No dicionário, bairrismo “é o apego excessivo de uma pessoa ao seu bairro, à sua região ou terra natal, o que leva a sobrevaloriza-los em relação aos outros; qualidade bairrista.” Na prática, o povo do Rio Grande do Sul é conhecido por levar esse conceito a sério, gerando controvérsias de muitas pessoas em relação a esse comportamento considerado orgulhoso em excesso.
O estado do Rio Grande do Sul tem costumes bem diferentes do restante do Brasil. O sotaque característico, o chimarrão, bordões, fazem dele um estado cheio de características próprias. O gaúcho tem tanto amor pela cultura de seu estado que quase não permite que ela se espalhe, fazendo parecer que só é bom quando se está no Rio Grande.
Não se pode falar em bairrismo gaúcho sem lembrar-se do possível momento em que os sulistas começaram a venerar a terra aonde vivem. Em 11 de setembro de 1835, o General Antônio de Souza Netto proclamou a República Rio-Grandense na batalha do Seival, na cidade de Bagé, um ato contra o então Império do Brasil que cobrava dos gaúchos impostos exorbitantes e dava preferência ao comércio de charque uruguaio.
Desde então o gaúcho jamais deixou de expor seu orgulho por ter nascido no Rio Grande. Mas é importante salientar a diferença entre bairrismo e tradicionalismo, que algumas vezes são confundidos como o mesmo. Tradicionalismo são os valores do passado do Rio Grande do Sul que resistem ao tempo e que são ressaltados e cultivados. É o caso dos CTG’s, do uso da indumentária gaúcha, do costume do chimarrão entre outros.
Bairrismo é a convicção que o seu local de vivência é o melhor para se viver, com qualidades, culturas e costumes superiores aos outros. No Rio Grande do Sul, o bairrismo está presente nos times de futebol Grêmio e Inter, no hino rio-grandense, na literatura regional, na música e entre outras várias formas em que os gaúchos salientam o amor pelo estado.
As opiniões se dividem quando se expõe a questão do bairrismo gaúcho. Por um lado, gaúchos que apoiam o bairrismo consideram esse sentimento como crucial para a identidade do Rio Grande do Sul, por outro, existe a outra parte que considera as atitudes bairristas sem fundamento e egoístas.
Para Adriane Rebechi Rodrigues, Primeira Prenda do Rio Grande do Sul 2010/2011 e Diretora do Departamento Cultural do MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho) em 2012, ter esse sentimento é fundamental para preservar a cultura do estado, mas é preciso mantê-lo de forma sadia. “Somos gaúchos, mas também somos brasileiros”, ressalta Adriane. Para ela, o bairrismo não prejudica a imagem do RS em relação ao outros estados do Brasil, e a prova disso é a criação de muitos CTG’s em outros estados.
Sabe-se que o Rio Grande do Sul é uma terra com cultura própria, mas que teve toda essa bagagem cultural herdada dos muitos povos que passaram por aqui durante os tempos de colonização, como Portugueses, Africanos e Espanhóis. Por tanto, ao analisar a história do Rio Grande do Sul não se pode dizer que é um país com um povo dito puro, pois é formado por pessoas de etnias diferentes, é um estado que traz claramente na população heranças de muitas nacionalidades.
O diferencial que tanto gera orgulho está em cultivar algo único, que é próprio do estado, e que como uma herança tão antiga merece ser preservado. Luíza Monteiro, Diretora de Cultura da 7ª Região Tradicionalista e professora de história, o bairrismo correto, que é ter orgulho do Rio Grande do Sul sem desmerecer os outros estados é necessário, pois não se pode ficar inerte diante de uma cultura tão rica como a do RS. “Não podemos dizer que nós gaúchos somos o melhor, mas o que temos de melhor tem o direito de ser mostrado”, comenta ela sobre as várias formas de cultuar as tradições do estado.
O bairrismo não se limita apenas a pessoas que participam de atividades tradicionalistas. Para Airto Timm, que já foi parte do conselho diretor e um dos primeiros coordenadores do departamento estadual do MTG “existem muitas pessoas que não precisam estar de vestido de prenda ou de bota e bombacha para ter um bairrismo saudável, em defesa da cultura do nosso estado. Essas pessoas mesmo que não tenham muito conhecimento sobre o Rio Grande do Sul, são tão gaúchas quanto às pessoas que participam ativamente do Movimento Tradicionalista Gaúcho.” Timm ainda diz que os próprios gaúchos devem incentivar seus conterrâneos para que não façam do bairrismo sinônimo de agressividade e desrespeito com a cultura alheira. “Todos os estados tem sua cultura, e o rio-grandense deve enaltecer o Rio Grande do Sul respeitando os outros.”
Professor Luiz Carlos Golin, mais conhecido como Tau Golin, historiador e jornalista, afirma que na região do Planalto Médio, que abrange Passo Fundo, o bairrismo tem como característica uma construção de identidade que não existe. “A figura popular da região é o caboclo, não o gaúcho, pois este é originário da fronteira do estado”. Tau Golin também conta que o bairrismo quando é territorial, faz com que o povo deixe de analisar uma obra apenas por idolatrar quem a fez. “Um exemplo é o Teixeirinha, as pessoas não conseguem criticar uma música do cantor mesmo que ele cante sobre coisas como machismo, mas isso as pessoas relevam”.
O bairrismo pode ser o fator que leva os outros estados do Brasil a criar piadas e bordões sobe os gaúchos, como as grandes emissoras não perdem uma oportunidade de encontrar defeitos no RS em TV aberta. “O isolamento cultural faz com que o RS seja uma cultura que não permite que outro tipo de costumes, e o impõe de uma forma que não admite mediações”, comenta Tau Golin. Isso faz com que seja eliminada do estado as outras ricas formas de cultura brasileira, que é mista e traz uma bagagem cultural tão variada e antiga quanto a do RS, com músicas, ritmos, gastronomia a sotaques diferentes.
É preciso saber cultivar a cultura do Rio Grande do Sul, mas sem extremismos, sabendo que existem outros povos e outras culturas que também sentem amor pela sua região. O respeito é mútuo quando se sabe até onde vai o espaço de cada um.

