Nascido em 12 de novembro de 1746 no distrito de Pombal, Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier é conhecido como o líder da Inconfidência Mineira e primeiro mártir da Independência do Brasil. Filho de um português com uma brasileira, aos 11 anos ficou órfão de pai e mãe, e viu-se obrigado a ir morar junto com um tio que era cirurgião dentista. Com ele aprendeu o ofício que lhe rendeu mais tarde o apelido pelo qual ficou conhecido, Tiradentes.
Além de dentista, Tiradentes foi minerador, mascate, comerciante, e ativista político. Antes de se envolver no levante chamado Inconfidência Mineira, foi alferes – denominação militar a um posto de subalterno – do destacamento dos Dragões na patrulha do “Caminho Novo”, estrada que servia como rota de escoamento da produção mineradora da capitania mineira ao porto do Rio de Janeiro.
Na opinião do pesquisador e professor do curso de História da UPF, Adelar Heinsfeld, a importância desse personagem na história depende do modo como o analisamos. “É necessário distinguir o Tiradentes histórico – como personagem envolvido num determinado acontecimento, que pode ser importante ou não, dependendo do foco de análise -, do Tiradentes herói”, ressalta o professor.
O Movimento Inconfidência Mineira
No século 18, em Minas Gerais, um grupo de pessoas resolve se rebelar contra os altos impostos que pagavam pela extração de ouro, pois consideravam a situação insustentável, já que apesar do ouro das minas ter diminuído os impostos continuarem aumentando. Porém o estopim para o nascimento do movimento da Inconfidência foi o momento em que o governo português instituiu a Derrama – onde todos os impostos atrasados deveriam ser pagos de uma só vez. Era preciso buscar a independência.

O professor Heinsfeld destaca como seria a formação desse país independente. “Esse novo país abrangeria os atuais estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Note-se que todo o restante do atual território brasileiro ficaria fora do país que seria formado pelos inconfidentes mineiros”, salienta.
O professor ainda destaca o fato de que Tiradentes tinha motivos particulares para entrar no levante. Era alferes no Regimento de Dragões de Minas há muito tempo, porém nunca havia conseguido uma promoção, já outros que tinham conseguido o posto de alferes há menos tempo que ele tinham subido de cargo.
Era entre todos os envolvidos na Inconfidência o mais pobre. Também não possuía nenhuma influência social. Heinsfeld comenta sobre o papel do alferes dentro do movimento. “Tiradentes cortaria a cabeça do governador de Minas, Visconde de Barbacena, para mostrar ao povo. Aliás, esta era a única função que estava reservada a ele nos preparativos para fundar o novo país”, destaca.
O fato de Tiradentes falar abertamente a todo o momento sobre a rebelião contribuiu para o fracasso do movimento. O levante tinha tudo para dar errado, e deu.
Em 1789 o golpe foi abortado. Antes que um tiro fosse disparado, as tropas oficiais interromperam o levante e prenderam os Inconfidentes. Das 11 pessoas condenadas à morte, somente Tiradentes foi executado, por não possuir nenhuma influência econômica ou política e por ter assumido toda a culpa pelo levante sem demonstrar nenhuma forma de arrependimento.
Enforcado em 21 de abril de 1792, teve seu corpo esquartejado. Seus membros foram espalhados pelos postes entre Minas Gerais e Rio de Janeiro. A cabeça ficou exposta na praça pública de Vila Rica, porém desapareceu na primeira noite, o que tornou sua verdadeira face desconhecida.
A construção do herói
Por ser um traidor, sua memória foi declarada infame e seu nome ficou proibido de ser pronunciado em público. “A memória de Tiradentes começou a ser recuperada quase um século depois. Quando nos anos de 1870 é fundado o Partido Republicano, que tinha como objetivo final a derrubada da Monarquia, vão buscar no mineiro enforcado um tipo ideal para ser transformado no herói da República”, argumenta o professor.
A partir desse momento Tiradentes começa a de fato sagrar-se um grande personagem da história do país. Como seu rosto era desconhecido, pintores republicanos logo trataram de inventar um rosto para o herói. Todos os retratos do alferes mostram um homem de cabelos e barba compridos, traços que lembram muito Jesus Cristo, e que claramente possuem um forte apelo popular.
O historiador faz um paralelo entre esses dois personagens, a partir do imaginário dos republicanos. “Cristo teria dado sua vida para salvar a humanidade dos pecados. Tiradentes teria dado sua vida para salvar os brasileiros da opressão portuguesa. Enquanto Cristo na Cruz teria dito ‘perdoai-vos por que não sabem o que fazem’, Tiradentes teria expressado: ‘se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria pela pátria’”, comenta.
“E a historiografia, a literatura, as artes plásticas, o cinema, vão transformar Tiradentes no “mártir da Independência” do Brasil e patrono cívico da nação brasileira, o maior herói nacional”, lembra o professor. As várias funções profissionais que desempenhou o fizeram um modelo de inspiração também para os jovens no mercado de trabalho. O projeto de um novo país que envolvia apenas Minas Gerais e Rio de Janeiro foi rapidamente transformado num projeto que envolvia todo o território brasileiro.

Tiradentes hoje é considerado Patrono Cívico do Brasil e herói nacional. Seu nome está escrito no Livro de Aço do Panteão da Pátria e da Liberdade, localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília. É o herói nacional mais lembrado em diversas pesquisas feitas com estudantes.
Sua figura de um homem pobre e sofredor se popularizou rapidamente por se assemelhar ao povo brasileiro. “Na construção do mito, do herói Tiradentes, sempre se chamou a atenção para o fato que enquanto os outros presos envolvidos na inconfidência se desesperavam, pediam clemência, Tiradentes enfrentava tudo com altivez, sem queixume algum, como se estivesse conformado, aceitando passivamente o seu destino. E é exatamente assim que se comporta um povo que precisa de heróis”, avalia o professor Heinsfeld.
Falar sobre Tiradentes é correr riscos, porque sua história é composta de entrelinhas. Nela o real se confunde com aquilo que a imaginação popular criou. Independente do que tenha ou não tenha acontecido, Joaquim José da Silva Xavier é exemplo de um homem que só alcançou reconhecimento depois de morto. Um herói que se fortaleceu mais pela ausência do que pela presença.
