REPORTAGEM MULTIMÍDIA ● PASSO FUNDO: RIO E CIDADE

Você já parou para pensar que antes mesmo da cidade, o Rio Passo Fundo já estava alí? Para os indígenas era um marco geográfico, mas também fonte de vida. E nós, como enxergamos o rio, e que rio esse olhar vai deixar para as próximas gerações?

Você deve saber que o nome Passo Fundo vem do rio, certo? Mas você  já pensou sobre o que esse rio significa pra cidade? Este é o assunto desta reportagem e da websérie de mesmo nome produzida pela turma dos formandos do jornalismo/UPF.  Tudo começou na disciplina de Jornalismo Audiovisual Multiplataformas e terminou na disciplina de Laboratório de Convergência IV – Projeto Transmídia, que como a maioria das disciplinas neste semestre abordaram a temática do meio ambiente, como parte do projeto desenvolvido pelo curso e vencedor do edital Práticas Pedagógicas Inovadoras. A temática foi inspirada na COP 30, que aconteceu neste mês de novembro em Belém. Além da websérie, o tema também foi trabalhado em eventos, como o Making Of, uma Exposição Fotográfica, marcada para dezembro, no Shopping Passo Fundo e o lançamento de um livro com artigos acadêmicos sobre jornalismo e sustentabilidade.

Turma 2022/2025 do Jornalismo UPF, responsável por produzir todos os conteúdos.

O primeiro fruto deste trabalho foi o episódio 71 do Escadaria, podcast do curso de jornalismo produzido pelo Núcleo Experimental de Jornalismo. Neste episódio, os alunos que produziram a websérie foram entrevistados juntamente com as professoras Fabiana Beltrami e Nadja Hartmann. No trecho abaixo, você pode ouvir como a ideia de uma websérie sobre o rio Passo Fundo surgiu, por meio do relato da professora Fabiana.

Professora Fabiana Beltrami.

E se você quer saber mais sobre essa produção multimídia, escute o  episódio do Escadaria, já disponível no Spotify:

ORIGEM

Antes da cidade, havia o rio, correndo livre e criando caminhos. Hoje há pontes, dejetos, concretos e milhares de histórias que se entrelaçam com ele, mas que talvez não o reconheçam como seu vizinho. A história de como o rio passou de criar os caminhos a ser contido pelos caminhos criados pelos homens é o assunto do nosso primeiro episódio da websérie.(embedar o link do youtube do episódio) O vice-presidente do Grupo Ecológico Sentinela dos Pampa, Paulo Fernando Cornélio conta, no vídeo abaixo, como era no passado a relação dos moradores da região com o rio.

Antes mesmo de se chamar Passo Fundo, o rio foi batizado de muitas formas pelos primeiros habitantes, os povos indígenas, que viviam, e ainda vivem, em harmonia com a natureza e reconheciam no rio uma presença sagrada, fonte de vida e conexão. Dentre esses nomes está Goio-En, expressão em tupi-guarani que significa “Passo Fundo”, fazendo referência à sua característica de ponto de travessia funda e originando o nome que a cidade mantém até hoje. No trecho abaixo, o vice-presidente do GESP fala mais sobre a origem desse nome.

A Bacia Hidrográfica do Rio Passo Fundo

O Rio Grande do Sul tem três grandes regiões hidrográficas: a do rio Uruguai que coincide com a bacia nacional do Uruguai, a do Guaíba e a região do litoral, que coincidem com a bacia nacional do Atlântico Sudeste. Ainda há as subdivisões das Regiões Hidrográficas do Estado do Rio Grande do Sul em 25 Bacias Hidrográficas: A Bacia Hidrográfica do Rio Passo Fundo, que nasce na Serra Geral e segue seu curso até desaguar no Uruguai faz parte da grande Região Hidrográfica da Bacia do Rio Uruguai, que tem uma área de 4.859 km².

Regiões e bacias hidrográficas do Rio Grande do Sul, mapa aproximado da bacia do Rio Passo Fundo e nascente do rio. Fonte: Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura Rio Grande do Sul.

Mais do que um nome, “Passo Fundo” guarda uma história. O passo é um lugar de travessia, encontro e passagem. E foi por meio dele que a cidade começou a existir. Mas, o tempo passou e a cidade cresceu. As margens se transformaram em ruas, as águas foram escondidas pela construção, deixando de fazer parte da paisagem. Mas o rio nunca deixou de correr. Mesmo oculto, ele viu o progresso, a urbanização e a mudança. O rio Passo Fundo é mais do que parte da paisagem: é origem. Daqui, nascem cinco bacias hidrográficas que abastecem quase 300 municípios gaúchos. Ainda assim, o rio segue esquecido pela maior parte da população, que raramente pensa sobre sua importância e não percebe que é preciso preservá-lo. No vídeo abaixo você pode conferir o relato de Flávia Biondo, bióloga e voluntária do grupo ecológico, sobre a relação atual da população da cidade com o rio.

