
Influenciados pela Covid-19, indicadores do IDEB 2021 não atingem a meta estabelecida pelo INEP
Reportagem e infografia por: Fernanda Machado
A educação é essencial para a formação do cidadão e a transformação da sociedade. Para isso, as instituições de ensino desempenham um papel de extrema relevância neste processo de aprendizagem. Para fazer a diferença na vida do aluno, é preciso ofertar um ensino de qualidade. Com este objetivo surgiu o IDEB para medir a qualidade do ensino nas escolas, tanto públicas como privadas. Como espaço pedagógico e acadêmico ligado ao curso de Jornalismo, o Nexjor busca valorizar em seus conteúdos, resultados de pesquisas como o IDEB para que diagnósticos e políticas públicas sejam implementadas. A partir desse princípio é que decidimos analisar os resultados das últimas três avaliações na região.
Com base nos dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), analisamos os resultados obtidos em cinco das maiores cidades da região Norte do Rio Grande do Sul: Passo Fundo, Carazinho, Marau, Soledade e Erechim. A análise foi dividida no ensino fundamental, nos anos iniciais (1º ao 5º ano), anos finais (6º e 9º ano) em escolas públicas urbanas, e ensino médio nas escolas estaduais. A escolha das cidades foi pensada por serem as maiores cidades do Norte do estado, que juntas somam mais de 145 escolas. Os dados analisados foram divulgados pelo INEP em setembro de 2022 e analisam o período de 2020 e 2021.

O IDEB acontece a cada dois anos e conforme a professora doutora e pesquisadora do programa de Pós-Graduação em Educação da UPF, Rosimar Esquinsani, a ideia é avaliar os processos de aprendizagem ao final de cada ciclo. Por isso os anos iniciais são avaliados no último ano, que é o 5o ano, enquanto os anos finais são avaliados no último ano do ciclo, ou o 9o. ano. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) foi criado em 2007 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), com o objetivo de medir a qualidade do aprendizado nacional e estabelecer metas para a melhoria do ensino. Ele relaciona as taxas de aprovação escolar, obtidas no Censo Escolar, com as médias de desempenho em língua portuguesa e matemática dos estudantes no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).
Anos Iniciais
Todas as cidades da região analisadas tiveram uma diminuição nas notas, quando comparadas com os anos anteriores e a maioria não conseguiu atingir a meta estabelecida pelo INEP. Importante destacar que as metas do INEP já são o padrão de qualidade esperado. “Quando um município está abaixo da meta, significa que ele está abaixo da qualidade esperada. Quando está acima ou na meta, significa que já oferta um ensino de qualidade. Quem define a meta é o próprio INEP, com base em estudos e indicadores sobre localização das escolas, índice de esforço docente, qualidade da gestão escolar, e uma série de fatores”, salienta Rosimar.
Passo Fundo veio de uma crescente nas avaliações anteriores, mas em 2021 a nota caiu e a meta de 6.2 não foi atingida. Em 2017, a meta era 5.6 e conseguiu atingir o resultado esperado. Em 2019, conquistou uma nota de 5.7, ficando abaixo da meta que era 5.9, e em 2021 a nota foi 5.3. Conforme Rosimar, tendo em vista que as crianças estavam com aprendizagem à distância, o município obteve resultados muito satisfatórios.
Carazinho, em 2021, foi a única cidade que conseguiu atingir a meta estipulada pelo Inep. Mesmo tendo havido retrocesso, em comparação com as notas de 2017 e 2019, o município se manteve dentro da meta. Em 2021, Carazinho tinha uma meta estipulada em 6.1, e conseguiu alcançar essa nota. Nos anos anteriores a meta foi superada. Em 2017, a meta estipulada era de 5.6 e o município tirou nota 6.3, e em 2019 a meta era 5.8 e sua nota se manteve a mesma que o período anterior. A professora Rosimar acredita que este resultado é multifatorial. “Tem que se levar em conta políticas públicas, acompanhamento do aluno, política de estudos e provimento docente”, declara.
Já Soledade veio de dois anos seguidos com superação das metas estipuladas, mas em 2021, além de não chegar na meta, a nota obtida foi menor que o ano anterior. Em 2017 a meta e a nota do município foram 5.6. Em 2019 a meta era de 5.8 e o município alcançou 6.0. Já em 2021 a nota 5.7 não superou a meta de 6.1. Dos maiores municípios da região, Marau foi o único no período que não conseguiu atingir a meta em nenhum dos anos. A nota obtida em 2021, de 6.1, também diminuiu em relação aos anos anteriores. Em 2017, o município tinha uma meta de 6.2, mas obteve nota 6.0. Em 2019 a meta foi de 6.4, mas a nota foi de 6.3.
