Os discípulos da natureza

Tudo o que enterramos ainda respira.

No laboratório de compostagem de José Teixeira Belém, em Passo Fundo, não há cheiro de lixo. Há sacos cheios de restos de feira, esterco de cavalo, cascas de fruta e folhas trituradas,  mas nenhum odor de decomposição. O que poderia feder, aqui cheira a terra do mato. Aos 76 anos, o homem que se formou em teologia, mas se considera discípulo da natureza, dedica os dias a provar uma tese simples: “a matéria-prima do problema é a mesma da solução”.

Enquanto o município de Passo Fundo paga para enterrar cerca de 185 toneladas de resíduos por dia,  60% deles orgânicos,  Belém transforma o que sobra das fruteiras e restaurantes em adubo fértil. “Nós estamos pagando para enterrar dinheiro”, ele diz, calculando em voz alta que Passo Fundo perde cerca de 36 milhões de reais por mês ao mandar para o aterro aquilo que poderia virar fertilizante. 

E não é pouco. São mais de 185 toneladas por dia que tiram o sono de José.

Segundo o coordenador do programa cidade limpa, Luiz Scheis, o município paga pouco mais de R$50 por tonelada de resíduos “descartáveis”. Um gasto de mais de 9,2 mil reais diários.  Faça as contas: são 5.550 toneladas em um mês, quase 280 mil reais. Valor que poderia contratar 28 médicos para a atenção básica ou quase 60 professores para a educação infantil. 

Compostagem em números

Não é pouco o que se produz de resíduo orgânico diariamente. As 110 toneladas equivalem a uma montanha de 110 HB20 empilhadas. Dia após dia.

O transporte é de luxo: nas limousines verdes a viagem, de 63 km até o aterro sanitário localizado em Victor Graeff, custa aos cofres públicos quase 168 mil reais.

A ironia é que essa montanha de resíduos que Passo Fundo paga – e não paga pouco – é o sustento mensal de José. O dinheirinho suado que tira trabalhando sozinho aos 76 anos.

Cada tonelada de lixo trabalhada é vendida a 600 reais reais. Assim, em um mundo ideal, se todo o lixo orgânico do município fosse trabalhado, Passo Fundo teria um lucro bruto de mais de três milhões de reais por mês. No cálculo total, esse sistema injetaria 3.497.199,30 mensais na economia Passofundense, além de criar empregos e fonte de renda para a cidade. 

Mas, e para além do bolso?  

Agora é hora de entender a lógica do problema, o famoso “por que isso ainda acontece?“

José tem paciência para explicar. De fala mansa, e entre mudas de repolho recém plantadas, diz que  a cidade desaprendeu a devolver. “Hoje só sabe consumir e enterrar.” E, nesse ciclo sem fim, os efeitos negativos de tentar desaparecer com o lixo já são velhos conhecidos, mas sempre é bom reforçar. Em vez de fertilizar o solo, a matéria orgânica descartada pelas cidades apodrece em aterros, como acontece aqui. Por serem enterrados, os compostos são isolados do ar. Esse processo é anaeróbico e gera gases como metano e dióxido de carbono – gases de efeito estufa que contribuem para o aquecimento global. 

Além disso, a decomposição produz o chorume, líquido escuro com odor forte, altamente poluente que é absorvido pelo solo, e por vezes pode chegar aos lençóis freáticos. Dessa forma nosso chão, nosso ar e nossas águas são contaminadas. Atualizando? O chão, o ar e as águas de Passo Fundo… também.  

 Assim, o que deveria fechar o ciclo da vida vira mais um elo do colapso ambiental iminente encarado pela nossa sociedade, que já acumula problemas demais.  

A solução é simples, e o José não cansa de dar a letra: o lixo orgânico que polui é o mesmo que poderia purificar. Belém nos ensina que folhas e restos servem,  na realidade, para fertilizar o solo e limpar a água e o ar. 

Cada casca de fruta, cada resto de comida deixada no prato, vira parte de um problema que os municípios empurram para longe em grandes caminhões de lixo verdes ou azuis – a cor aqui pouco importa. O que pode ser possibilidade de renda, fertilidade e equilíbrio ambiental são soterrados até morrerem sem ar.

Cultura da limpeza

Após muito ser questionado, José me confidencia sua tese, quase aos sussurros… “Cultura”. Esse é o Judas apontado pelo pesquisador. 

José frisa que o que falta é o conhecimento da importância do ciclo da matéria orgânica na vida – apesar de todo o esforço das professoras do fundamental I. Todo resíduo, o que não é mais útil para mim ou para você, é taxado como lixo e descartado para o mais longe possível dos olhos.  Assim, é muito mais fácil ter o lixo em um caminhão do que manter uma composteira no pátio de casa. O que os olhos não veem, o coração não sente. 

Independente de ter ou não religião, José diz com orgulho e peito estufado que “a minha fé está na vida que me cerca”. Entre todas as falas impactantes, ditas em meio a canteiros e estações de compostagem ao ar livre, uma citação fez com que a conversa contínua desse uma pausa para reflexão. 

“O meu povo é destruído por falta de conhecimento” Oséias 4:6

“Para quem cresceu em meio ao mato é fácil o diagnóstico, vivemos em uma cultura da limpeza”. Culturalmente não gostamos de ver o que consideramos como sujo.

Confira o especial Lixo – Um Problema de Todos…, produzido pelos alunos do Nível VI do curso de Jornalismo da UPF. Clique e navegue:

EXPEDIENTE:
Orientação: Dra. Bibiana de Paula Friderichs;
Disciplina: Jornalismo, Cibercultura e Tecnologias Digitais;
Acadêmicos: Catherine Mistura da Silva, Ederson Castro de Ávila, Felipe Matiasso, Jemily Dos Santos Rodrigues, Jéssica Gomes da Silva, Julia Berghetti Xavier, Kételyn Gocks Moraes, Larissa Karlinski, Luis Felipe Camargo Rodrigues e Luiza Joana Wagner;
Diagramação: Luis Felipe Camargo e Júlia Berghetti Xavier.

FONTES:
Sites: Prefeitura de Passo Fundo;
Entrevista: José Teixeira Belém, proprietario do Laborátorio de Compostagem de Passo Fundo Luiz Scheiss, coordenador do programa Cidade Limpa
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