O GESP

Ninguém é dono do Rio Passo Fundo, porém todos que precisam dele são responsáveis. Mas  existe uma instituição que zela e luta para que ele se mantenha protegido e vivo. O GESP. O Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas foi criado em 1983, e tem como seus principais objetivos proteger o meio ambiente e o patrimônio histórico-cultural de Passo Fundo, como o Rio Passo Fundo, que foi pauta do grupo diversas vezes ao longo da sua história. No  segundo episódio a websérie “Passo Fundo: rio e cidade” foi apresentado a atuação do GESP em Passo Fundo e sua preocupação e trabalho para com o Rio que dá nome ao município.

Em 1983, o Gesp foi criado com o objetivo de atuar na educação ambiental e promoção de ações de defesa da fauna e da flora de Passo Fundo, o que acontece até os dias de hoje. Seus membros, todos voluntários, lutam pela preservação do meio ambiente. A ONG atua na educação ambiental, principalmente em escolas, promovendo eventos, palestras e oficinas. Além de realizar projetos em parceria com organizações governamentais e não governamentais, mas,  principalmente representando a comunidade denunciando problemas com o meio ambiente e seu patrimônio histórico-cultural.

A representatividade do Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas no zelo com o Rio Passo Fundo se enquadra duplamente nessa última frente do grupo, de denúncia, pois o rio, além de fazer parte do meio ambiente local, também é um patrimônio histórico cultural da cidade. Isso porque Passo Fundo, como outras importantes cidades do mundo, se desenvolveu ao longo desse rio, o utilizando como recurso econômico, e batizado com seu nome.

Segundo Flávia, mesmo com a sua importância tão clara, boa parte da população não valoriza esse bem e só o vê como um recurso para ser usado, nem chegando a pensar que para continuar a usá-lo é necessário que ele seja preservado. Confira mais da opinião da bióloga na entrevista abaixo.

Essa situação não é única de Passo Fundo, diversas grandes cidades nasceram junto a grandes rios. Mas com o crescimento dessas cidades, principalmente com a revolução industrial, a ligação com esses rios se tornaram cada vez mais exploratórias e não de cuidado. Indígenas, tropeiros, viajantes, estradas de ferro, asfalto, carros, ônibus, caminhões, casas, edifícios, pessoas, negócios. Todos eles passaram e passam pelo caminho do rio Passo Fundo, acompanhado o crescimento da cidade, que de certa instância é de forma desordenada e ordenada. No próximo trecho de sua entrevista, Paulo Fernando Cornélio fala de como isso vem afetando o rio Passo Fundo.

A cidade tem um Rio? Ou é o Rio que tem uma cidade? Questionamentos como esse fazem o GESP continuar sua trajetória de resistência pelo meio ambiente há mais de 40 anos.  Agora o grupo vê uma necessidade de atualização e expansão dessa pauta.

As leis de regulamentação

A Lei Nº 12.651 de 2012 é a principal regra para proteger a vegetação nativa e as Áreas De Preservação Permanente, as chamadas APPS, que são muito importantes para cuidar das águas. Esse é o assunto do terceiro e penúltimo episódio da websérie. (embedar link do episodio aqui)

Segundo o Código Florestal, uma área é considerada de preservação permanente pela lei, cobertas ou não por vegetação nativa, quando tem as funções de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade e a fauna e flora, além de proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas.

Assim são áreas de preservação permanente as florestas e outras formas de vegetação natural que estejam situadas ao longo dos rios. Qualquer alteração nessas áreas deve ser autorizada previamente e só pode acontecer em quando for necessária à execução de obras e projetos de utilidade pública ou de interesse social.

Nos últimos anos, essa lei foi atualizada e ganhou novas regras que ajudam na gestão da Bacia Hidrográfica dos municípios. A principal mudança aconteceu com a Lei Federal Nº 14.285 de 2021, que mudou as regras sobre as APPS em áreas urbanas já construídas. Agora, os planos diretores e as leis das próprias cidades podem definir o tamanho dessas áreas, levando em conta a estrutura que já existe, como drenagem de esgoto e abastecimento de água. Essa mudança busca equilibrar o crescimento das cidades com a proteção do meio ambiente.

