Durante o dia do orgulho LGBTQIA+, um tema ainda muito pouco discutido no Brasil, é a base da luta por uma comunidade inteira: a cultura Drag!
Reportagem por Alexandre Marcheze
Durante séculos, a arte drag foi um movimento artístico que desafiava a sociedade. Toda extravagância e glamour nessa cultura mostra as pessoas que se transformam em uma outra persona, que além de se vestirem de acordo com outro gênero, também vestem uma armadura.

Jonas Vidal Jr, tem 29 anos, natural de Passo Fundo, é Designer de Moda formado pela Universidade de Passo Fundo (UPF), Estilista e atua como Drag Queen há seis anos. Para ele, a arte drag surgiu da necessidade de explorar a moda como uma expressão artística. A arte drag é uma condição artística, onde as experiências e a vivência exploram e criam oportunidades, não só na libertação da imagem, mas também do seu eu artístico. Influenciado desde suas avós e tias até os grandes ícones da moda, Jonas viu também na maquiagem inúmeras formas de se expressar através da arte. “No início de 2017, a maquiagem nasceu em mim da necessidade em saber o básico para me montar: sou um Artista Visual, Drag, que ama trazer à tona em si mesmo os mais variáveis efeitos em forma de arte”, conta.
Jonas já participou de inúmeros concursos, em nível estadual, nacional e internacional, ficando entre os melhores alunos de todas as formações de moda do Rio Grande do Sul, no prêmio Next Generation no Donna Fashion Iguatemi. Também foi duas vezes vice-campeão de concursos de maquiagem pelo Brasil, além de destaque em concursos voltados a arte-drag, como finalista do “The Queen’s”, o maior concurso de drag queens do estado. Esses concursos representam muito mais do que a competição, sendo a porta de entrada de muito dos consumidores da arte drag, e também da disseminação e contato com outras drag queens e reconhecimento por parte da comunidade
Conversamos com o Jonas durante o seu processo de “montação”. Entre pincéis, sombras e delineadores, ele falou sobre a sua carreira, suas inspirações e principalmente como a arte drag, é fruto de superações e de resistência.
A HISTÓRIA POR DE TRÁS DA ARTE
Desde o surgimento do teatro na Grécia Antiga, a necessidade da representação feminina nas apresentações performáticas, onde as mulheres eram proibidas de se apresentarem, fez com que homens se vestissem com roupas femininas. Durante a Inglaterra Elisabetana do século XVI, a vestimenta era ligada ao status e ao gênero. As interpretações das obras de Shakespeare contavam com homens que se transformavam em personagens femininos como Julieta e Ofélia.
Foi assim que no século XVIII, a primeira ligação entre a arte drag e a homossexualidade aconteceu, provocando uma onda repressiva e de marginalização de pessoas que eram adeptas a arte drag, redefindo seus espaços a uma cultura noturna de bares e shows. Com a marginalização, a cultura drag durante o século XIX, teve como principal foco de trabalho o teatro, com a popularização da característica cômica e crítica atribuída aos shows de artistas drag a partir de sátiras à burguesia, principalmente em Londres, com os dramas shakespearianos dando lugar aos romances e à comédia.
A ORIGEM DO TERMO “DRAG”
A origem da palavra “drag” é incerta. O primeiro registro do uso da palavra para referenciar atores que vestiam roupas femininas data de 1870. A princípio, pode ter sido baseado no termo “grand rag”, que historicamente foi utilizado para um baile de máscaras. Já outra versão conta que na época do teatro Elisabetano, especulava-se que Shakespeare, ao conceber suas personagens femininas, ao rodapé da página em que descrevia tal papel, marcava-o com a sigla DRAG, dressed as girl (vestido como menina, em tradução livre), para sinalizar que aquela personagem seria interpretada por um homem. A partir do século XX o termo “queen” foi acrescentado para se referir a forma mais exagerada e estereotipada, representando uma forma de expressão mais artística de cada artista. Hoje também existe o termo “drag king”, atribuído a performistas, geralmente mulheres, que se vestem com roupas exageradamente masculinas.
DRAG QUEENS COMO ATO POLÍTICO
O século XX foi um ponto-chave para a visibilidade das drag queens. As transformações ocasionadas pelas guerras na década de 30 e 40, representaram uma virada na percepção do que eram os artistas drag até então, já que diante do novo pensamento da mulher e sua posição na sociedade durante a década de 40 e 50, fez com que o papel de drags, travestis e transexuais fosse revisto. As drag queens sempre tiveram como objetivo divertir o público, mas a partir do contexto da repressão aos direitos LGBTQIA+ durante a década de 60, ser drag queen se tornou um ato político.

