Carlos Latuff, o dono dos traços que contam o mundo

Carlos Latuff não faz revoluções. Não pega em armas nem media conflitos. Mas o trabalho do brasileiro é parte importante nas grandes revoltas do século XXI. Seja pintado no Muro do Apartheid que cerca Jerusalém ou numa bandeira a tremular na Faixa de Gaza, os traços do cartunista dão forma a sentimentos e reivindicações de povos oprimidos mundo afora. Traços estes que se tornaram famosos principalmente por retratar histórias de lutas por liberdade e direitos sociais de povos no Oriente Médio.

[stextbox id=”custom” caption=”Primavera Árabe” float=”true” align=”right” width=”250″]Onda de conflitos e revoluções em países do Oriente Médio e norte da África, iniciada em 2011. Com a ajuda da internet, os manifestantes reivindicavam o fim de ditaduras, mais direitos civis à população e novas políticas econômicas. Tunísia, Líbia, Egito, Argélia, Iêmen, Marrocos, Bahrein, Jordânia e Omã e Síria foram palco do levante. [/stextbox]

Na Primavera Árabe, um dos mais célebres levantes populares dos últimos anos, era comum ver faixas, bandeiras e camisas exibindo charges do carioca, em protestos contra ditaduras enraizadas há décadas na região. No Brasil, o trabalho de Latuff retrata, diariamente, os assuntos em pauta na sociedade. Mas é a polícia brasileira, vista por ele como “brutal e corrupta”, que encabeça a lista de temas que mais geram polêmica. A crítica aos órgãos de segurança é respondida, por vezes, com ameaças de morte nas redes sociais.

“Meu trabalho é a arma do manifestante”

E é a internet a responsável pela disseminação dos trabalhos do carioca. Grupos de rebeldes e a mídia alternativa, comumente, entram em contato com ele através das redes sociais, em busca de material para ser usado em manifestações e publicações no mundo inteiro. Apesar da repercussão mundial, Latuff ainda é pouco conhecido no Brasil. Um dos motivos é sua habitual crítica forte aos meios de comunicação em nosso país, vistos por ele como “uma grande indústria de manipulações”.

Os primeiros traços e o conflito Israel x Palestina

Apesar de possuir descendência árabe, Carlos Latuff afirma que seus pensamentos nada têm a ver com sua família: “Muita gente pensa que é por causa da minha origem libanesa, pelo lado da minha avó, mas não é isso. Tem a ver com a solidariedade com os povos, sejam árabes, curdos ou de qualquer outro lugar. Considero-me um internacionalista”, disse Latuff à Agência Efe. Nascido na cidade do Rio de Janeiro, iniciou sua carreira trabalhando em veículos da imprensa sindical, ao fim da década de 80. Mas foi só em 1998, após tomar conhecimento do movimento zapatista no México, que o cartunista passou a desenvolver trabalhos com viés ativista em questões que envolvem lutas sociais.

Em 1999, após visitar territórios de refugiados palestinos na Cisjordânia, Carlos Latuff tornou-se simpatizante da causa Palestina, assunto que passou a ser recorrente nos trabalhos do carioca. E rendeu-lhe até um prêmio: segundo a organização judaica Simon Wiesentha, Latuff é o terceiro maior antissemita (pessoa que tem aversão a judeus) do mundo, devido a sua postura contrária à ilegal ocupação israelense em territórios palestinos. Além do posto, recebeu ameaça de morte do grupo ligado ao Likud, partido de extrema-direita de Israel.

[stextbox id=”custom” caption=”Israel x Palestina” float=”true” width=”250″]Com o nazismo na Europa, os judeus viram-se obrigados a emigrar para outros lugares. A Palestina foi o destino de boa parte dos perseguidos. Em 1948, comunidades judaicas fundaram na região o estado de Israel, que fez aumentar a tensão: algumas partes do estado israelense compreendem lugares religiosos importantes para os árabes, de maioria muçulmana. Diversos acordos de paz foram tratados entre as duas partes e a comunidade internacional, mas nenhum foi capaz de acabar com o conflito.[/stextbox]

“A função do artista é violentar”

A frase emprestada do cineasta Glauber Rocha encabeça o blog onde Latuff disponibiliza seu trabalho.

O Nexjor entrevistou Carlos Latuff, por e-mail, na última semana de março de 2014. Veja abaixo a opinião do cartunista sobre o Oriente Médio e o jornalismo.

Nexjor: Carlos Latuff é ativista ou cartunista?

Carlos Latuff: Às vezes uma coisa, às vezes outra. Mas comparado com verdadeiros ativistas, me sinto mais um cartunista.

N: Como você define a grande imprensa brasileira?

CL: Uma grande indústria de manipulações.

N: O que há de bom e o que há de ruim no jornalismo brasileiro?

CL: Pouca coisa se salva no mainstream da mídia brasileira. Tomemos por base a imprensa gaúcha, a Rádio Guaíba (Grupo Record), onde o que se salva é apenas o Juremir Machado. De resto a emissora conta com um time de reacionários de fazer inveja a qualquer integralista. Na Gaúcha não é diferente. Os locutores do “Sala de Redação”, que deveria ser um programa esportivo, por vezes defendem posições características da extrema-direita. Na “grande” imprensa brasileira faltam “Mauros Santayanas” e sobram “Reinaldos Azevedos”, desgraçadamente.

N: Como você vê a cobertura da imprensa brasileira nos conflitos no Oriente Médio?

CL: Medíocre. Segue a linha “Israel só se defende dos terroristas do Hamas”. Transforma vítimas palestinas em agressores num passe de mágica.

N: Você acredita no fim do conflito entre palestinos e israelenses?

CL: Bem, não acredito em conflito eterno, um dia terá de acabar, pra bem ou pra mal.

N: Você sente que seu trabalho é mais admirado fora do Brasil?

CL: O santo de casa não faz milagre. Lá fora ainda existem em alguns meios de comunicação espaço para o contraditório. No Brasil só a versão oficial é que vale, não tem espaço pra debate.

N: Já foi convidado para trabalhar na mídia tradicional? Você aceitaria mudar algumas de suas ideologias para se adaptar a ela?

CL: Você imagina a Folha de S. Paulo ou o Estadão me pagando para desenhar criticando o agronegócio?

N: Como você vê a questão da liberdade de expressão no Brasil? Você já foi de alguma forma censurado?

CL: Já perdi a conta. Não existe liberdade de expressão plena. Em algum momento você vai esbarrar em interesses que quem está publicando. Mas, graças à Internet, o que eu não consigo publicar num determinado veículo, eu publico nas redes sociais de qualquer jeito. Ser cartunista é exercer sua opinião, não importa se você é pago ou não por isso.

Abaixo, um pouco do trabalho de Carlos Latuff.

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