Além disso, o Superior Tribunal de Justiça tem lembrado em suas decisões que mesmo os rios canalizados nas cidades precisam respeitar as faixas de proteção do Código Florestal para cuidar das margens e evitar problemas como enchentes e poluição. Outras leis também ajudam na proteção da água, como o novo Marco Legal do Saneamento Básico que quer levar água limpa e esgoto para todos até 2033, e a Lei do Pagamento por Serviços Ambientais que paga quem ajuda a proteger as nascentes e matas perto dos rios. Essas leis, junto com outras mais antigas como a Política Nacional De Recursos Hídricos e a Política Nacional Do Meio Ambiente, formam um conjunto que garante o uso responsável da água e a proteção da natureza, ajudando a manter o equilíbrio entre o desenvolvimento e a conservação destas bacias. A partir da legislação e das reivindicações da população, a prefeitura de Passo Fundo tem dois projetos muito importantes para manter o rio Passo Fundo limpo. As barreiras de contenção que em três pontos, já recolheram de janeiro a agosto de 2025, aproximadamente 3.360Kg de resíduos, segundo a prefeitura. E os containers para coleta de resíduos próximo às margens dos rios, para evitar que o lixo seja jogado em suas águas. Essas ações ajudam muito, mas não são suficientes. É necessário mais e isso só vai acontecer quando a população e o poder público entenderem a importância desse rio para a sociedade passofundense, tanto como recurso como patrimônio.

Containers próximos à margem do rio ao lado da aldeia Goj-Jur, a frente na outra margem, instalações do Bourbon Shopping. Foto: Estefane Worst

O futuro

Para finalizar, a websérie no seu quarto e último episódio (embedar link do episódio) produzimos um conteudo visando um publico diferente, dessa vez fallamos com as crianças, já que elas que vão herdar o dever de proteger o rio Passo Fundo no futuro. Então convidamos os alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Escola do Hoje, que fica localizada no prédio B6 da UPF,  a se perguntarem o que eles sabem sobre o Rio Passo Fundo e o que eles querem saber sobre ele? Dentre as perguntas dos representantes das próximas gerações que vão conviver com o nosso rio Passo Fundo, estão: Porque as pessoas poluem tanto o rio? Por quais cidades o rio Passo Fundo passa? E qual a importância do rio Passo Fundo para o abastecimento de água da cidade? As respostas vieram dos membros do GESP,  especialistas no assunto. E resultaram no vídeo abaixo:

video

As perguntas das crianças são como a voz do nosso futuro. O Rio Passo Fundo é a vida que corre pela nossa cidade, e eu e você precisamos ser seus guardiões para que elas possam herdar um rio melhor. Cuidar do rio é cuidar da nossa água, da nossa natureza, da nossa própria vida e do futuro dessas crianças. Juntos, por elas devemos ser a voz do Rio Passo Fundo agora!

Assim foi finalizada a websérie intitulada Passo Fundo: rio e cidade, olhando para o futuro. Como será a relação da geração dessas crianças com o rio Passo Fundo? Esperamos que ela seja melhor do que a da atual, mas para isso acontecer é preciso que a mudança comece hoje, dentro de cada um de nós que usufrui desse rio. 

Mas a nossa reflexão ainda não acabou, o aluno Fernando Bier produziu uma crônica para o site do Nexjor, convidando todos os leitores a ver e ouvir o rio Passo Fundo junto com ele.  Recomendamos ler todo o texto, mas antes de sair dessa página você pode dar uma espiadinha abaixo:

No mapa, ele aparece como um traço azul, com vários tracinhos ao redor. No dia a dia da cidade, é mais que isso, é um vizinho antigo, coluna vertebral de memórias do passado. O Rio Passo Fundo é o primeiro morador da nossa região.

O rio, com sua constância de velho sábio, continua. Amanhã cedo, ele estará de pé antes do movimento urbano, no mesmo rumo de sempre. E nós, que o demos holofote por um tempo, seguiremos com a certeza de que o trabalho ainda não terminou. Porque o último episódio não encerra a conversa. Temos que continuar ouvindo… e vendo.

– Fernando Bier
Fernando Bier, autor da crônica.

Assim finalizamos também está reportagem multimídia sabendo que o nosso trabalho não acabou por aqui, na verdade ele está só começando para turma de formandos do jornalismo UPF, que agora leva esse olhar diferenciado do rio Passo Fundo consigo para sempre. Esperamos que você nosso leitor e espectador sinta o mesmo e passe a ver o rio não como um recurso a ser explorado mas como um patrimônio da nossa região.

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