Entre mil e uma batalhas ao longo dessas décadas pelos direitos LGBTQIA+, uma marcou a história. A “Revolta de Stonewall”, em Nova York, é um exemplo claro do cunho político assumido por drags queens e kings.
O confronto em questão foi entre a polícia de Nova York e os frequentadores do bar Stonewall Inn por conta de leis que cerceavam a fluidez de gênero e obrigava que, por exemplo, pessoas de sexo masculino usassem pelos menos três peças de roupas tidas apropriadas para si. Numa das constantes batidas policiais no local, os frequentadores se rebelaram e revidaram com os ataques violentos contra a polícia, dando início à batalha. As pessoas que começaram com tudo isso foram Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, duas drag queens e Stormé DeLarverie, uma drag king cujo confronto com a polícia acabou se tornandii um dos momentos decisivos na batalha.
A CULTURA DRAG NO BRASIL

No Brasil, a arte drag, também conhecida como transformismo, surgiu entre os anos 50 e 60 (veja mais na linha do tempo abaixo). O transformismo nasce no teatro e nas casas noturnas, inspirado pelas grandes divas do cinema internacional, envolvido de muitos paetês, plumas e pedrarias. As transformistas pioneiras, homens gays, mulheres trans e travestis, oferecem ao público números sarcásticos, de canto, de dublagem e dança envoltos em muito glamour e que tomam lugar em palcos nobres e casas especializadas nesse tipo de show, frequentadas por pessoas ricas e, às vezes, também bastante famosas, nas grandes cidades do país.

Miss Biá, considerada por muitos a pioneira da arte drag no Brasil, começou a fazer shows drag em plena Ditadura Militar, enfrentando além do preconceito, a perseguição e censura imposta pelo regime. Os transformistas não podiam sair na rua com os figurinos com os quais se apresentavam, sendo presos se fossem pegos com perucas ou outros adereços femininos. No início dos anos oitenta, o governo estadual de São Paulo, promovia rondas de policiamento ostensivo na área central da capital paulista, onde centenas de homossexuais, travestis e prostitutas foram perseguidos e presos em operações de “limpeza” das ruas.
Alguns dos artistas que mais tiveram visibilidade nos palcos dos teatros foram os escandalosos Dzi Croquettes, artistas masculinos, barbados e de pernas peludas que, na década de 70, se apresentavam vestidos em saltos altos, paetês e muito glitter. Alcançaram reconhecimento em teatros no Brasil e na França, com shows de grande potência política e artística, e colocando em destaque uma atmosfera cultural sobre sexualidade e identidade de gênero.
Acompanhando o cenário internacional, a cultura drag no país despontou nos anos noventa. O lançamento do filme “Priscilla, a Rainha do Deserto”, de 1994, despertou um grande interesse da população e abriu espaço para uma nova visão em torno dos artistas da arte drag. A TV abriu oportunidades para muitos artistas que, ainda de forma caricata, podiam se apresentar e mostrar sua arte, como no programa de calouros de Silvio Santos, em que eram apresentadas como transformistas.
ARTE DRAG NO INTERIOR
Distante dos grandes centros urbanos, a arte drag se encontra somente nas noites de baladas e festas, geralmente deslocada nos poucos lugares onde o público LGBTQIA+ é aceito de forma aberta. Com poucos artistas drags no interior, o maior consumo desta arte acaba vindo das capitais, onde peças de teatro, cantores e performers são vistos com mais frequência. Isso resulta numa dificuldade, principalmente, das pessoas no interior de terem um contato direto com esta arte e também na quebra de estereótipos e estigmas impostos pelo preconceito, além de gerar uma desvalorização dos artistas drag locais, visto que apesar de poucos, eles ainda existem.
Vale ressaltar que as drag queens, como transformistas, não têm ligação direta com sexualidade ou gênero, e que aproximam-se dos crossdressers (pessoas que se vestem de acordo com o outro gênero) pela funcionalidade do que fazem, e não das travestis e dos homens e mulheres transexuais pela identidade.
Fotos: Alexandre Marcheze / Nexjor
A ARTE DRAG PARA QUEM CONSOME
Nos anos 90, no cenário internacional, a imagem da arte drag foi repaginada com o surgimento da drag queen RuPaul Charles, que quebrou a barreira da comunidade LGBTQIA+ se transformando em uma figura icônica que transcendeu as fronteiras da cultura popular. RuPaul elevou a arte drag a um novo patamar e ajudou a expandir a compreensão e a aceitação da arte drag, desafiando estereótipos e demonstrando a diversidade dentro dessa forma de expressão.

