Por que clássicos são clássicos?

“Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu. Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.”

Machado de Assis, em 1899, escreveu a obra que seria um dos maiores clássicos da literatura brasileira, Dom Casmurro. O livro conta a história do romance de Capitu e Bentinho e a dúvida da traição da moça permanece no imaginário popular até hoje. Por que existem obras literárias que, assim como o romance de Machado de Assis, se tornam clássicos?

No livro “Por que ler os clássicos”, Italo Calvino escreve: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Esse enigma faz com que a obra escrita no século XIX seja atual. “A literatura clássica não tem pretensão de responder perguntas e por isso, não se esgota de dizer o que têm para dizer”, comenta o acadêmico de Letras e apaixonado por clássicos, Jair Rodrigues.

[stextbox id=”custom”]Um dos maiores clássicos da literatura brasileira, publicado pela primeira vez em 1899, é definido como o romance da dúvida pela acadêmica de Letras, Fernanda Lopes. “Dom Casmurro é uma obra que deve ser lida e relida”, diz Fernanda. O romance escrito por Machado de Assis, que se passa por volta do ano de 1857, na cidade do Rio de Janeiro é o primeiro que dá voz ativa a mulher brasileira, defende o prof. Ms. em Letras, Eládio Vilmar Weschenfelder. “Antes de Dom Casmurro, as mulheres eram dominadas pelos homens. Depois, são dominadoras. Capitu é a cara da mulher brasileira”.[/stextbox]

Os clássicos também encantam o acadêmico de Letras, Luis Fernando Portela, que considera a literatura, uma arte. “Como a arte é transcendente, podemos dizer que a obra clássica é uma arte que transcende porque consegue gerar sentido mesmo fora da época em que foi publicada” opina Luis.

"A Moreninha", romance publicado em 1844, também é um clássico da literatura brasileira.
“A Moreninha”, romance publicado em 1844, também é um clássico da literatura brasileira. A obra de Joaquim Manuel de Macedo dá os primeiros passos para o Romantismo tipicamente brasileiro.

O amor não correspondido, ódio, dúvida, ciúmes, desejo e morte. As obras clássicas têm característica de reunir temas humanos, reais e atemporais. “No Brasil ou na China, no século XII ou no século XX, alguém já sofreu por amor”, diz o prof. Eládio Weschenfelder que acrescenta: “O romance até parece verdade, mas não é”.

Por que ler os clássicos?

Os clássicos, apesar de reunir temáticas universais e atemporais, são ligados a um período e contexto histórico. Estudar essas obras é entender a cultura, o pensamento e a linguagem da época em que foram escritas. A literatura clássica, para Fernanda Lopes é a melhor forma de entrar no universo da leitura. “Os clássicos falam de sentimentos universais, então você lê e se identifica com os personagens e as situações”, diz a acadêmica.

Como ensinar os clássicos?

Obras da literatura clássica transformadas em histórias em quadrinhos e ilustrações são formas lúdicas de incentivar jovens e crianças a gostarem dos clássicos. “Ler trechos das obras e fazer debates ou juris também é uma forma de ensinar os clássicos”, fala Jair Rodrigues. Poucos professores sabem como incentivar os jovens a lerem, segundo o prof. Eládio Weschenfelder. “Oferecer Dom Casmurro para um estudante que não tem prática de leitura é formar o desgosto pela obra, deve haver um processo para que o jovem se encante com o triângulo amoroso”, diz.

Rolar para cima