Como ramificação do romantismo do século XIX, a literatura fantástica que traz vampiros, bruxas e seres estranhos ocupa-se do terror e do imaginário humano para preencher páginas e ganhar leitores. Desde seu auge em 1897 com Drácula, a narrativa gótica trouxe característica sanguínea à literatura e ao cinema. Dois séculos depois, o terror passa a arrepiar a pele e trazer novos adeptos para leitura brasileira. E o melhor, o suspense é prata da casa.

Bruxas, fadas-amazonas, magia escura, guerras, lobos. O mundo fantástico volta a sobrevoar o universo da literatura e faz aparecer em letras os mistérios humanos. Narrativas onde romances, guerras, intrigas, fantasias e sonhos juvenis se entrelaçam para construir o final poético e mítico desse quebra-cabeça de tramas e personagens. Dragões de Éter, de Raphael Draccon, é uma dessas trilogias do fantástico que misturam influências que vão desde a arte marcial até os games que marcaram a infância do escritor. Sua trilogia atingiu 200 mil cópias vendidas.
Das páginas para a arte marcial
Mesmo que a temática das narrativas de Draccon, carioca de 32 anos, circundem o universo fantástico, o autor desce à realidade quando fala de seu maior ídolo. “Se deus fosse encarnar na forma humana, seria na forma do Bruce Lee“. Lee (李振藩), astro que aproximou oriente e ocidente através de filmes de artes marciais, tornando-se figura icônica por seus filmes criando até mesmo a filosofia que chamou de Jeet Kune Do, foi uma das maiores influências da escrita de Draccon.
A exemplo de Lee que rompeu fronteiras ao tornar a arte marcial mundial, Draccon diz pretender buscar novos leitores e promover o rompimento de uma cultura elitista que trava possibilidades de leitura. “A literatura por vezes é muito elitizada, e minha literatura fantástica procura quebrar a literatura destinada apenas à alguns. Quero com minha literatura fantástica popularizar ainda mais os livros” comenta. Raphael diz herdar das experiências com artes marciais o ensinamento de amar o que faz, passando verdade em cada palavra que escreve.
Com seu casaco estampado por Darth Vader, acompanhado pela frase “A força só é forte com esse cara”, boné e camisa emplacada pelo e vermelho logo de ThunderCats, ao falar dos games que influenciaram sua escrita e ocuparam sua infância Draccon se apresenta como típico “Nerd”. Não que isso seja mau, já que o escritor agradece à cultura pop por chegar onde está – é a liberdade cultural que Draccon expressa no vestir-se que permite seu processo criativo. “A indisciplina de algumas culturas te protege na hora do bloqueio criativo”, explica, sobre a temida hora “do branco” e o seu modo de escrever.

Narrador, ficha de jogador, livro dos monstros, mestre, dados. O mundo dos RPGs de mesa também formam leitores. “O RPG é a melhor escola para a construção de personagens. O jogo pede uma improvisação, e o escritor precisa ser um eterno improvisador” comenta Draccon. A fantasia dos games também influencia criação dos escritores e possibilita pensar a diversão dos jogos além da dimensão imagem.
Final Fantasy, Shadow Realms e outros games são inspirações que dão roteiros e novas perspectivas para Raphael tratar temas como a morte e a perda na literatura. “Esses jogos fazem parte do meu dia a dia, estiveram em toda minha infância”, comenta. “No Final Fantasy 6, lembro de uma cena que o samurai tem sua família envenenada pela água do vilarejo, e ele vê a família morrendo. Durante todo o jogo ele destina sua vida para encontrar os seus amores. Isso ensina muito”, lembra Draccon ao falar dos games em sua vida.
Assista a coletiva de imprensa com Raphael Draccon e André Vianco realizada durante a 15ª Jornada Nacional de Literatura:
httpv://www.youtube.com/watch?v=M-bw8zJe60c