Em Erechim nas últimas avaliações o município conseguiu atingir e superar as metas estipuladas, mas em 2021, assim como as demais cidades analisadas aqui, não conseguiu atingir a meta estipulada e a nota foi menor que as dos anos anteriores. Na última avaliação, Erechim tinha a meta de 6.7 e conseguiu tirar nota 6.5, a mesma que havia conseguido em 2017 quando a meta era menor, 6.2. Em 2019 a meta era de 6.4 e obteve nota 6.6, a maior do período e dos municípios analisados. Em Marau e Erechim, as metas e os resultados obtidos são maiores que os demais municípios analisados, isso se deve ao Indicador de Nível Socioeconômico das Escolas de Educação Básica (INSE), que mensura as condições socioeconômicas dos alunos. “Todas as cidades têm esse indicador social que identifica se o aluno mora com os dois pais, local onde reside, e devido a esses fatores a meta é criada. A expectativa é alta quando o aluno tem alimentação adequada em casa, quando o prefeito está há mais tempo na gestão, e assim as políticas públicas para a educação são mais perenes. Quanto mais alta a expectativa, maior é a meta.”, explica Rosimar.
Anos Finais
Os números gerais do 6º ao 9º ano mostram um aumento nas notas em 2021, em comparação com os anos anteriores, mas ainda assim a meta estabelecida não foi alcançada. Destaca-se que o Ideb é calculado com base no aprendizado dos alunos em português e matemática (Prova Brasil, a cada dois anos) e no fluxo escolar (taxa de aprovação, de toda a escola, anualmente). “Assim, se uma escola foi bem na Prova Brasil, mas teve uma taxa de reprovação de 10%, por exemplo, o IDEB vai cair”, destaca Rosimar.
Dos municípios analisados, nenhum atingiu a meta estabelecida e isso se repete há alguns anos, realidade diferente dos anos iniciais. Conforme a professora Rosani, isso não tem uma causa determinante. “Existe algumas hipóteses a serem consideradas como a troca de professores, pois até o quarto ano os alunos estão habituados com somente um professor e a partir do quinto ano é um docente para cada disciplina, então muda a forma de ensino de cada professor, e como é uma fase de transição para o aluno que está entrando na pré adolescência isso pode influenciar. Assim como os conteúdos cada vez mais complexos.”, explica.
A meta estabelecida para Passo Fundo, em 2021, era de 5.7 e o município alcançou nota 4.5. A nota aumentou depois das últimas edições, em 2017 e 2019, em que o município se manteve com nota 4.3. As metas estabelecidas em 2017 e 2019 foram 5.2 e 5.4, respectivamente. Apesar de também não ter atingido a meta, Carazinho aumentou a nota em 15%, de um ano para o outro. Em 2021, o município alcançou nota 5.2 sendo que a meta foi de 6.0. Em 2019 a nota alcançada foi de 4.5 e a meta foi de 5.8, e em 2017 a nota foi a mesma da edição posterior, sendo que a meta era de 5.5.
Soledade foi o município que teve o maior aumento desde 2017, crescendo nove décimos, saltando de 4.1 para 5.0 em 2021. Porém a meta segue não sendo alcançada. E em 2019, o município tinha a meta atingir nota 5.5 e conseguiu nota 4.4. Conforme a professora, os resultados de Soledade são satisfatórios há anos. “O crescimento de Soledade se dá em razão de muitos fatores, pois é um município que investe fortemente na educação, pois tem um governo que está no poder há algum tempo e assim as políticas de educação se tornam mais perenes”, destaca Rosimar. Da mesma forma, Marau vem em uma crescente nos últimos anos, mas as metas também não estão sendo alcançadas. Em 2021, a meta estabelecida para o município foi de 6.2 e alcançou a nota de 5.2, em 2019 a meta era de 6.0 e conquistou nota 5.0, e em 2017 a meta era de 5.7 e o município alcançou nota 4.8. Erechim conseguiu aumentar a nota em 2021, depois de manter a mesma nota nas duas últimas avaliações. Em 2021 a meta estabelecida era de 6.0, e alcançou a nota de 5.5; em 2019 a meta era de 5.8 e alcançou nota 5.0; e em 2017 a meta era de 5.5 e conseguiu alcançar nota 5.0. Quando o município não alcança a meta estabelecida algumas medidas devem ser adotadas. “Investimento nos professores, como cursos para trabalhar a interdisciplinaridade, formação voltada à educação para adolescente”, argumenta Rosimar.
Ensino Médio Estadual
O ensino médio só é oferecido pelo estado e por escolas privadas. Como estamos fazendo a análise das escolas públicas, quando falarmos em ensino médio será somente escolas estaduais. Conforme o Art. 211, § 3º da Constituição, somente as escolas estaduais e privadas podem atuar no ensino médio. Até 2017, as cidades que analisamos não tinham uma meta atribuída. Passo Fundo, desde 2019 vem superando as metas que são estipuladas neste nível. Em 2017 o município conquistou a nota 3.6. Na avaliação seguinte a meta foi de 3.6 e conquistou nota 4.0. E na última avaliação, com meta 4.0, o município atingiu nota 4.1. Em Carazinho, desde que foi atribuída meta em 2019, o município se mantém no objetivo. Em 2017 o município recebeu nota 3.5, em 2019 a meta atribuída foi de 3.7. Na avaliação subsequente e em 2021 a meta estipulada foi de 3.9.
