Nem sempre a literatura chega quando a gente procura. Às vezes, ela nos encontra por acaso — num livro esquecido na estante de um parente, numa citação que aparece nas redes sociais ou em um trecho lido por alguém. O encontro com as palavras pode acontecer de modo silencioso, mas costuma deixar marcas profundas.
Há quem se apaixone por ler ainda na infância, guiados pelas histórias que despertam a imaginação. Outros só descobrem o prazer da leitura mais tarde, quando percebem que os livros também acolhem, explicam e transformam. Ler é, no fundo, uma forma de se conectar — com o mundo, com o outro e com a própria história.
A Feira do Livro representa um grande encontro da população com os livros. Apesar de se tratar de uma experiência coletiva, com centenas de pessoas visitando os estandes e apreciando as estrelas da feira nas vitrines, o encontro é individual e muito particular. Enquanto visitava a feira, o prefeito de Passo Fundo, Pedro Almeida, falou sobre como a literatura chegou em sua vida. “Eu podia dizer que, como aluno, eu lembro dos primeiros livros que a gente folhava. Como literatura mesmo, foi com a jornada que foi muito impactante para mim participar do processo de criação dos temas. Foi um momento bem especial da minha vida”, lembrou. Pode ser uma capa, uma palavra, um título, uma cor. Muitas vezes não é um amor à primeira vista. Temos que manusear, conhecer, ler a orelha, o prefácio, para aí sim, a sintonia acontecer. Porém, assim como não esquecemos de como conhecemos os melhores amigos, também não esquecemos de como foi o nosso primeiro encontro com a literatura. Enquanto visitava os estandes da Feira do Livro, que aconteceu de 1º de novembro a 9 de novembro, a responsável pela Biblioteca Municipal de Passo Fundo, Vanessa Hickman lembrou de como esse encontro aconteceu. “Quando eu ia no pátio da escola, numa sala tinha uma professora que contava história para os alunos, e eu ficava espiando pela porta. Um dia ela me convidou para entrar e sentar no meio da roda. E aí cada vez que eu ia lá, ela sempre me colocava dentro da roda das histórias que ela contava.” Confira os áudios:
A literatura como espelho e refúgio
Cada pessoa lê por um motivo diferente: para compreender o que sente, para descansar da rotina ou simplesmente para viajar sem sair do lugar. Os livros oferecem um tipo de abrigo raro — neles, o tempo desacelera, e a mente pode respirar.O jornalista André Vieira contou sobre como admirava a biblioteca quando criança. “Eu morava dentro de uma escola. E o espaço que eu sempre gostei e sempre admirei era a biblioteca. Porque lá tinham muitos livros e, obviamente, na minha cabeça de criança, a gente não tem muitos filtros elaborados, então eu lia de tudo.”
Em meio ao excesso de informações e à pressa cotidiana, ler é quase um ato de resistência. É escolher o silêncio em vez do ruído. É permitir que outras vozes entrem na nossa cabeça e, por um momento, nos façam ver o mundo de um ângulo novo.
A literatura nos ensina sobre empatia sem precisar de discursos: ao acompanhar as dores e alegrias de personagens, passamos a compreender melhor as nossas próprias. Por isso, quem lê não sai ileso. Sempre levamos algo — uma frase, uma sensação, uma ideia — que muda discretamente o modo como olhamos a vida. A educadora Solange Brezolin fez questão de compartilhar esse encontro com seus alunos. “Eu vim de uma casa onde todos liam. Então eu tenho um privilégio e esse privilégio eu quis compartilhar com os meus alunos, porque era uma oportunidade que eu sabia que era única. O livro, o acesso ao livro era muito difícil.” Confira os depoimentos:
As formas que a literatura assume hoje
Com o tempo, o ato de ler se reinventou. As redes sociais criaram uma nova geração de leitores que compartilham descobertas, escrevem resenhas e transformam livros em conversas coletivas. A literatura, antes restrita às páginas impressas, agora se espalha em formatos diversos — e isso é parte da sua força. O autor Paulinho Cantalê conta sobre como transformou a literatura em uma maneira de contar histórias com canções. “A literatura chegou para mim pela contação de história, que eu escutava quando eu era criança. Mas foi com o processo de ser educador em sala de aula, que tive contato com os livros, com as histórias e com a composição das canções, que eu comecei a relacionar a questão da música com o livro.” Escute o depoimento:
Audiobooks, e-books, clubes de leitura virtuais, vídeos curtos comentando histórias: todos são caminhos diferentes que levam ao mesmo destino. O essencial permanece o mesmo — o encontro entre alguém que escreve e alguém disposto a se deixar tocar por palavras.
Mesmo com toda a tecnologia, a leitura ainda carrega um poder quase antigo: o de nos fazer sentir menos sozinhos. Em cada página, há a lembrança de que outros já passaram por dúvidas, medos e desejos parecidos com os nossos.
A literatura também se transforma junto com quem lê. Ela reflete as mudanças do mundo, mas continua oferecendo o mesmo conforto — o de saber que há sempre algo novo a descobrir, mesmo nas histórias mais antigas.

O que fica depois da leitura
Ler é um gesto simples, mas com efeitos profundos. Um livro pode não mudar o mundo inteiro — mas pode mudar o mundo de alguém. E é nessa pequena transformação que a literatura se mostra necessária. O vice-presidente do Instituto Histórico de Passo Fundo (IHPF) e editor executivo da Editora Acervus, Djiovan Carvalho falou sobre como se tornou um leitor e como isso impactou a sua própria história. “Minha família tinha livros em casa e tudo mais, mas quando eu estava no sétimo ano, influenciado por uma professora de português, literatura, eu tive que fazer um trabalho sobre o livro Éramos Seis, da Maria José Dupré. A partir de então eu me tornei um leitor e passei a constituir também minha própria biblioteca.” Ouça o depoimento:
As histórias, afinal, continuam vivas porque se adaptam, atravessam gerações e encontram novos leitores. E, quando menos esperamos, elas nos escolhem de novo — seja em uma livraria, em um post, ou naquele velho livro que a gente decide finalmente abrir.
A literatura é feita de encontros: entre quem escreve, quem lê e quem se descobre nas palavras. Cada leitura é uma nova chance de se reinventar. Porque, no fim, as histórias que lemos dizem muito sobre quem somos — e sobre quem ainda podemos ser.
Porque a literatura não exige muito. Só que a gente se permita escutá-la.

