Abri o Google em uma noite de quinta-feira. Digitei o nome do personagem desta matéria e a cidade onde trabalha, não encontrei muito sobre a vida e a carreira do repórter policial. Apenas boletins policiais – notícias sobre acidentes, mortes, prisões, furtos, assaltos – com os créditos de Acácio Silva.
A carreira de 35 anos do repórter passo-fundense e os desafios da profissão no ponto de vista da referência em jornalismo policial da cidade ainda não foram assuntos de uma reportagem na imprensa local recentemente. Encontrei apenas uma chamada para o programa Encontros da UPFTV com o repórter, mas o programa, que foi ao ar dois anos atrás, deve estar apenas no arquivo da emissora.
O repórter me recebeu na tarde de quinta-feira, dia 28 de agosto, na sede nova da Rádio Uirapuru, que assim como a antiga, se localiza na Rua Independência, no centro de Passo Fundo. Durante o bate-papo, descobri que Acácio Silva se tornou repórter policial sem querer.
Em 1979, o editor do Jornal Diário da Manhã esteve no Instituto Cecy Leite Costa a procura de estagiários para o Jornal, que ainda se localizava na esquina da Independência com a Coronel Chicuta, no centro de Passo Fundo. No curso de redator, oferecido pelo Instituto, estudava Acácio, um dos escolhidos para estagiar no Diário.
A proposta do editor era oferecer um estágio de três meses aos estudantes. Quem fosse aprovado nesse período de experiência seria efetivado. Se passaram sete dias de estágio e Acácio foi contratado como funcionário. Talvez esse fosse um sinal de que o redator, 35 anos depois, seria uma referência como repórter policial na cidade de Passo Fundo.

Antes de se tornar, por acaso, repórter policial, Acácio Silva trabalhou na Rádio Passo Fundo, Jornal O Nacional e foi correspondente da Zero Hora. Acácio não tem formação universitária, mas traz consigo experiência – já trabalhou em seis veículos de comunicação e soma 35 anos de profissão. “Acho o diploma fundamental para o exercício da profissão, mas, na época, não existia o curso de Jornalismo na Universidade de Passo Fundo”, conta o repórter, que atualmente trabalha na Rádio Uirapuru e é correspondente regional do Correio do Povo e da Rádio Guaíba.
Em 1996, quando o Instituto de Bela Artes, que depois seria chamado de Faculdade de Artes e Comunicação, ofereceu o curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, a filha de Acácio Silva tinha idade universitária e aproveitou a oportunidade que o pai não teve, cursou jornalismo.
Em agosto deste ano, Acácio Silva completou 25 anos de Rádio Uirapuru, 24 deles como repórter policial. “Eu não gostava dessa área. Quando me chamavam para fazer uma cobertura policial, eu ameaçava pedir demissão”, relata ele, que se tornou repórter policial quando foi solicitado pelo editor e chefe de jornalismo da Uirapuru na época, Júlio Rosa, para preencher a vaga de repórter policial provisoriamente.
O trabalho no setor policial, que seria provisório e não agradava Acácio, soma 24 anos de experiência para o repórter. “Agora, não trocaria a área do jornalismo policial por outra”, diz.
Desafios da profissão
Interessante. É assim que Acácio Silva define o trabalho na área policial. “Um repórter da editoria de polícia precisa ter sangue frio”, ressalta Acácio, que acredita que o setor policial é a área mais rentável do jornalismo, já que poucos profissionais escolhem essa área de atuação.
Um dos maiores desafios de um repórter policial é controlar a emoção. “Se o profissional se emociona junto, acaba não contanto o fato”, opina Acácio, que com o tempo e experiência, se acostumou a fazer coberturas de acidentes, mortes e prisões. “Já vi cenas macabras, como exumação de corpos, e pessoas em estado de decomposição”. Pai de cinco filhos, Acácio assume que é difícil segurar a emoção quando a ocorrência policial envolve crianças.
Além dos desafios emocionais, o repórter policial também precisa conhecer as leis. “Devemos saber o que pode e o que não pode ser publicado”, diz Acácio. Não é permitido, por exemplo, divulgar sem autorização, nome de criança ou adolescente infrator, conforme o Artigo 247 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Publicar informações sobre suspeitos antes de concluir uma investigação também não é permitido, segundo o repórter Acácio Silva, apenas quando for flagrante.
Além do cuidado com a publicação das informações sobre os suspeitos, Acácio ressalta o cuidado em divulgar as fotos em caso de morte. “Em respeito à família e aos leitores, não podemos mostrar o corpo da vítima”, conta.
Conviver com ameaças é mais um dos desafios do repórter policial. A violência contra jornalistas, principalmente àqueles que estão ligados ao jornalismo policial e investigativo, é grande. De acordo com a UNESCO, mais de 430 jornalistas foram mortos entre 2007 e 2012. “Uns 12 anos atrás, encheram a minha casa de tiro. Dois homens descarregaram uma pistola calibre 38 contra a porta da garagem. Minha filha tinha chegado há pouco da faculdade, por sorte, não atingiu ninguém”, relata o repórter Acácio Silva.
O medo não deve fazer parte da vida do repórter policial, apesar das ameaças. É o que diz Acácio, que cita o repórter Giovani Grizzoti como exemplo de jornalista que não pode ter fotografias suas divulgadas, pelas ameaças que recebe.
A foto que acompanhava o nome de Acácio Silva no Jornal Troca-Troca Uirapuru também foi retirada por decisão do repórter policial. “Me disseram que no presídio havia detentos mirando facas contra a minha foto, como se fosse um alvo”, conta.
Dia-a-dia do repórter policial

Sem horário e sem rotina. A vida do repórter da editoria de polícia é definida assim por Acácio Silva, que já deixou a família no almoço de Natal para realizar a cobertura de um fato.
Pelo menos três vezes por dia – de manhã, no final da tarde e à noite – o repórter policial confere as ocorrências registradas na Delegacia de Polícia e, por vezes, na Brigada Militar. Os casos que ainda não foram solucionados também são diariamente acompanhados por Acácio Silva e pelo colega de Rádio Uirapuru, Lucas Cidade.
O rádio, como meio de comunicação instantâneo, exige do repórter de polícia agilidade. A tecnologia e o acesso à informação de maneira rápida facilitam o processo, segundo Acácio. “Quando não existia celular, tínhamos que procurar um telefone público ou de estabelecimento comercial para entrar ao vivo na rádio”, lembra o repórter. Hoje em dia, é comum o jornalista chegar ao local da ocorrência antes dos bombeiros ou policiais porque a população é fonte de informação. “Pelo aplicativo Whatsapp, o ouvinte manda vídeos e fotos do acontecimento”, diz Acácio, que acredita que o jornalista, independente do setor em que trabalha, deve ter muitas fontes porque não pode estar e saber de tudo que acontece na cidade e região.