Dos municípios analisados nesta reportagem, Soledade teve a maior evolução no período. De 2017 a 2021, o município subiu 1 ponto. Em 2017 a nota obtida foi de 3.3. Na avaliação subsequente a meta era 3.5 e conseguiu nota 3.9. E em 2021 a meta estipulada para o município foi de 3.8 e superou e conquistou nota 4.3. A cada ano, Marau vem crescendo também, mas foi o único município que diminuiu a nota em relação à avaliação anterior. Mesmo assim conseguiu superar as metas. Em 2017, o município conseguiu nota 3.2, em 2019 a meta estipulada foi de 3.5 e a nota superou 1 ponto em relação ao ano anterior e conseguiu nota 4.2. Já em 2021 a meta atribuída foi de 3.7 e o município perdeu um décimo em relação ao ano anterior e conseguiu nota 4.1 Erechim é o município, dos analisados aqui, que tem as melhores notas em comparação aos demais, mas em 2021 não teve seus resultados divulgados pelo INEP devido ao número de participantes nas avaliações ter sido insuficiente. Conforme a professora Rosimar, o número mínimo de alunos realizando a prova deve ser de 20, se as turmas são menores ou se os alunos faltaram no dia da Prova Brasil, não tem Ideb.
Desempenho dos municípios reflete o resultado do Estado
Quando falamos de Anos Iniciais do Ensino Fundamental público, o Rio Grande do Sul, desde 2017, não consegue superar a meta estipulada para cada ano. Porém, de 2007 a 2015, o Estado estava atingindo e superando a meta. É preciso considerar que a pandemia de Covid-19 teve grande impacto nas atividades escolares nos anos de 2020 e 2021, afetando diretamente o pleno desenvolvimento das atividades pedagógicas e aprendizagem dos alunos. E esse contexto deve ser considerado para uma adequada interpretação dos resultados do Ideb 2021.
Em 2017 a meta estipulada para o estado, nos Anos Iniciais, foi de 5.7 e obteve nota 5.6. Em 2019, a meta subiu 3 décimos em relação à avaliação passada e o município conseguiu nota 5.8. E em 2021 a meta estipulada foi de 6.3 e o Estado permaneceu com a mesma nota da avaliação anterior. Um destaque na região Norte, dos municípios analisados, é Erechim, que se manteve na meta e atingiu 6.5 em 2021, a mesma nota que outros 16 municípios de outras partes do estado, ficando atrás de 102 municípios melhores colocados. Conforme Rosimar, quanto menor a cidade, mais fácil conseguir elaborar políticas públicas para a educação, pois é possível acompanhar o aluno e o docente de perto e assim elaborar planos e estratégias para melhorar cada vez mais, uma realidade que cidades maiores não conseguem ter.
Quando falamos dos anos finais do ensino fundamental público, o problema é mais antigo ainda. O Estado não consegue atingir a meta estabelecida pelo INEP há 15 anos. Em 2017, o Rio Grande do Sul tinha um objetivo de conquistar nota 5.1, mas não conseguiu e recebeu 4.4. Em 2019 a nota obtida subiu um décimo em relação à avaliação anterior, mas ainda assim ficou longe da meta de 5.4., e em 2021 o Estado chegou na nota 5.0, mas ainda longe do objetivo atribuído pelo INEP que era de 5.6. Quando se trata de ensino médio estadual, o problema é semelhante aos anos finais. Somente em 2009, o Estado conseguiu atingir a meta estabelecida, que era 3.6. Conforme Rosimar, o RS não está conseguindo atingir suas metas devido a diversos fatores. “A troca do Ensino Médio pode ser um fator importante para que o Estado não consiga atingir a meta, por que pode haver uma perda no retorno da qualidade do ensino, uma vez que os professores não tem retorno, seja salarial, formação adequada voltada para o novo ensino médio, cursos de aperfeiçoamento profissional.” salienta.
Nos últimos anos, o Estado está com as notas em uma crescente, mas ainda longe de alcançar as metas. De 2017 até 2021 o RS conseguiu subir 7 décimos na média. Em 2017, a nota foi 3.4, em 2019, saltou para 4.0, enquanto em 2021 conseguiu subir um décimo em relação à avaliação anterior. Em 2017, a meta era de 4.8, na avaliação subsequente a meta subiu dois décimos em relação a 2017, e em 2021 a meta estabelecida foi de 5.3.
Conforme Rosimar, as consequências de um aluno que está recebendo educação em uma cidade que não atinge suas metas, são preocupantes. “A consequência ideal seria o município focar na educação e na qualidade do ensino, mas a consequência real é a frustração do aluno, seja por exposição, quando uma escola não consegue notas tão boas quanto a outra. Um exemplo é uma escola no mesmo bairro ter notas mais altas que as demais, consequentemente o aluno se sente excluído e com um sentimento de tristeza”, explica. Um ensino público que não atinge suas metas não consegue suprimir a demanda que a sociedade exige. “A escola é por natureza um espaço democrático, uma vez que todos têm garantia de acesso. Quanto melhor a escola, mais evoluída será a sociedade, pois se torna mais autônoma, o cidadão tem acesso a política. Investir na na educação é investir na cidadania”, conclui Rosimar.
