velho Buk é mais conhecido pelos seus contos e romances. Já em sua terra natal adotada, os Estados Unidos, o escritor de Notas de um velho safado, Hollywood e outros romances era reconhecido como um poeta. Sua obra poética também refletia a vida sofrida que levava: empregos diários e de remuneração baixíssima, os bares nas ruas fétidas e escuras, o violento alcoolismo, a pobreza onipresente e outros problemas. Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém, Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski e O amor é um cão dos diabos são as principais obras e antologias poéticas do Bukowski lançadas no Brasil.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Uma flecha certeira a caminho do coração e uma onda de sentimentos invadindo todos os poros do corpo. Esta é apenas uma maneira de descrever as reações ao ler os sonetos escritos por Pablo Neruda poeta do amor, também conhecido como o “poeta do amor”. Natural da pequena Parral, localizada ao sul de Santiago do Chile, Neruda começou sua carreira diplomática em 1927 sendo nomeado cônsul da Birmânia. Em 1971 ele conquista o prêmio Nobel de Literatura. Cem sonetos de amor, A barcarola, Ode a Stalingrado e Vinte poemas de amor e uma canção desesperada estão entre algumas de suas obras obrigatórias. No cinema, o escritor foi interpretado por Philippe Noiret em O carteiro e o poeta, filme de Michael Redford.

Farto de ver. A visão que se reecontra em toda parte.
Farto de ter. O ruído das cidades, à noite, e ao sol, e sempre.
Farto de saber. As paradas da vida. – Ó Ruídos e Visões!
Partir para afetos e rumores novos.
Nascido em 20 de outubro de 1854 em Charleville, na França, Rimbaud é considerado como um dos maiores poetas visionários que o mundo já viu. Acreditava que um poeta deveria viver sua poesia, e assim fez. Sua carreira na poesia começou muito cedo, finalizando Uma temporada no inferno com apenas 19 anos. Contemporâneo de poetas como Baudelaire, sua poesia descrevia a realidade de uma maneira inovadora, de uma forma quase que sensorial. Além de Uma temporada…, Iluminações é outra obra que merece bastante atenção. Um grande estudioso do poeta prodígio é o escritor norte-americano Henry Miller, que publicou um estudo sobre Rimbaud intitulado A hora dos assassinos.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
O maior poeta português, e também um dos grandes poetas ocidentais, criou a linguagem clássica portuguesa. Luís Vaz de Camões, tal como Homero, descreveu em Os Lusíadas os desbravamentos, as histórias, as navegações e os grandes feitos de Portugal no século XVI. Além da obra já citada, Camões escreveu peças de teatro e poemas líricos como Que me quereis, perpétuas saudades? e Alma minha gentil, que te partiste. Camões partiu da terra no dia 8 de junho de 1580 para entrar em mares nunca antes navegados pelos vivos.

Responde-lhe o Gerénio: É mais que certo,
Nem o feito mudar poderá Jove:
O muro, que fiávamos da frota
Fosse reparo e nosso, está caído;
O incessante conflito às naus se estende;
Nem saberás onde ele é menos acre,
Pois destroço geral perturba os Dânaos;
No éter freme o alarido, e a morte reina.
Se inda há remédio, agora o consultemos.
Combater não vos cumpre assim feridos.
É por causa de obras como Ilíada e Odisséia, alicerces da cultura grega, que hoje existe o termo épico. Um dos principais poetas da Grécia Antiga, Homero descreve a história da Guerra de Tróia em Ilíada e o retorno de Odisseu, um dos heróis da batalha, em Odisséia. Se não fosse por Homero, talvez significativa parte da mitologia grega não estivesse nas páginas da humanidade.
