Nunca consegui compreender a banalização de certas coisas. A velocidade da modernidade devora tudo com o que se depara, inclusive o amor. Eduardo e Mônica já não têm dois filhos. O relacionamento amoroso não durou tanto quanto o cantado, e se não durou foi por que não existiu. Paixões sim, amores não. E mesmo se tratando de amor ágape, o amor fraterno que acontece entre amigos, esse já espera retribuição e passou a comércio de prazeres e necessidades. Acredito que é pela falência desses que chegamos à individualidade moderna.
Mônica quer se preservar. Eduardo evita relacionamentos. O que a música não canta é o que se conta em outros versos: “não existem razões para as coisas feitas pelo coração”. No prazer, as noites do casal dizem muito, mesmo que seja sobre o amor pornori, aquele que origina a palavra pornografia. Inclusive nesse, Eros ronda como um anjo a procura da Psique. Seria possível Antonio Canova esculpir “O beijo de Eros e Psique” se esses já não retratasse a Grécia Clássica? A modernidade afoga sentimentos pela liquides das relações e torna frágil todo tipo de laço. Laços feitos com fios de seda. Talvez por isso, também, que tenhamos substituídos estátuas milenares por grafites. Não entra em questão conceitos de arte, mas sim sua duração. Sim, vivemos tempos líquidos. Nada é para durar. Quem nunca viu ou viveu amores de inverno? Casais que assinam contrato como se estivesse alugando um apartamento. Normal?
Hoje esse pensamento me espreme na parede e me faz escrever devido a últimos acontecimentos. É frio e a água se solidifica rapidamente, basta um choque térmico entre a neblina da manhã e o sol nascente para que gotas de orvalho transformem-se em geada. Se até a água se solidifica com a simples força da natureza, por que o amor está com dificuldade? Vamos ao ponto! A situação que presenciei, além do frio e da geada, foi o fim de um namoro sólido de dois amigos. Ambos pretendem liquidificar suas relações. Isso é péssimo, – juízo de valor – mas não sou o bastante para desligar o liquidificador gigante que engole as pessoas e as faz pasta que escorre pelos dedos. A temperatura elevada, mesmo no inverno, nos faz impulsivos ao transgredir, substituir, trocar. Não me coloco fora disso, mas hoje estamos para falar dos outros, do casal de amigos. Pera ai, não seria mais um sinal da falta de amor esse “falar dos outros”? Bom, paremos por aqui já que o desamor nos toma.
Só preciso amontoar mais letras, nada de delongas. Mônica e Eduardo aprenderam muito juntos, é isso Renato? Bom, sábio foi o Russo ao relatar toda a mudança de dois personagens ao se encontrarem sem querer. Tudo bem que era uma festa nada normal. Uma festa estranha onde provavelmente não tocava sertanejo universitário, sinônimo dessa modernidade liquida que falei um pouco acima. Eduardo aprendeu a beber e agora, de cabelo comprido, completa Mônica, a médica de cabelo vermelho. Mas mais sábio que Renato Russo seria o escultor que resolvesse eternizar as relações passageiras. Em vez do beijo de Eros e Psique, por que não a ficada de Eduardo e Monica?