Com a criação de seu reality show “RuPauls Drag Race”, um programa de competição entre drag queens, se tornou uma referência cultural e um fenômeno televisivo internacional, com adaptações do programa em diversos países pelo mundo, incluindo recentemente o anúncio da edição brasileira do programa, o “Drag Race Brasil” que está sendo produzido pela MTV e Paramount+.
O programa não apenas oferece uma plataforma para drag queens mostrarem seu talento e criatividade, mas também aborda questões importantes da comunidade LGBTQIA+, como a aceitação, os direitos iguais e a diversidade. No Brasil, apesar do sucesso grandioso de RuPaul, existiram drag queens que influenciaram e tiveram o mesmo papel social muitas décadas antes, mas que acabaram por serem desvalorizadas por uma artista de fora do país.
Para muitas pessoas de dentro e de fora da comunidade LGBTQIA+, o programa foi a porta de entrada para consumir e se aprofundar na arte drag. Gustavo Mariano, de 18 anos, é estudante de Fisioterapia da Campo Real Paraná, e conta que o programa ajudou a se conectar com seu processo de aceitação. “Conhecendo a arte drag, conhecendo o programa, eu abri um leque de possibilidades onde eu poderia ir a muitos lugares sem sair de casa, isso foi essencial pra minha aceitação pessoal”. Para Gustavo, a arte drag vinda do exterior acaba sendo mais valorizada do que a encontrada no Brasil, visto que muitas drag queens hoje no país, são marginalizadas e precisam do dobro de esforço para se consolidarem como artistas
Além disso, Gustavo cita diversas referências pela qual a arte drag no Brasil deve ser mais valorizada. Você pode conferir o depoimento completo ouvindo o áudio disponível abaixo:
A ARTE DE RESISTIR
Jonas e tantas outras pessoas dentro desta comunidade mostram que ser drag queen ou drag king, vai além da roupa extravagante, da maquiagem super produzida ou dos números artísticos em uma performance. É sobre colocar seu corpo como manifesto social e político, desafiando as normas de controle estabelecidas por uma sociedade preconceituosa. Muitas vezes para essas pessoas, ser transformista é transformar o mundo ultrapassando fronteiras para garantir ao mundo a visibilidade para promover um melhor entendimento da sociedade sobre o que é ser drag, expressando sua arte sem serem marginalizadas. No final, toda esta luta cultivada é expressa por essas pessoas é sobre fazer a arte, resistir a história e trazer a arte para dentro e fora da cultura LGBTQIA+ como um fator político contra a opressão e o apagamento de um leque imenso de identidades e de pessoas que uma por uma lutaram, deram suas vidas e fizeram a arte de resistir.
