Quando fundada em 1827, os moradores da cidade de Passo Fundo não imaginavam que de uma terra de passagem para tropeiros, o município do norte do Rio Grande do Sul se tornaria – nem que, por poucos momentos – a capital do Estado. A crise imposta pela ditadura de 64 afetou todos os municípios do país e colocou em alerta as capitais brasileiras que temiam sofrer invasões.
O então governador do Estado, Ildo Meneghetti, ao anunciar a transferência de da sede do governo gaúcho para Passo Fundo, disse: “chegou a hora em que o Rio Grande pede o sacrifício supremo de seus filhos. Não negaremos esse sacrifício. Seguiremos nossas tradições de lutas.” Tornava-se assim, de 1º a 6 de abril, O Quartel do Segundo Batalhão Policial da Brigada Militar de Passo Fundo, a sede do Governo Revolucionário.
Em 1964, Passo Fundo detinha de um poderoso aparato da polícia militar e, devido à influência de Leonel Brizola sobre o Estado, eram grandes as possibilidade de confrontos no Rio Grande do Sul. Anos antes, a cidade havia sido sede do Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, onde eram planejadas e executadas ações de repressão civil-militar e durante a ditadura agia na cidade o Comando de Caça aos Comunistas. O Governo do Estado sabia que o município era a escolha certa de refúgio. Chegado ao fim o período de Passo Fundo como capital dos gaúchos, no dia 6 de abril, o Governador Meneghetti, que retornava à capital Porto Alegre, se manifestou: “ao tomar esta atitude estava certo de que, na valorosa cidade de Passo Fundo, encontraria apoio necessário para organizar as forças de libertação do nosso Estado e combater com eficiência a tentativa de implantar no País uma ditadura comunista. Podem ficar tranquilos os Rio-grandenses. Dispomos de forças mais do que suficientes para manter a ordem, a tranquilidade e a liberdade do povo. O Rio Grande do Sul, convocado pelo Brasil, mais uma vez cumpriu com o seu dever”.

“De 1964 até 1985 foi um dos períodos mais nebulosos da história. Eu escrevia com medo, eu media as palavras mesmo que não parecesse”
O grande potencial de militares em Passo Fundo e a Lei de Imprensa que vigorava na época – Constituição de 1946 e 1967 – regulava a liberdade de manifestação do pensamento e de informação. A imprensa, que servia de aliada às forças políticas, foi considerada uma área de vital segurança pelo governo durante e pós golpe militar. O jornalista passo-fundense, Ivaldino Tasca, considerado na época um “agitador”, era repórter no Jornal O Nacional e comenta que “de 1964 até 1985 foi um dos períodos mais nebulosos da história. Eu escrevia com medo, eu media as palavras, mesmo que não parecesse.” Celestino Meneghini, também jornalista, comenta sobre a ação dos policiais. “Uns extrapolavam, outros controlavam tudo, eram os donos do mundo”, desabafa.
No ano de 1964, o Jornal Diário da Manhã, publicava em todas as suas edições um editorial que posicionava a opinião da empresa sobre as graves questões envolvendo o governo e os militares. A partir daí, pode-se dizer que a censura começou a ser praticada nos meios de informação do município: todas as edições do mês de abril de 1964 do Jornal Diário da Manhã desapareceram. Elas alertavam a população sobre a possível aniquilação da democracia no país.
Jornalista e historiador e na época radialista, José Ernani de Almeida fala sobre a censura: “do descobrimento à independência ou morte, até o refrão dos trabalhadores do Brasil do Vargas, passando pela ordem e progresso dos positivistas republicanos de 1989 à chegar ao odioso ‘ame ou deixe-o’, a censura sempre esteve presente”, finaliza.
EM PASSO FUNDO HÁ 50 ANOS…
Fotografias que ajudam a contar a história de um país e reconstruir um período de extrema repressão política e militar em que o jornalismo tinha de ser escrito “entrelinhas”. Tempo, em que o maior sonho das pessoas era poder ser livre para se expressar e sobre tudo, votar em um candidato a presidente, democraticamente. Entenda a luta contra a repressão, através das lentes de uma câmera.
JORNAL DIÁRIO DA MANHÃ
Redator-chefe: D. Martins Pinto
Diretor: Túlio Fontoura
JORNAL O NACIONAL
Diretor: Múcio de Castro
Redator-chefe: João Baptista Mello de Freitas
A palavra “democracia” vem do grego, “demos” e significa povo. Em um governo democrático o poder e a responsabilidade cívica são exercidos por todos os cidadãos. Democracia, é o que o povo brasileiro buscou durante os 21 anos de repressão que o Golpe Militar gerou no país.
Implantado no Brasil em 31 de março de 1964 à dezembro de 1985, o regime militar foi autoritário e traumático. Eleger um presidente da República, depois de duas décadas de militarismo, foi uma das maiores conquistas da população brasileira. Em 1984, a democracia viria a vencer a elite militar. O movimento “Diretas Já”, foi um marco brasileiro e levou milhões de pessoas às ruas exigindo a democracia no Brasil. Os quinze meses de campanha da “Diretas Já”, abalaram o regime militar e abriram caminho para governantes de esquerda. José Ernani Almeida disse: “Que nos livremos para sempre de episódios que aconteceram em um passado não tão distante e que prevaleça sempre a liberdade de expressão.”
Uma produção* do
Núcleo Experimental de Jornalismo (Nexjor)
da Faculdade de Artes e Comunicação
da Universidade de Passo Fundo
Coordenação:
Bibiana de Paula Friderichs
Professores:
Fabiana Beltrami, Fábio Rockenbach,
Nadja Hartmann e Maria Joana Chaise
Funcionários:
Nathalia Leal Dall Agnol, Marcus Vinícius Freitas

Estagiários:
Cinara Crestani, Eduarda Ricci Perin, Luana Hemerich, Marina Giolo, Maryana Rodrigues, Matheus Moraes, Priscila Kaiper, Roger Gritti, Thaís Biolchi e Vinícius Coimbra
Texto, fotos e apuração:
Eduarda Ricci, Maryana Rodrigues e Thaís Biolchi
Infografia e montagem:
Marcus Vinícius Freitas
*PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 2014.