90 MINUTOS MAIS PRÓXIMO DE CASA

Crônica produzida pelo estagiário Gabriel Rosa e pelo jornalista Augusto Borges.

Às quatro da tarde de uma terça-feira, o futebol parecia apenas uma desculpa. Do lado de fora, Passo Fundo seguia sua rotina habitual. Gente saindo do trabalho, trânsito carregado, buzinas, compromissos. Do lado de dentro do restaurante Afro Teranga, no centro de Passo Fundo, porém, outro relógio marcava o tempo.

As cadeiras eram ocupadas aos poucos. Alguns chegavam vestindo verde, amarelo e vermelho. Outros carregavam apenas esperança. Entre cumprimentos e conversas em wolof – a língua mais falada do Senegal – a expectativa crescia para a estreia da seleção na Copa do Mundo.



O wolof é a língua mais falada do Senegal e também está presente em países vizinhos, como Gâmbia e Mauritânia. Embora o francês seja o idioma oficial senegalês, é o wolof que predomina nas conversas do dia a dia, nas famílias e nas comunidades. Durante a entrevista, Pape Saliou Camara explicou que a língua francesa é ensinada nas escolas, enquanto o wolof é o idioma falado em casa e nas ruas, sendo um dos principais elementos de identidade cultural do povo senegalês.

Na televisão, faltavam poucos minutos para entrarem em campo contra a favorita França. Mas antes mesmo do apito inicial, o motivo do encontro na tarde de terça-feira já estava rolando. Reunida ali em torno de uma tela, a comunidade senegalesa de Passo Fundo transformava um restaurante em território de pertencimento. Passo Fundo se transformou no lar de mais de trinta senegaleses que migram para a cidade desde 2013. Para quem atravessou um oceano e deixou a família no país de origem, construindo uma nova vida no Brasil, assistir a um jogo da seleção nacional nunca é apenas assistir a um jogo. É uma forma de se sentir próximo de casa.

Entre os presentes estava o comerciante Pape Saliou Camara. Enquanto aguardava o início da partida, ele falava sobre seu país com a tranquilidade de quem carrega um planeta todo dentro da memória.

Durante a entrevista feita no intervalo do jogo, Pape tentou explicar uma palavra que aparece com frequência quando se fala do Senegal: teranga.

Uma expressão que segundo o próprio, é difícil de traduzir literalmente. Mais do que uma palavra, teranga é uma ideia. Senegal é conhecido justamente por ser um lugar aberto ao mundo. Um país que recebe pessoas, culturas e histórias diferentes. Um país onde o acolhimento faz parte da identidade nacional, o que Pape cita falando de uma certa semelhança com o Brasil. E talvez por isso a cena daquela tarde fizesse tanto sentido.

Havia algo familiar na forma como os senegaleses recebiam cada novo visitante. Ninguém parecia estrangeiro. Nem mesmo nós, os jornalistas.

Em poucos minutos, o ambiente se transformava numa roda de conversa. O futebol surgia, desaparecia e retornava ao assunto principal.

Falava-se sobre o Senegal. Sobre o Brasil. Sobre a vida. Sobre saudade. Sobre futuro. E sobre aquilo que se perde e se mantém quando alguém decide recomeçar em outro continente.

A atenção nunca estava apenas no placar. Cada lance carregava significados que ultrapassavam o gramado. A França, afinal, ocupa um lugar importante na história senegalesa.

Durante décadas, o Senegal esteve sob domínio francês. A independência veio apenas em 1960. Ainda hoje, a influência da antiga metrópole permanece em diferentes aspectos da sociedade, especialmente na língua e na educação, como explica Pape.

Enquanto explicava essa relação histórica, o jogo seguia seu curso. Os senegaleses presentes torciam pelo Senegal da mesma forma que qualquer brasileiro torceria pela sua Seleção. Porque a Copa do Mundo cria esse fenômeno raro.

Durante noventa minutos, milhões de pessoas espalhadas pelo planeta voltam a olhar para o mesmo símbolo. Pape explica que, sempre que a seleção entra em campo, a comunidade procura se organizar para assistir aos jogos reunida.

É uma espécie de ritual. Uma reunião coletiva. Uma pausa na rotina. Uma oportunidade de reencontro.

O compromisso é tão importante que muitos precisam reorganizar horários de trabalho e compromissos pessoais. E nem sempre é fácil. Mas vale a pena. Porque, durante algumas horas, a distância desaparece.

Talvez nenhuma outra frase explique tão bem o que acontecia naquele restaurante. A televisão transmitia uma partida de futebol. Mas os presentes assistiam a algo maior. Assistiam à possibilidade de estar perto daqueles que estão longe.

Conversas em português se misturavam ao wolof. Alguns acompanhavam o jogo em silêncio. Outros, comentavam cada jogada. E alguns até aproveitavam o evento para moldar a identidade das futuras gerações.

O ambiente lembrava qualquer reunião familiar, com homens, crianças e mulheres. Porque era exatamente isso. Uma família ampliada pela imigração.

Para Pape, o mundo atual é um espaço de encontros. Um lugar onde identidades não precisam se excluir. Podem coexistir. Dialogar. Podem se complementar. A mesma lógica aparece quando fala sobre atletas como Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé, jogadores nascidos na França, mas com raízes africanas. Trajetórias revelam como as fronteiras culturais se tornaram mais complexas. E mais humanas. A identidade não precisa ser uma escolha entre um lugar e outro. Ela pode ser os dois. Ao mesmo tempo. E essa percepção também ajuda a entender a relação que muitos senegaleses mantêm com o Brasil.

Eles não deixaram de ser senegaleses. Mas também passaram a criar vínculos com a cidade que os acolheu. Com os amigos que fizeram. Como os filhos, como o de Pape, que nasceu aqui. Com a rotina construída longe da terra natal.

O resultado da partida importava. Claro que importava. Era Copa do Mundo. Mas naquele dia, parecia secundário. O verdadeiro acontecimento estava nas mesas ocupadas. Nas conversas. Nos abraços. Na alegria compartilhada no ambiente.

Quando o jogo terminou, a distância entre Passo Fundo e Dakar continuava exatamente a mesma. Mas algo havia mudado.

Por algumas horas, pessoas que deixaram o Senegal para construir uma vida no Brasil conseguiram encurtar esse caminho. Através da língua, da comida, das memórias e da bola.

A Copa do Mundo serviu apenas como ponte. O destino final era outro. E, naquela tarde, ela coube inteira dentro de um restaurante em Passo Fundo.

Fotos: Augusto Borges e Gabriel Rosa / Nexjor

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